gut-gut não é sansão
Depois de ler muito do Kurt Vonnegut maneirista, fiquei pensando sobre o quanto ele dependeria daquela voz (que ele disse que aprendeu a usar nos tempos do colégio) de alguém sempre muito inteligente e resignado e pastelão – o tempo todo absolutamente consciente das próprias debilitações, mas nem por isso amargo. Daquela estética dele que bate no teto em Matadouro 5. Conclui, estupidamente, que sem esta voz ele perderia todas as forças – mais ou menos como se não tivesse tomado café da manhã e nem almoçado e estivesse subindo a Teodoro Sampaio as duas da tarde num fogoso calor de 38ºC. Restando um cego e escalpelado Sansão. Conclui que estava concluindo uma conclusão equivocadamente concluída (queria enfiar mais um conclu... aqui, mas não consegui), lendo A Revolução no Futuro (Player´s Piano – 1952), seu primeiro romance. Neste, máquinas substituem homens em larga escala, inicialmente em trabalhos braçais (o que já ocorre hoje) e posteriormente em tarefas mais sofisticadas, situação que eleva engenheiros ao máximo prestígio – algo parecido com que a ciência em geral é a panacéia da vez. A automatização garante maior produção e pouquíssimo desperdício, garantindo que o homem médio, apesar de ocioso, viva no conforto de microondas e lava-louças. Apesar de freqüentemente soar irônico, Vonnegut não usa a tal da voz, e se sai perfeitamente bem evitando – o que é muito bacana considerando que ele era iniciante – incorrer em obviedades, como discursos tecnofóbicos ou tecnocráticos. Em situações de conflito homem x máquina, movimenta os personagens de forma que o narrador (onisciente, neste caso) se abstenha da ridícula tarefa de ditar moralismos. O tom geral, e correto, é que o ócio é a morte para sujeitos que dependem grandemente de sua função na sociedade para afirmação de valor, e que o homem-que-aperta-o-parafuso, apesar de não saber, adora e precisa apertar parafusos.
Escrito por Luciano �s 23h34
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