the little hunter
Vou ter de esperar. Uns quatro anos, mais ou menos. Daí vou comprar um traje pra ela. Obviamente: um chapéu, uma blusa de botões, um cinto com um canivete vermelho de plástico, bermuda rente aos joelhos, e um par de botas de plástico (mas confortáveis) rosa, pra ela pisar displicentemente sobre poças de lama que agonizarão num splash lamurioso, molhando o tempo todo a barra de minhas calças; porque, claro, vou estar ao lado dela, ela acelerando o passo desesperadamente na tentativa de acompanhar minhas grandes passadas, ela segurando apenas dois dos dedos de minha mão gigantesca. Vamos caçar jacarés. [E vou contando pra ela que meu pai caçava jacarés, e que teve uma vez que ele pegou um filhote e levou vivo com ele, e chegando em casa um dos seus irmãos mais novos dormia sossegado e foi quando ele jogou o jacaré, um filhote, mas um filhote já grande, um jacaré vivinho em cima do dorminhoco. E todos riram bastante - depois de um tempo até mesmo o que dormia.] Às vezes um carrapicho vai agarrar o braço dela e ela vai chorar contidamente, solavancando os ombros no ritmo de soluços abruptos em intervalos regulares. Vou tirar o carrapicho com cuidado, e vou dizer que isto não é nada perto do estrago da mandíbula de um jacaré. Ela vai parar de chorar e me olhar assustada, os olhos já grandes e agora imensos. Vamos andar durante um bom tempo. E de vez em quando vou dizer olha-lá-o-tamanho-do-jacaré, e quando ela olhar na direção apontado o jacaré já haverá se ido, e vou dizer puxa-que-pena-que-você-não-viu. Por fim, vou dizer que todos eles fugiram morrendo de medo da gente, já que eles morrem de medo de caçadores de jacarés. * Daqui uns sete anos poderemos ousar mais. Até lá ela já saberá quase tudo sobre eles, a origem, seus poderes e vulnerabilidades. Vampiros. * A mãe dela vai brigar comigo, dizendo que ela não é um menino pra ser vestida deste jeito, e sair caçando jacarés e vampiros. E eu vou responder que convenções sociais são o pilar da mediocridade civilizada, mas vou me omitir de dizer que ainda que mediocre essencial pra tornar as coisas minimamente previsíveis e, consequentemente, civilizadas - torçendo pra que este argumento surta o efeito sofístico esperado. Vou passar antiséptico nos ferimentos decorrentes da caçada - os orifícios minúsculos abertos pelas garras sanguinolentas do carrapicho, o joelho ralado enquanto fugíamos de um bando de vampiros. Não vou precisar soprar; já que hoje em dia Mertiolate nem arde mais.
Escrito por Luciano �s 16h49
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