"O amor pode falhar, mas o cava-
lheirismo prevalecerá" - K.V. apud J.F.

o führer mameluco


de variações de Mateus 16:26 - one tear by day

"De que vale o homem ganhar o mundo inteiro e perder __________".
a peruca
a dentadura
o amor
a tampa do tubo de pasta de dente
o respeito
o bilhete da loteria
o orgulho
o ônibus
o pinto
o aniversário do filho de 3 anos
o cinema
o jogo
o episódio de Lost
a bicicleta

Oh, "não se turbe o vosso coração", que o demo nunca exige tanto. Ao menos não tanto de uma só vez.

É claro que pode tudo. Sem dúvida. Eu deixo, e Deus e o demo assistem das numeradas, e riem muito, cuspindo pipoca nos das fileiras subseqüentes.

Mas deve-se admitir que o demo é um sujeito delicado; então te colocar na parede é uma impossibilidade. Não, não é do tipo "E aí, mano, me dá tua alma aí".

É preciso demasiada tenacidade para se chegar ao inferno - este vem efetivamente em doses homeopáticas, sobre uma Caloi 10 (1972) com dois pneus furados e marchas enroscando.

A merda toda é essa: "É só um pouquinho", "É só dessa vez" e outras variações mais ou menos sutis.

O processo é *aparentemente* indolor.

Então você acorda numa segunda-feira qualquer, estica um sorriso bizonho amarelo e lança um olhar bovino de "Como assim?" - tudo devidamente impresso numa superfície lustrada por óleo de peroba.

(Nossa, um post sério! Nem parece que agorinha eu estava todo sensual, dançando "Take You on a Cruise" só de cueca – "making money like Fred Astaire".)



Escrito por Luciano �s 21h24
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perfect jay

Senti os lençóis frescos, apesar do sol já estar relativamente alto. Sorri mesmo antes de abrir os olhos. Sentei na cama e espreguicei durante um bom tempo.

Um dia bom.

Pouco depois, eu descia serelepemente a alameda de cascalhos, sentindo, sob confortáveis chinelos, o variado relevo das pedras do caminho estreito. À direita, feixes de luz ligeiramente trêmulos cintilavam na superfície do lago.

Me sentia como se tivesse acabado de ler um conto de Salinger, ou de Fitzgerald, ou de John Cheever. Na verdade, a impressão era de que eu tinha acabado de ler um conto de cada um deles. E é claro que estes três contistas não aprovariam tal descrição, mas eu era um sorriso de 68 kilos.

A pedra lançada no lago não fez loboft, e sim plumbt – uma singela expressão de delicadeza num mundo de lojas de $1,99 e shows do joão bom jovem.

Um dia perfeito.

Senti um leve comichão na parte inferior da nádega direita, já na divisa com a perna, e disse a mim mesmo em extrema satisfação: “Ah, vou resolver isso agora mesmo. Não vou deixar pra amanhã não”. Então estiquei a mão espalmada paralelamente à coxa, colei-a na parte de trás e a deslizei suavemente num movimento ascendente. Na região do comichão, fiz movimentos circulares com a ponta dos dedos enquanto abri um sorriso diagonal e refleti: “Ah, eu poderia estar sendo torturado, amarrado a um tambor de duzentos livros, sem a mínima possibilidade de me livrar do comichão. Mas não, não, eu sou livre, completamente livre, livre como a borboleta que ziquezagueia por entre as folhagens douradas do outono, livre como um vaga-lume a ser luz no mundo por breves intervalos; a luz do mundo, o sal da terra. *Livre*!”.

E foi aí, no exato momento da consciência de não estar sendo torturado naquele exato momento, e de ser um sujeito abençoado e que ilumina feito um vaga-lume esse mundão de meu deus, exatamente aí que me virei e avistei nuvens negras carregas no céu; ouvi o vento uivar agonizante; me arrepiei dos pelinhos do dedão às sobrancelhas; ouvi a trilha sonora de dezenas de filmes de suspense.  É, eu me virei e vi, com estes olhos que a terra *não* há de comer, já que sou doador de órgãos.

Vi dona Josefa - uma senhora negra de 73 anos, cabelos grisalhos de globetrotter, 114 kilos equilibradamente distribuídos em imponentes um metro e quarenta e três de altura, vestido branco de estampas róseas cobrindo até um palmo antes dos joelhos massudos. De costas para mim, ela se abaixava em um movimento suave e lento, e por isso mesmo ainda mais impressionante, onde a superfície de suas coxas colossais, cuja existência como coisa-em-si nem um solipsista empedernido se atreveria em contestar, esticava-se na mesma medida em que a celulite se escondia, e suas cadeiras angulosas que abarcam o mundo empurravam acintosamente o indefeso vestidinho sentido acima, e acima e acima, cada vez mais, até o ápice, quando então suas mãos tocaram o canteiro de flores rasteiras. E então vi ainda mais.

Em câmera lenta, efeito colateral de meus sentidos entorpecidos, vi o vestidinho se rasgar de baixo até o meio das costas de dona Jay. E em resposta a súbita libertação, incontáveis pneuzinhos de gordura saltaram uns após outros num frenesi coletivo irrefreável, num estremecimento telúrico nunca dantes visto por um homo sapiens; por fim, mas não menos estarrecedor, as nádegas paquidérmicas de dona Jay chacoalharam em movimentos uniformemente variados, espremendo impiedosamente sua calçola de velame de pára-quedas. 

Um pingo de suor deslizou sinuosamente da têmpora à ponta de meu queixo, e então se precipitou tragicamente rumo ao emaranhado verde de grama.

Gritei “Minha mãe de Deus!” duas vezes e caí de costas.



Escrito por Luciano �s 19h34
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eu, Viy

Meus amigos, meus leitores queridos. Este post tem o objetivo pueril - e seria até patético, não fosse o fato de eu tentar escrever direitinho e colocar as vírgulas nos lugares certos -, tem o simples objetivo de...

Qual é mesmo?

Ah, o objetivo deste post, declamo a quase exatas umas-e-meias-da-manhã, é informar que estou com sono. Muito sono. Bêbado de sono. Com tanto sono que minhas pálpebras estão caídas até o umbigo - quase tão caídas quanto as de Viy, aquele duende abominável, personagem de Gogol.
 
No trabalho, “pesquei” o dia inteiro e bati com a cabeça no teclado exatas vinte e três vezes.

Tomei café sem açúcar, café com requeijão, café com papel picado, café com cibalena (é assim que se escreve?), e nada.

(E só não tomei o pinho-sol que me recomendaram porque no trabalho tem aqueles aparelhinhos que fazem tchiiii e não tem nem um pinho-solzinho para contar estória.)

Depois do almoço, com muito mais sono, fui para o hall das escadas e fiquei pulando no mesmo lugar durante uns minutos. E só parei quando olhei para trás e percebi que o tiozinho da faxina estava me olhando com a boca aberta e olhos arregalados. Então sorri amarelo, joguei as pálpebras nos ombros e voltei para a mesa.

E dá-lhe cabeça no teclado.

O porquê de eu ter tanto sono? Ora, porque comi manga e tomei leite, ué! Claro, cabeção, é porque tenho dormido pouco.

*

Sabe? sou o maior procrastinador desde o monge Yang Yan Wang. É, este mesmo, o da dinastia Ming que ficou 30 anos indo-indo-indo colocar uma carta nos Correios, e mais que de repente levantou-se num ímpeto e disse "Vou colocar AGORA a carta nos Correios!".

"AGOOOORA!", ele gritava com os olhos injetados de sangue, enquanto girava os punhos cerrados feito hélices de um bimotor.

Mas daí Yang Yan Wang se sentou de novo para coçar o dedão do pé e nunca mais levantou.

*

Procrastino muito, sabe? Então que tenho um projeto aí (fora do trabalho) que eu deveria ter terminado há muito tempo. E agora estão querendo minha alma. Mas minha alma ninguém toma, porque ela tens uns tons azuis difícies de se encontrar. É aura? Ah, então, mas de qualquer jeito ninguém toma. Aura ou alma, ninguém toma.

Daí que faz três dias que praticamente não durmo. E continuará assim no mínimo até no fim de semana. 

Com licença, que agora vou ali colocar a cabeça dentro da privada e apertar a descarga.

[cochila e bate a testa no teclado]

Ai, Jesus!



Escrito por Luciano �s 00h47
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Jardim - Cena 1

Schoolyard - by Maud Lewis.

Daniel, três anos, ainda não tem lá aqueeeela coordenação motora. Daí que Daniel costuma cair. Daniel sempre cai. Então que Daniel acabou de cair e chora e cobre a testa com as mãozinhas.

- Pssooooora, o Daniel caiu – grita uma pequenina não identificada lá adiante.

Professora da turma - bonita, extremamente jovem e de sobrancelhas também bonitas que sorriem junto com lábios e outros mecanismos sutis que compõem o sorriso feminino - acaba de bater o recorde mundial dos cem metros rasos da categoria amadores.

- Ai, meu Deus. Eu não posso ver sangue. Daniel, o quê que aconteceu, Daniel? Tá sangrando? Mostra pra tia. Ai-meu-Deus, eu não posso ver sangue. Tá sangrando?

- Não sei, pssora. Tá doendo muito!

- Ai-ai, Daniel. Me deixa ver - ai-meu-Deus, eu não posso ver sangue. Tira a mão pra tia ver.

Não há sangue, mas pssora fica impressionada com o tamanho do galo na testa de Daniel.

Letícia, amiga de Daniel, se aproxima e semicerra os olhos.

- Pssora, o nariz do Daniel foi parar na testa?

- Não, Letícia. É só um galo. Tudo bem? Só um galo de nada.

Tiago, também amigo de Daniel, se aproxima e morde o lábio inferior.

- Tia, o quê que é isso na testa do Daniel? É um ovo? Um ovo? Como um ovo pára aí?

- Gente, é um galo. Um galinho de nada.

Daniel é levado para a enfermaria. Coordenadora, depois de observar Daniel durante um bom tempo, estala os lábios e diz:

- Por Deus! Em vinte e cinco anos de escola, nunca vi um galo tão grande!

- Pssora, eu quero ver no espelho. Deixa eu ver?

- Não, Daniel. Espera que a tia tá passando pomada. Um galinho de nada.

Depois de meia hora de massagem, galo fica do tamanho de um galo considerado normal.

Daniel não tem mais um nariz na testa; nem mesmo um ovo.



Escrito por Luciano �s 00h24
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