"O amor pode falhar, mas o cava-
lheirismo prevalecerá" - K.V. apud J.F.

o führer mameluco


sad playmobil

O sabão, lava o meu rostinho, lava os meus pezinhos, lava as minhas mãos.” - Walt Whitman

Sou um sujeito limpinho. Banho todos os dias, os fios de água caindo sobre minhas omoplatas dantescas, ricocheteando em minha cútis naturalmente bronzeada, deslizando por meu corpo habilmente torneado pelas sábias mãos da mãe natureza.

Sou limpinho. Mas, vejam só, acontece que tenho uma bolsa que uso para trabalhar. Sempre nela: uma blusa de lã preta, a carteira, contas, bilhetes de metrô, cinco quilos em moedas, trechos de artigos técnicos, canetas, um colírio, uma chave, crachás, um livro – ou dois -, um guarda-chuva e um tamanduá-bandeira.

Tenho a bolsa há um bom tempo; nunca lavei. Não que seja comum lavar uma bolsa; mas a minha já tomou chuvas, e é atirada ao chão o tempo todo.

Acontece que há um mês, ou dois, ou no máximo três, mas mais que quatro tenho certeza que não, mas como dizia: há *uns dias* não consigo olhar para ela sem pensar: “Meu Deus do céu, homem-de-Deus, lava essa bolsa!”. 

Inevitável. Toda vez que eu olhava para o espelho o meu eu-crítico me dizia: “Sujeitinho desqualificado, é isso que você é! Um homem sem qualidades! Lava essa bolsa, menino!”. Ou ainda ouvia o lacônico: “Que vergonha! O que diriam John von Neumann e Alan Turing sobre isso, rapaz?”, e a esta última pergunta eu respondia: “Hein!?”.
 
Ciente de ser um homem sem qualidades, andava pelo mundo carregando a dor neste peito sofrido, neste semblante sorumbático marcado pela amargura. Martirizado pela severidade do meu espírito alemão, andava pelas ruas desalentado, recebendo, taciturno, os golpes da pesada garoa neste meu cocoruto deformado pelos incontáveis cascudos que levei quando criança. Não encarava mais as pessoas nos olhos, carregava minha bolsa bicolor como quem anda de mãos dadas com a Regina Casé na avenida Paulista, como quem carrega um filho defeituoso - um monstro saído de minhas entranhas, do meu ventre de menino-homem.

O fato é que faz duas horas que choro sem parar. Lágrimas esguicham de meus olhos estreitos como se fossem seringas d’água sendo pressionadas por polegares opositores. Chacoalho tanto os ombros que pareço um playmobil dançando mambo; tremo tanto os lábios que um desavisado diria que estou em constante oração; contorço tanto a cara que já não sei se respiro pelo nariz ou através das orelhas. E por falar nisto, tento colocar os óculos mas é impossível: “JESUS, ONDE ESTÃO MINHAS ORELHAS?”.

Há duas horas choro sem parar.

Há duas horas e vinte segundos lavei minha bolsa.



Escrito por Luciano �s 23h21
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sobre gostar de dias nublados

“Algumas pessoas – entre as quais me incluo – odeiam finais felizes. Sentimo-nos ludibriados. O infortúnio é a regra, as engrenagens do destino aziago nunca deveriam ficar emperradas. A avalanche que se detém alguns metros acima da aldeia acocorada comete um atentado não só contra a natureza, mas também contra a ética.”
Trecho de Pnin (1953), de Nabokov – na tradução do excelente Jorio Dauster.

É possível gostar de Nabokov apenas por seu domínio narrativo, ironia mordaz, cadência e habilidade metonímica que lampeja praticamente a cada parágrafo; mas para ser um admirador incondicional – dos que inclinam ligeiramente a cabeça para um lado, com um fio de baba esticando-se do lábio inferior e fazendo tóin-óin-oin (como de fato eu sou) – é necessária aquela cumplicidade sádica, aquele sorriso sem dentes de satisfação em ver os personagens sendo habilmente torturados das mais distintas maneiras.

Os personagens de Nabokov debatem-se o tempo todo, mas apenas por uma certa obrigação moral em tentar um final feliz. Cada torturado tem plena ciência de seu incontornável desconforto com o mundo, do desajustamento definitivo, e, conseqüentemente, de certo modo se conformam com um destino fatal – seja a morte (Lolita e Coisas Transparentes), a infelicidade (Pnin), a consciência esmagadora da própria mediocridade (A Verdadeira Vida de Sebastian Knight), a perda irreparável de anos e anos (Ada ou Ardor) ou a loucura (O Olho Vigilante e Fogo Pálido).

Sinto em Nabokov um ligeiro niilismo – veja bem: *ligeiro*-, não chegando ao extremo de Beckett, mas tendendo para. Em Beckett o pessimismo no princípio, o atabalhoamento frente a toda e qualquer necessidade de ação; em Nabokov o pessimismo como conclusão, a moral do fim da estória.

(Sim, estou vivo. Olá.)



Escrito por Luciano �s 23h08
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