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"No tempo em que eu era garoto e ia ao circo, havia uma dupla chamada "As gêmeas Treviso" - Maria e Rosita. Rosita se equilibrava na cabeça de Maria, crânio contra crânio, e era carregada ao redor do picadeiro. Devido a este exercício extenuante, Maria tinha pernas curtas e musculosas e andava de um jeito gozado; toda vez que vejo minha mulher se afastando de mim, me lembro de Maria Treviso. Minha mulher é grandalhona. [...] Minha mulher e eu vivemos muito mal juntos, mas temos três filhos lindos e tentamos tocar a vida para frente. Faço o que tenho que fazer, como todo mundo, e uma das coisas que tenho de fazer é servir na cama o café da manhã de minha mulher. Tento preparar um bom café, porque deste modo às vezes consigo melhorar sua disposição de espírito, que normalmente é péssima. Certa vez, não faz muito tempo, quando cheguei com a bandeja, ela levou as mãos ao rosto e começou a chorar. Olhei para a bandeja para ver se havia alguma coisa de errado. Era um belo café da manhã - dois ovos cozidos, uma porção de mil-folhas e uma Coca-Cola com um pouquinho de gim. É assim que ela gosta. Jamais aprendi a prepara bacon. Os ovos pareciam estar bons e os pratos estavam limpos; assim, perguntei o que havia. Ela retirou as mãos dos olhos - o rosto estava molhado de lágrimas e os olhos estavam fundos - e disse, com sotaque típico dos Boysen:
- Não agüento mais ser servida na cama por um homem peludo de cueca."
Trecho do conto "A Quimera" - de "O Mundo das Maçãs e Outros Contos" - de John Cheever (na tradução de Paulo Henriques Britto).
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Deus é uma espécie de psicólogo originalmente freudiano que depois se encanou em Jung (quase todos, né?). E o resultado disto é que ele trata todo mundo com o uso contínuo de paráfrases.
Como você lá gritando para o Grand Canyon; e Ele eco, devolvendo suas afirmações e questões fantasiadas de paráfrase.
Deus é engraçado. Mas de um humor peculiar. Isso quer dizer que ele estará rindo convulsivamente enquanto você diz "ssassinhora, meu!".
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"Porém minha mulher estava triste. - O que foi, meu bem? - perguntei. - É que eu tenho a impressão de que eu sou um personagem numa dessas comédias enlatadas de televisão - disse ela. - Quer dizer, eu sou bonita, elegante, tenho filhos engraçados e bonitos, mas eu tenho uma sensação horrível de que estou em preto e branco e qualquer um pode me desligar. É isso, essa sensação horrível de que qualquer um pode me desligar.
Milha mulher com freqüência fica triste porque sua tristeza não é uma tristeza triste, e sofre porque seu sofrimento não é esmagador. Dói-lhe o fato de que sua dor não é lancinante, e quanto lhe digo que este sofrimento causado pelas deficiências de seu sofrimento talvez seja uma nuança inédita do sofrimento humano, isto não a consola. Ah, tem vezes que penso em abandoná-la. Imagino que consiga viver sem ela e as crianças, eu poderia viver sem a companhia dos meus amigos; mas não seria capaz de abandonar meus gramados e jardins, de me separar me das telas da varanda que consertei e pintei tantas vezes, de me divorciar do caminho sinuoso de tijolos que construí entre a porta lateral e o canteiro de roseiras; assim, enquanto minhas cadeias forem feitas de relva e tinta de parede, ficarei preso até a morte. Mas naquele momento senti-me grato a minha mulher, por ela ter afirmado que as exterioridades de sua vida pareciam um sonho. As energias desinibidas da imaginação haviam criado o supermercado, a cobra e o bilhete na lata de graxa. Em comparação com tais coisas, meus devaneios mais fantásticos eram tão prosaicos quanto as partidas dobradas de uma escrituração. Agradou-me pensar que nossa vida cotidiana parece um sonho e que, em nossos sonhos, encontramos as virtudes do conservadorismo."
Trecho do conto "Uma Visão do Mundo" - de "O Mundo das Maçãs e Outros Contos" - de John Cheever (na tradução de Paulo Henriques Britto).
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É batida a metáfora "do vaso nas mãos do Oleiro". Sobre a tal coisa Deus x Homem.
Eu prefiro pensar num Deus que é um massagista excessivamente mau humorado. O resultado final pode até ser bom; mas o durante é mesmo um inferno.
Ele estalando impessoalmente seus ossos, envergando sua coluna em máximo ponto de tensão, desdenhando da ciência de Resistência dos Materiais, te golpeando fortemente com musculosas mãos de padeiro. E você pensando que: putz lascou e agora vai quebrar de vez, meu Jesus!, minha nossa, minha mãe-de-Deus, afe Maria que não aguento mais.
Mas agüenta sim, pois o fardo é mais desajeitado que pesado. O fardo é uma caixa de papelão molhada cheia de tranqueiras. E você voltando toda hora para resgatar anjinhos caídos que despencam pelo caminho.
Escrito por Luciano �s 23h03
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