"O amor pode falhar, mas o cava-
lheirismo prevalecerá" - K.V. apud J.F.

o führer mameluco


o mundo assombrado por cabeças de mamão

Sim, a inexistência de resposta para tudo não é problema, mas sim respostas em demasia. Então pessoas saltando na sua direção, como em pegadinhas e tal, espremendo o próprio cérebro-furúnculo-amarelinho*, esguichando idéias e ideais como um chafariz da praça da igreja matriz, exigindo que se fale sério – “eu tô falando sério com você, fala sério, por isso a coisa não vai pra frente, vamos pensar aqui ô, vamos gerar soluções”.

Show de horror.

Talvez seja recalque de minha parte – não descarto. Talvez incapacidade produtiva ou escassa assertividade. Se eu cutucar bem fundo aqui pelo ouvido, ó, encontro, sei lá, umas duas opiniões mais ou menos próprias; no restante vou firme e forte em argumentos de autoridade.

E vou te dizer: morro de pena quando menosprezam argumentos de autoridade. Mesmo. Até penso em abrir a boca “Mas caramba, fio, já viu um átomo? já pisou na lua? já visitou Pindamonhangaba? Não, né?”; mas só lanço um meio sorriso meio de lado e giro a caneta entre os dedos.

É um tal quebrar tudo e fazer tudo de novo que eu não tenho idéia de quem vai pagar a conta; e só de sacos de cimento já foi mais de milhão. Mas engraçado mesmo é que a equipe toda é só de decoradores.

Nem quero saber, fico aqui de braços cruzados, a brincar de carrossel com minha cadeira giratória.

Quando finda a zona toda, me avisem.

Aliás, não avisem não.

* não me lembro, mas tenho a nítida impressão de que furtei praticamente a frase toda de alguém.



Escrito por Luciano �s 19h18
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breves notas sobre poesia: de arantes e antunes

"Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust."

                            The Waste Land - T. S. Eliot

"Amanhã, será um lindo dia, da mais louca alegria que se possa imaginar!"
                                                             Amanhã - Guilherme Arantes.

Chega a ser desconcertante.

A influência de Eliot na poesia de Guilherme Arantes é tão evidente, tão facilmente perceptível, que eu ficaria até vermelho por comentar tamanha obviedade, não fosse, é claro, minha mundialmente conhecida cútis.

De métrica sutil - "dia ...louca alegria" -, que por vezes nos extenua ao buscarmos o milimetrismo métrico de sua poesia, Arantes faz um contraponto formidável frente aos poetas medalhões, desafiando as convenções e revitalizando, e por que não dizer, reinventando esta das mais nobres artes exercidas pelo bicho-homem.

Daí você me pergunta: “Mas em que exatamente Arantes herda de Eliot?”.

Ué, meu caro, é tão, mas tão, mas tão evidente - "evidente" com "e" maiúsculo até -, que nem mesmo vou dizer. É isto mesmo; não-vou-dizer. Simples assim. Se você não sabe é porque ainda não está preparado para entender as nuanças das artes maiores, o sentido profundo do belo e do sublime.

Se você não é como eu, que numa mão recebia mamadeira, e na outra uma obra de Dostoiévski - toda esta permeada pelo messianismo russo, aliada a tópicos em religião que me incitavam em calorosas discussões com minha babá.

Se você não é como eu, que aos seis anos de idade montava Hamlet – upa, cavalinho! – no quintal de casa, inclusive chamando a atenção de grandes críticos que vinham assistir à peça e sentavam em blocos de cimento e usavam baldes d'água na cabeça - uma excêntrica exigência minha.

Se você não é como eu, que aos oito anos de idade escrevia um ensaio intitulado "Sobre quartos escuros, gatos pretos e metafísicos: por onde se puxa o rabo dos bichos?", o qual assombrou os acadêmicos de filosofia da Universidade de Guararapes.

Enfim, se você não é como eu, e muito menos eu - porque se você é você, é impossível que seja eu, eu acho -, só posso dizer, levantando ambas as duas sobrancelhas: "Sorry, amiguinho, desculpe por eu ser tão bom!".

E é por isso que fico indignado quando um filisteu vem me dizer que "A poesia de Arantes é efêmera", e que "Arantes é só um choramingão" e tal e coisa.

Sou enfático: Arantes coloca Bandeira num bolso e Pessoa na pochette - ou vice-versa.

***

Outro injustiçado é Arnaldo Antunes, grande poeta altamente influenciado por Willian Blake, para o qual compôs este telúrico e formidável poema:

Canção de ninar bovinos 
                                        De Arnaldo Antunes

No rego que
  |
 
 d             
 e
 s
 c
 e

 |                          ->  sobe.
            -> sobe, |
 sobe, |       

 Chove chuva; no coração dilacerado pelo medo,
                                                       pelo percevejo,
                                                          pelo brotoejo.

 Mostre-me, bi-gato:
                                 suas patas,
                                 suas garras,
                                 suas mágoas,
                                 suas parafernálias.
  
 Blake, se eu fosse como tu, meu velho, assim, mor legal, era go-go tiger e zefini.


Mas sobre Antunes dissertaremos com mais propriedade em outra oportunidade.


***

Ronda Noturna - poesia completa de Guilherme Arantes (1977). Recomendo veeeeeeeementemente!



Escrito por Luciano �s 20h05
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