tdk (2008) – de zorbas por sobre as calças

Em Begins impliquei com Christian Bale porque achei que aquele nariz dele não é um nariz de Batman que se preze. Nem pergunte. Mas agora com The Dark Knight devo admitir que Bale funciona muito bem. Não é um nariz de Batman, ok, mas é um nariz perfeito para Bruce Wayne, porque quando Wayne está sob Batman, Wayne e Bale desaparecem direitinho.
Sério, Bale é bom ator e faz um bom Bruce Wayne com seu nariz afilado, diferente do Michael Keaton e aquele seu cabelo-lourinho-cacheadinho-cheio-de-bobs e sobrancelhas circunflexiais.
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Os roteiristas Jonathan e Christopher Nolan fizeram muito bem em absorver, além do título, apenas o essencial do Dark Knight de Frank Miller. Essencialmente, um Batman freqüentemente transgressor e violento além do necessário. De Miller, que li décadas atrás, me lembro particularmente de “por princípio não mato, mas posso machucar bastante” e “ouço o som da coluna dele se quebrando, mas ele é jovem e com sorte andará de novo”; em paralelo, de Nolan temos “Batman não tem limites, e eu [Wayne] não me dou ao luxo de conhecer os meus”. Em Nolan e Miller o único princípio absoluto: “não matarás”. Nem herói, nem anti-herói, sempre um precário equilíbrio. Mas, importante, nunca um desequilíbrio mulherzinha do tipo [arrancando cabelos não cacheados] “oh, quem sou eu mesmo?”.
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Begins é bom, mas não ótimo por vários fatores. Prólogo interminável. A montagem, na transição entre cenas de ação e não-ação não funciona tão bem, resulta em um ritmo meio solavancado. Além da própria concepção da Gotham, não gótica como a de Tim Burton (que, ok, era estilizada), mas ainda assim sombria além da medida justa para uma concepção, er, realista.
TDK é excelente porque corrigiu quaisquer das imperfeições de Begins, além de trazer um tanto a mais em bônus. Lembro bem das transições, em que a cena de ação sempre termina quase que durante no ápice, às vezes até ligeiramente antes, num corte rápido de efeito suspensivo, aumentando a tensão gradativamente. E nisto a ambientação é essencial. Gotham deixa de ser uma entidade independente e pré-definida, um personagem esquizofrênico a mais, sendo o quê de fato as cidades são, resultado da arquitetura, clima, cores, comportamento humano, e, principalmente, aquele amálgama nebuloso que está apenas na percepção dos próprios habitantes. É uma Gotham mais abstrata, não sustentada por arquitetura gótica, nem dependente de ser necessariamente uma cidade noturna - veja como há um equilíbrio entre cenas noturnas e diurnas –, mas uma cidade que imperceptivelmente emerge de tudo que há nela. Sim, mais assustadora porque indefinível.
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Como toda estória de herói que se preze, o filme de Nolan é maniqueísta. Gordon (Gary Oldman está mesmo muito bom - 30% do mérito para o bigode e óculos exatos -, e tão naturalmente perfeito que todo mundo diz isto mas ninguém entende exatamente o porquê) é a encarnação do “comum” homem de bem, sustentando seus princípios em um meio absolutamente corrupto. Já o discurso do Coringa sempre tende para um relativismo moral (nunca amoral); desce a pancada no maniqueísmo mas não nos convence. Seu discurso aponta o alto preço em se separar bem e mal, e em como os planos para trilhar o caminho estreito por vezes fracassam etc., e ao mesmo tempo ele próprio é evidência do homem à deriva no caminho largo, a passos rápidos com os confortáveis sapatos da resignação. Porque a justiça, apesar de considerar meandros e blablabla, é sempre maniqueísta em seu resultado final – os fins podem atenuar, mas não justificam os meios. O Coringa quer provar que todo mundo pode vir a ser como ele, e isto ele tenta com Gordon, com Batman, com os cidadãos de Gotham nas balsas, obtendo efeito em Harvey Dent, que seria a encarnação do bem (olha aí mais uma vez onde o messianismo vai parar) - mas um êxito parcial, já que Dent é mutilado simultaneamente no físico e psicológico.
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Não acho tão exagerados os odes ao Coringa. A questão é a confusão geral entre personagem e ator. Heath Ledger fez muito bem o seu trabalho - até que enfim um filme bom, né, rapaz -, mas o que todos esqueceram é que o ator é responsável primordialmente pela execução (onde há mérito, sem dúvida). Apesar de Ledger acabar fazendo a “arte final” do personagem, quem dedilha os títeres é a dupla Jonathan e Christopher. O Coringa é excepcional, mas o mérito de Ledger é restrito. Você poderia argumentar que neste sentido o mérito do ator sempre seria restrito. Mas não, você não vai argumentar isto, porque entendeu muito bem que eu quis dizer que neste caso o Coringa não existiria sem o roteiro e/ou direção em questão; bem diferente de outros casos em que atores, normalmente coadjuvantes, pegam um personagem qualquer e fazem dele um monstrinho grandioso a revelia da concepção original, escamoteando clichês do roteiro, e às vezes até fazendo troça [uma piscadela discreta vez em quando] da direção.
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Se falarmos em mérito, além dos personagens coadjuvantes, da cidade, do Coringa de Oscar póstumo, do Gordon, do Bale, de tudo isto e muito mais que tem sido dito, preciso lembrar todo mundo quem é o maior responsável? Hein?
- Mas de quem você está falando, Luciano? Do cara da fotografia? Dos efeitos especiais? Da maquiagem? Dos designers e engenheiros que bolaram os veículos? - Não. Repita comigo, amigo: Chris-to-pher No-lan. Chris-to-pher No-lan. Diretor, co-roteirista e, putz, produtor!
O fato é que Nolan está se tornando cada vez mais irretocável.
Escrito por Luciano �s 22h48
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hard times - three mice rescued from pet store and 65 chickens liberated

Humoristas lascados, já que o povo aí fazendo humor (involuntário) da melhor qualidade.
Escrito por Luciano �s 14h13
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vários posts curtos para compensar longos; e agora este só título
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Escrito por Luciano �s 23h15
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há tempos estou para dizer
Ouçam Vampire Weekend. Oxford Comma / Campus / Cape Cod Kwassa Kwassa / A-Punk / Boston / Mansard Roof / Walcott
Escrito por Luciano �s 23h12
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believe me, danço igualzinho o thom yorke
Veja.
Escrito por Luciano �s 21h57
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e por falar em highbrow: vitor fasano
"Prometi pra mim mesmo que hoje vou separar uns minutos para bater palma pro pôr do sol em Ipanema. Forever Young!"
"Rodízio de sopas no terraço itália (42 reais). Esta semana vou me entregar de coração a esta maravilha da culinária. Aceito sugestões? sim"
"QUE DIA MARAVILHOSO! sinto uma onda de brasilidade contagiar minha alma após esta adorável viagem. Talvez um delivery de acarajé resolva"
E assim por diante. Aqui.
Escrito por Luciano �s 23h06
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um filistinismo mais limpinho; um mundo melhor
A Ironia Contemporânea (IC), como bem batizou DFWalisticamente o Tiago, é recurso recorrente de duas turmas (não que existam só duas turmas, oh, meu cabeçudo leitor, faz favor, não fique pulando e soltando gritinhos agudos enquanto eu generalizo, senta aí e escuta):
1. gente que não sabe nada de nada – e que por isso se esconde (subtipo a) ou que por isso se orgulha (subtipo b); 2. gente que sabe alguma coisa e morre de medo de que alguém saiba que não sabem tudo – como se ninguém soubesse.
O deadlock da segunda turma - o highbrow 24x7 - é efeito colateral do apego desesperado ao perfeitinho. Uma ambiçãozinha de idealizar coisa qualquer, onde grande parte da turma invariavelmente critica, com razão, a baixa cultura, e ao mesmo tempo idealiza ao extremo o cinema, literatura e arte e tal e coisa. Então não bastam os Christopher Nolan ou os David Fincher. “Não, não, Hitchcock sim, Truffaut sim, estes eram cineastas”. Daí o fato que nunca marcarem posição, exceto nos casos de prática unanimidade em torno de nomes que - embora possam ser pouco reconhecidos em certos grupos - no mundo da segunda turma correspondem ao que há de melhor, ou nos casos de nomes pouco conhecidos, cuja menção já remete àquela aura de exclusividade que nasce fácil do obscuro.
Fácil elogiar Tolstói e Shakespeare, e eventualmente acertar uma ou outra unanimidade para exercitar a iconoclastia; mas há resistência em admitir que o escritor contemporâneo x escreveu um livro muito bom, que a banda pop y faz boa música. E quando há algum tímido elogio, este é seguido por uma enumeração de deméritos devidamente carregados de IC. No que IC se torna não mais gratuita, mas um artifício bastante útil para brincar de esconder. E a razão do esconde-esconde, arrisco aqui, está no temor de deixar a mostra as fissuras e incompletudes de um senso estético cambaleante. E talvez pior, a falta de auto-conhecimento e conseqüente inconsciência do próprio senso estético. Daí um abster-se de julgamento até compreensível e justo sobre aquilo que está na zona fantasma entre o ideal e o ridículo; não fosse a desonesta sabonetada.
(E você pode ter certeza, amiguinho highbrow freak, que mesmo de relance dá para ver frestas adentro o seu terror de ser pego - mesmo quando você está escrevendo entusiasticamente sobre os melhores do mundo.)
Em outro aspecto está o fabuloso contato humano, e fico curioso sobre como nosso amigo highbrow freak se comporta em casa. Se despreza os próprios pais ou irmãos quando estes são pouco instruídos ou burros como hidrantes ou as duas coisas. Porque é mesmo divertido sapatear na cabeça de desconhecidos boçais; mas e quando o boçal é aquele do qual você gosta tanto? - Mamãe, esconde aqui debaixo da mesa que meus amigos highbrow acabaram de chegar!
Então a brincadeira fica bastante triste, sobrando pouca coisa para amar.
Como certa vez escreveu o Júlio, precisamos menos de gênios e mais de gente que trabalhe e faça algo de bom, mesmo que este não seja o melhor. Porque os gênios são uns míseros por geração, e os esforçadinhos somos todos nós, meu caro. Mas, vê lá, não faço apologia à mediocridade. A questão é que há confusão das grandes entre o bom, o ótimo, o genial, e aquilo que é medíocre. O genial é quase incidental, são casos do ótimo que se torna único por sua reverberação no futuro, por servir de base para estruturas que só vieram a existir em conseqüência de. Então vamos fazer sempre o bom e o ótimo, e deixemos o juízo lá para a tal da posteridade.
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Já o comportamento da primeira turma da IC, subtipo b, é conseqüência do mesmo problema de idealização. Então "The Big Lebowski" (1998) já não é apenas uma comédia bacana, mas se torna também o porta voz dos loosers (prole do The Dude). Ao invés de serem loosers em determinadas áreas, o que é comum mesmo entre os gênios, se tornam loosers em tempo integral, todos orgulhosos de andar o dia inteiro de roupão, tomando coquetéis alcoólicos no café da manhã e chorando por tapetes como se fossem entes queridos – tudo isto supostamente com IC. Algo como: “Sou looser porque não me vendo ao sistema, trabalhando oito horas por dia por um salário como qualquer um. Não, não senhor”. Idealizam tanto o sucesso que acham necessário vender a alma para chegar a qualquer lugar. Um mix de niilismo e anticapitalismo de botequim, um Bazarov de boina e pochete.
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Voltando a segunda turma, mais especificamente pensando no subconjunto blogolândia, tal comportamento também é reflexo do grande filtro mental que se tem ao escrever em blogs.
Na real, no bar, no almoço de trabalho, no jantar de família, é difícil esconder os gostos middle ou mesmo lowbrow (que não necessariamente serão baixa cultura, mas que não fazem parte da alta, sendo basicamente aquela cultura pop pouco ou medianamente sofisticada, solidificada nas últimas décadas porque resistente a algumas gerações, indicando algum sentido de permanência).
Já nos blogs temos o recurso da prévia escolha do tema e da edição.
[IC on] Daí todo mundo com gostos perfeitinhos, citando Dante, William Blake e escritores russos o tempo todo. [IC off] =P
Escrito por Luciano �s 01h03
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wall-e

Lendo este post da Ieda sobre "Wall-E", não pude deixar de fazer este mal traçado contra-post.
O.O reflexão filololosófica sobre a coisa-em-si Uma verdade não deixa de ser Verdade quando dita por porta-vozes idiotas. O acerto é incidental? Na maioria das vezes. Irrita? Sim. Constrange? Também. Mas continua a Verdade lá, te observando com olhos esbugalhados.
O risco de um idiota ter razão – e, graças, ocorre na ordem de centésimos percentuais – é repelirmos a verdade em detrimento ao porta-voz.
Mas espera aí que eu começei do fim e é melhor começar de novo.
O.O aquafobia – de Spectreman a Wall-E E se o mundo todo virar uma rua Teodoro Sampaio? Suja, barulhenta até seus tímpanos sangrarem, ônibus lotados bufando e expelindo toneladas de CO2, gente feia, churrasco grego, bancas de pururuca, camelôs, calçadas destruídas. “O horror, o horror”.
Este é o argumento base de "Wall-E": o mundo todo uma Teodoro Sampaio, exceto pela gente feia e poluição sonora, porque a Terra foi abandonada há muito pelos humanos.
Uma mundial Teodoro Sampaio. Mas poderia ser uma hecatombe nuclear. Peste. Dilúvio. Saraivada de fogo e enxofre. Granizo. Gafanhotos. Alias, o argumento não é novo. Há quase quatro décadas Spectreman já era obrigado a lutar com monstros nascidos da poluição, e recentemente em “O Hospedeiro” (de Bong Joon-ho) o mostro linguarudo também resulta de mutações causadas por poluentes.
Os ecologistas apocalípticos são chatos? Sim, poucos conseguem chegar a tanto. E idiotas com um discurso ambientalista “proteja as árvore, ame os bicho” me dão vontade de sair chutando cabeças de micos-leão-dourados, empunhando um moto-serra a fim de não deixar uma só roseira em pé. Mas, convenhamos, um certo senso de assepsia que vem no pacote do ambientalismo serve muito bem a nossa terrinha, um país de gente suada por natureza.
Um argumento politicamente correto? Nem tanto, poderíamos ter “aquecimento global”, e daí sim teríamos um roteiro do Al Gore.
Mas digrido e degringolo demais.
O.O primeira parte – fred astaire de armadura Na imensa Teodoro Sampaio temos o único robô ativo na Terra, cuja tarefa é cuidar da sujeira. Prensar lixo, gerar cubos e amontoá-los em pilhas gigantes tão altas quanto arranha-céus. Mas Wall-E não se limita por sua diretriz. Recolhe, em meio ao entulho, objetos que remetam a algum senso estético. Coleciona, é melhor dizer, pois separa os itens em prateleiras, insanamente zeloso. Quando em casa, Wall-E assiste musicais o tempo todo, ensaiando passos, usando uma tampa de lixo como chapéu. Tão sentimental, na boa acepção da palavra, que é praticamente filhote de Shakespeare.
A primeira parte do filme (sem dúvida a melhor, e não tomei tanta manga com leite a ponto de discordar), se resume a Wall-E solitário, com todas as brilhantes expressões que os roteiristas e desenhistas conseguiram tirar de um robô. Depois Wall-E acompanhado de uma temperamental visita – o primeiro encontro, o acanhamento, o nervosismo, tudo totalmente livre de pieguice. E, nossa, e aquela trilha sonora!?
Só isto já vale o filme; não importando o que há de vir. Poderiam colocar um filme brasileiro na segunda parte, uma porção de comerciais das casas Bahia, um filme do Oliver Stone com trilha sonora do Calypso. Ainda assim...
O.O segunda parte (em que eu não tinha mais onde enfiar *** SPOILERS ***) - pelos ovários de madame bovary Na segunda parte há apenas uma referência pontual, feita pelo comandante, sobre voltar e dar um jeito de cuidar da Terra, sobre “enfrentar o problema”. Coisa de algumas frases, nada tão proselitista.
Pregando ambientalismo? Não vejo. Ao menos não como os idiotas fazem hoje, estúpida e languidamente. Se há uma lição moral explícita ela é rápida, daqueles acenos tímidos de “ei, olha aí, ok?”.
Apesar de não ser cute como a primeira, a segunda parte é, sim, bem elaborada. Vejam, a planificação geral é absolutamente intencional. Cores mais uniformes, praticamente nada de imprevisível, humanos planos (seja no visual ou sentimental) – a Terra é mais bacana mesmo lascada. Este é justamente o contraponto, pois o único que se comporta como humano é o próprio Wall-E. Pense, os humanos estão há 700 anos em um cruzeiro espacial, onde a tecnocracia , indolência e resignação, - e não o consumismo, repito, e não o consumismo, porque o motor do consumismo é diferenciação contínua, e lá na colônia humana todos são iguais, como em um regime comunista -, é que fizeram dos humanos seres gordos, preguiçosos e temporariamente incapazes de pensar. O fato de estarem em um cruzeiro – piscinas, entretenimento total, etc – foi fator direcionador para uma evolução humana que errou a mão. Mas nos poucos momentos em que os humanos se livram da hipnose tecnológica, há uma volta momentânea ao velho humano. Basta que ocorra um evento imprevisível, uma briga, para o comandante também voltar a si, ser algo inteligente e superar a máquina. O que Wall-E faz é apenas despertar os cabeceantes, chacoalhar aquilo que o humano é desde sempre, mas que está praticamente atrofiado - como dedos das mãos retorcidos como galhos na caatinga.
E aquele videoclip do desfecho, com a arte em estilo de variados grandes cabeções? Caramba, como aquilo é bom.
(Além do que o meio e a forma deveriam ser os mais importantes em arte. Fazendo um paralelo, você pode pensar que em “Madame Bovary” Flaubert foi: a) reacionário, as adúlteras se lascam no final ou b) libertino, diário sexual de uma adúltera. Ou melhor, pode esquecer as duas explicações e simplesmente pensar que Flaubert escreveu um romance perfeito. E lembra aí também como a arte contemporânea tem uma mensagem para lá de pretensiosa, mas sempre acompanhada de uma execução por meios e formas ridículas.)
O.O ainda Ivan Karamazov Há moral em Wall-El? Sim, claro (livrai-nos da amoralidade, Jesus). "Ratatoulli" e "Os Incríveis" – realmente excelentes – também têm lá sua dose de moralidade. Pois não?
Ratatoulli: “todos são capazes; não importa a origem, todos podem chegar lá” – e no filme só compreendem isto alguns poucos personagens, e só no fim do filme (a humanidade é má? pois sim).
Os Incríveis: “família é tudo, a humanidade nem merecia ser salva, mas vamos lá”.
Wall-E: “a humanidade é uma bosta, mas humanos em particular podem ser legais, principalmente robôs aspirantes a humanos.”
Nestas três animações o importante é sempre o indivíduo; apesar da decadência geral, olha como o mundo se sustenta milagrosamente pela ação silenciosa de anônimos (a oração dos justos, tal).
Mensagem abominável em Wall-E? Não creio.
Concedo, quase sempre os porta-vozes são mesmo abomináveis, lançando mentiras ou verdades como perdigotos.
Mas, vamos lá, não desta vez.

Mudando de assunto. Saca só a sofisticação deste maiô por cima das calças. Huh?
Escrito por Luciano �s 02h11
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