Ainda sobre a Teodoro Sampaio [repost]
Outro dia eu subia ofegantemente a íngreme rua Teodoro Sampaio quando vi a ponto de vesgar.
Um ônibus que subia a rua bufando e dentro um bando de corintianos; estes iam com as cabeças para fora das janelinhas estreitas, batendo repetidamente as mãos nas laterais do pobre veículo automotor e gritando rimas diversas. E ao ônibus só restava bufar. Ingenuidade de minha parte achar que se tratava de lenda, de simples chacota, quando se dizia que corintianos tinham este costume feio. Na hora nem senti nojo, mas apenas medo. Sei lá, talvez eles mordessem; ou pior, talvez eles achassem que eu era amigo deles e arremessassem um sorriso para mim.
O retrato de um corintiano sorrindo - com todas as nuances, ausência dos dentes frontais, ou presença de frontais esteticamente prejudicados - me perseguiu até o fim daquela noite. E a soberba rima "a-e-i-o-u, o todo-poderoso vai partir pro Pacaembu" martelou meus ouvidos durante algum tempo.
O horror. Mais um trauma para meu currículo; o que seria um caso de psicanalista caso eu acreditasse nesses sujeitos que têm obsessão pelo pinto dos outros.
Mas o interessante é que depois do episódio fiquei refletindo sobre a séria questão científica: um corintiano conseguiria imitar um ser humano a ponto de passar no teste de Turing?
Escrito por Luciano �s 23h23
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sobre outro morcego, o enciclopédico
A descrição que Andreis faz de Borges pode ser aplicada quase na totalidade. Mas não toda-toda, creio. Lá o tempo todo com as obsessões dele: tigres e espelhos e labirintos e brigas de faca; e o citado lance dele operar em níveis até então não pensados. E adiciono a tudo isto o fato dele usar toda a filosofia, enciclopedinia e pouca variação em temas como tripé da sua estética. Por isto entendo que Borges é sim, muito do consciente, e não soa fake-sem-querer justamente porque toda aquela cultura não é academicista, não alavancada pela escrita de monografias lato-stricto-sensu. Tudo muito natural desde pequeno; diferente de nós aqui, todos sempre ouvindo o estampido da largada horas depois do fim da corrida.
Mas é verdade que Borges, assim como John Cheever (este mais em romance e menos nos contos), não é uma coisa de escritor de profissão. Então, vamos dizer, ó, é como se estes dois fossem profissionais quaisquer. Um Borges bibliotecário (antes de tudo ele é o leitor) e Cheever fiscal de rendas, e ainda assim ambos fazendo a coisa toda direitinha em literatura. E este é um talento maior do que daquele que nasceu sem poder ser outra coisa que não escritor (e ouço falar que os escritores contemporâneos são todos assim, né?); então que invoco o título de gênio para tais competentes bibliotecários e fiscais de renda.
Daí o efeito de imitação da literatura. É assim mesmo...
(em paralelo, óbvio e tal, preste atenção, não vá ver Planet Terror, do Robert Rodriguez, e sair crente que aquilo é um filme b; e nesta linha vejo como From Dusk Till Dawn seria melhor se em sua segunda parte se seguisse o tom geral de Planet Terror)
... a gente vê as arestas, mas elas estão todas lá nos encaixes perfeitos,...
(e antes que eu me esqueça, enfio um parêntese aqui também para dizer que tudo isto se aplica a Muriel Spark, uma tiazinha que faz tricô para fora, e ainda lá com seus esboços de personagens que, claro, não são bonequinhos mal construídos ou inacabados, mas pinceladas legítimas e suficientes em si mesmas)
...não como tentativas falhas, mas apenas o reflexo daquilo que tem de ser assim mesmo, como a sombra das coisas todas.
Penso em Borges voluntariamente exilado na biblioteca de seu pai, num subúrbio de Buenos Aires. Ouve milongas enquanto com uma mão para o alto e a outra colada à pança arrasta os pés pela casa. Traduz O Príncipe Feliz, de Wilde, aos 9 anos. Escreve Ficções aos 44 (!); aos 49, O Aleph; e aos 75, já cego, dita o Livro de Areia.
Não é normal. É extraordinário. Único.
Gênio.
Escrito por Luciano �s 01h52
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dom [repost]
Eu tenho o dom de visões. Não ria, é um fardo. Há alguns é dado o dom da sabedoria, a outros o da profecia, a outros o de falar em línguas estranhas e a outros o de interpretá-las (I Coríntios 12:8-10). Eu tenho o dom da visão. Inclusive o dom de ver coisas que não quero, como, por exemplo, uma "moça" de cabelo-laranja-curto-rente-ao-couro-cabeludo, usando um casaco de pele branco e uma calça colante preta de couro - do sapato não lembro bem, só sei que também era muito feio. Foi no metrô, e na ocasião quase deixei cair o livro que estava lendo, "O Arquivo Dalkey", de Flann O'Brien. Por instantes pensei que a visão era efeito de minha leitura, pois o livro é de literatura do absurdo, em que uns camaradas fazem um colóquio submarino com Santo Agostinho, e também há um episódio em que um padre oferece um emprego a James Joyce, cuja tarefa seria a de cerzir cuecas de padres jesuítas - este é o "momento gargalhada" do livro. O livro é divertido, mas não chega perto de "O Terceiro Tira" - livro do mesmo autor.
Mas eu estava falando do metrô. Sabe? Existem variadas formas de perder a dignidade, e dentre estas andar de metrô é uma das mais eficazes. Estranhos se esfregando em você, falando alto, impedindo que você leia em paz; estranhos ofendendo a todos com sua feiúra e mau cheiro; estranhos que dizem "Ni" à velhas senhoras. O mundo é cruel e cheio de visões terríveis. Percebi isso muito cedo, quando ainda beliscava impunemente os seios das moças, o que resultava, no máximo, numa leve repreensão da categoria "Que menino safadinho!". Nessa época, numa conversa casual, uma moça bem mais velha que eu - que já não era bonita, e para ser sincero digo que era bem feia - abaixou-se para pegar algo, quando então pude ver, enquanto esfregava meus olhos nervosamente e estupefato pelo terror, um tufo de pêlos entre seus seios muxibentos. Nunca mais belisquei seios alheios, e me arrependi destes pequenos pecados.
E por falar em pecados e visões terríveis, ontem assisti um bom pedaço de "O Devorador de Pecados", um filme que trabalha a tensão entre o profano e o sagrado, a redenção e o pecado. Ri muito e falei para minha mulher: "Jesus! Dê, olha só que filme ruim", e ela, lá do quarto, perguntou "Então por que você está assistindo?", e eu respondi "É mesmo, por que eu estou assistindo?". Mas continuei assistindo, e rindo. E fiquei um pouco triste, é claro, por perceber que minha visão, mais precisamente a moça-careca-de-cabelo-laranja, teria gostado muito do filme; e meu coração foi torcido feito uma camiseta velha, destas que as lavadeiras torcem com seus braços musculosamente adiposos, enquanto cantam músicas do Djavan e do Caetano Veloso. E também fiquei sorumbático por ver que o protagonista, Heath Ledger, faz muitos filmes ruins.
E eu que, às vezes, reclamo da vida! Mas imagine se você fizesse muitos filmes ruins. Imagine a dor: “Jesus! Eu faço muitos filmes ruins! Oh, a dor! A dor!”.
Mas, como dizia o filósofo Aristóteles - ou Genival Lacerda, não lembro -, sempre há uma saída. Se eu fosse Heath Ledger daria um jeito de driblar a baixa estima dizendo a mim mesmo: "Poderia ser pior, eu poderia ser a Regina Casé". E logo me esqueceria de que faço muitos filmes ruins e diria com firmeza: "É, eu não sou a Regina Casé, muito menos a Regina Duarte"; e seria feliz como uma pomba rola planando no ar - fazendo muitos filmes ruins, mas sendo alguém que não é a Regina Casé - ou como um golfinho que salta nas águas do mar azul - fazendo muitos filmes ruins, mas sendo alguém que não é a Regina Duarte.
Hei, vocês todos, que não são a Regina Casé nem a Regina Duarte, vocês têm o MAIOR dom de todos. Levantem o queixo proeminente e a braguilha, encham o peito de ar e gritem retumbantemente: "Eu não sou a Regina Duarte! Eu não sou a Regina Casé! Eu tenho o dom maior! Eu tenho o dom maior!”.

Heath Ledger, que não é a Regina Casé.

Povo brasileiro, que, apesar de tudo, não é a Regina Casé (Tá, tudo bem, o povo brasileiro tem muito de Regina Casé, mas não é a própria).

Regina Duarte, que ao menos pode argumentar que tinha razão para dizer “Eu tenho medo!”, e que não é feia como a Regina Casé.

Regina Casé, que não tem outra opção senão admitir que é a Regina Casé.
Escrito por Luciano �s 02h26
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