breves notas sobre poesia: de arantes e antunes
"Your shadow at morning striding behind you Or your shadow at evening rising to meet you; I will show you fear in a handful of dust." The Waste Land - T. S. Eliot
"Amanhã, será um lindo dia, da mais louca alegria que se possa imaginar!" Amanhã - Guilherme Arantes.
Chega a ser desconcertante.
A influência de Eliot na poesia de Guilherme Arantes é tão evidente, tão facilmente perceptível, que eu ficaria até vermelho por comentar tamanha obviedade, não fosse, é claro, minha mundialmente conhecida cútis.
De métrica sutil - "dia ...louca alegria" -, que por vezes nos extenua ao buscarmos o milimetrismo métrico de sua poesia, Arantes faz um contraponto formidável frente aos poetas medalhões, desafiando as convenções e revitalizando, e por que não dizer, reinventando esta das mais nobres artes exercidas pelo bicho-homem.
Daí você me pergunta: “Mas em que exatamente Arantes herda de Eliot?”.
Ué, meu caro, é tão, mas tão, mas tão evidente - "evidente" com "e" maiúsculo até -, que nem mesmo vou dizer. É isto mesmo; não-vou-dizer. Simples assim. Se você não sabe é porque ainda não está preparado para entender as nuanças das artes maiores, o sentido profundo do belo e do sublime.
Se você não é como eu, que numa mão recebia mamadeira, e na outra uma obra de Dostoiévski - toda esta permeada pelo messianismo russo, aliada a tópicos em religião que me incitavam em calorosas discussões com minha babá.
Se você não é como eu, que aos seis anos de idade montava Hamlet – upa, cavalinho! – no quintal de casa, inclusive chamando a atenção de grandes críticos que vinham assistir à peça e sentavam em blocos de cimento e usavam baldes d'água na cabeça - uma excêntrica exigência minha.
Se você não é como eu, que aos oito anos de idade escrevia um ensaio intitulado "Sobre quartos escuros, gatos pretos e metafísicos: por onde se puxa o rabo dos bichos?", o qual assombrou os acadêmicos de filosofia da Universidade de Guararapes.
Enfim, se você não é como eu, e muito menos eu - porque se você é você, é impossível que seja eu, eu acho -, só posso dizer, levantando ambas as duas sobrancelhas: "Sorry, amiguinho, desculpe por eu ser tão bom!".
E é por isso que fico indignado quando um filisteu vem me dizer que "A poesia de Arantes é efêmera", e que "Arantes é só um choramingão" e tal e coisa.
Sou enfático: Arantes coloca Bandeira num bolso e Pessoa na pochette - ou vice-versa.
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Outro injustiçado é Arnaldo Antunes, grande poeta altamente influenciado por Willian Blake, para o qual compôs este telúrico e formidável poema:
Canção de ninar bovinos De Arnaldo Antunes
No rego que | d e s c e
| -> sobe. -> sobe, | sobe, |
Chove chuva; no coração dilacerado pelo medo, pelo percevejo, pelo brotoejo.
Mostre-me, bi-gato: suas patas, suas garras, suas mágoas, suas parafernálias. Blake, se eu fosse como tu, meu velho, assim, mor legal, era go-go tiger e zefini.
Mas sobre Antunes dissertaremos com mais propriedade em outra oportunidade.
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Ronda Noturna - poesia completa de Guilherme Arantes (1977). Recomendo veeeeeeeementemente!
Escrito por Luciano �s 20h05
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