Para se comunicar em línguas estranhas, fale com uma bola de tênis enfiada na boca

Eu tentaria escrever uma mini peça cômica sobre Babel; mas faltou paciência. Então vai mesmo uma mini resenha:
Num cenário inóspito de montanhas e montanhas de areia, um garoto marroquino faz merda, e perto da fronteira dos EUA com o México uma mexicana faz merda, mas não tanta (merda) quanto o garoto marroquino que espia a irmã nua e depois se masturba, daí os americanos Brad Pitt – em visual olha-como-estou-acabado-e-com-rugas-e-prescindo-da-beleza – e sua mulher vão passar férias no Marrocos, ou seja, fazem merda, e, voltando para a fronteira, mexicano faz merda e o garoto marroquino, para não deixar por menos, só por diversão faz merda maior dando um tiro na direção de um ônibus, em resposta, mexicana faz merda lá na fronteira de novo, e no Japão, veja só, japonesinha surda-muda-olha-só-o-preconceito é preterida e em protesto acha uma boa idéia fazer a merda de andar sem calcinha e mostrar a perereca para todo mundo, e para dar o acabamento no monte todo (de merda) a cereja são os marroquinos, pai e os dois garotos (o incestuoso e o irmão mais velho), que fazem merda em escala olímpica e inimaginável, desafiando gerações e gerações de brasileiros, que mesmo sendo o quê são não seriam capazes de tamanha obra. Enfim, o imperialismo americano ferra com os marroquinos sofridos, deporta a dona mexicana sofrida que olha-só-que-dó-morava-há-16-anos-nos-EUA, e demora em socorrer e quase mata a mulher do Brad Pitt por causa de conflitos políticos bobinhos com o Marrocos. Os EUA são mesmo muito malvadões – não entendem que as pessoas só fazem merda porque é só o que sabem fazer. Incomunicabilidade, teoria do caos, tudo está conectado - o imperialismo americano é culpado por seu dedinho do pé ter encontrado com força a quina da parede.
Lágrimas rolaram por sobre minhas bochechas pardas. Minhas sobrancelhas levantaram em espasmos relâmpagos. Cravei as unhas no braço de minha mulher e no apoio da cadeira. Vivi os sofrimentos do mundo. Oh, a dor, a dooooor!
Babel é inócuo, absolutamente auto-indulgente e pretensioso. Os personagens são tão risíveis (embora os atores trabalhem bem) que demolem qualquer possível empatia - e o Senhor Diretor ainda espera que você tenha peninha dos personagens.
Cotação: um monte (de merda).
(p.s. 1 Foram doze “merda” – treze com este último. Já estou apto a escrever roteiro de filme brasileiro.) (p.s. 2 Só para não dizerem que invoquei com o diretor, fiquem sabendo que até gostei de 21 Gramas – onde Benicio Del Toro é excelente e Sean Penn só funciona porque faz papel de sofredor.)
Escrito por Luciano �s 20h11
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uma semana é um tanto de horas e tanto
D, que fique claro: pode queimar todos os meus livros (inclusive minha edição 1944 de Sebastopol, os Nabokov e os Borges todos), esmigalhar todos os meus CDs com o martelinho de bater bife, rasgar minhas HQs antigas, lançar meus DVDs daqui de cima como se fossem frisbies, jogar meu computador do décimo oitavo andar,
mas não digo, não direi, nem nunca admitirei que quando você não está aqui me perco nestes míseros cinquenta e ínfimos outros metros quadrados de apartamento - muito menos de que me encontro insone, e fico a perder todo meu tempo.
Volte já.
Escrito por Luciano �s 02h23
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metodologia da pesquisa científica (radicalmente condensada)
À maneira de David Foster Wallace (tá, mais ou menos - mais para menos)
[Charles Kinbote, vinte e dois anos e garoto prodígio professor da Zembla University com duplo doutorado engenharia-teologia pela Oxford University e sem dúvida Temível Senhor Sabe Qualquer Coisa de Quase Tudo, está atrás de uma limpa mesa retangular e de costas pra um telão widescreen Philips de sessenta e tantas polegadas]
[olhar horizontal de cento e oitenta graus da esquerda pra direita (de quem vem) e batida surda de palma de mãos e leve compressão de finos lábios]
Clap. Então primeiro você escolhe os axiomas, arruma todos direitinhos com os cantos alinhados – assim plec plec assim. Daí você ergue umas estruturazinhas ops que não precisam nem ser muito fortes e tal e sobre estas estruturazinhas ops de novo nem tão fortes você ergue outras estruturazinhas e assim por diante – então segura! Acho que deu pra perceber que se você resolver mudar algum axioma ai ai ai então dá um senhor trabalho porque você tem que tirar umas pecinhas e colocar outras e daí já viu que fica difícil.
[pausa pra andar pela sala e lançar olhares muito muito perscrutadores sobre ouvintes atentos de olhar cem por cento compenetrado e ligeiro enrugamento de cenho]
No mundo ideal as estruturazinhas devem se encaixar nos axiomas e a isso damos o nome de coerência. E a tal da coerência já é algo próximo do que seria um moto perpétuo da física, acertar os axiomas então nem se fala! E o bacana é que dá pra fazer praticamente qualquer coisa partindo dos axiomas "corretos". A matemática por exemplo pretende garantir a coerência (e na maioria das vezes consegue) usando números e equações. Nas ciências humanas e quase-exatas você tenta deixar o castelinho bonito aplicando de leves a desesperadas marretadas – e como em funilaria também é legítimo usar um pouco de massa e jornal.
[pigarro e leve roçar de indicador e dedo médio em têmporas severamente grisalhas de Senhor Fantástico]
Quando a homem e a mulher estão trocando sopapos e unhadas temos uma discussão do aspecto “coerência” - partindo do princípio que o axioma "viveremos felizes pra sempre" é comum e eles foram casados pelo mesmo padre. Conservadores e revolucionários também trocam sopapos e unhadas e discutem mais ou menos sobre axiomas. Teólogos e cientistas não trocam sopapos e unhadas e preferem emissões mútuas de escárnio e empáfia e definitivamente discutem sobre axiomas.
[nada sutil erguida de sobrancelhas de olha-aí-estão-entendo-ok?]
Os cientistas dizem que seus axiomas são mais limpinhos e ainda biodegradáveis; os teólogos dizem ter os mais bonitos e coerentes e tradicionais. Os teólogos inquiriam e matavam bruxos e bruxas e os aristocratas levavam as coisas na rédea curta; os franceses revolucionários (cientificistas pentadiluvianos) disserem que não era assim que se devia fazer e que tudo era muito violento e daí chegaram e mataram todo mundo.
[sorriso aberto de auto-aprovação. auto-ovações silenciosas reverberando na superfície da tela de PowerPoint em olhar de zero a sessenta graus na vertical partindo do chão. passos na direção da porta clec nheeeeem ploft e ventinho no rosto pálido do garoto de óculos de aros muito muito grossos sentado na primeira cadeira da primeira fileira colada à parede da porta]
 Charles Kinbote, olhar diabólico e finos lábios suavemente lívido-comprimidos (apenas vinte e dois anos e face impiedosamente marcada por loucas noites londrinas).
Escrito por Luciano �s 21h33
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minha avó é Beckett
Minha avó é cara do Beckett. Vê só:
Minha avó, fotografada por minha mãe em 1999.
Minha avó é analfabeta*; mas mais inteligente que a maioria das pessoas que conheço - ok, sempre tem o lance de não comer manga e tomar leite, mas daí é bypass e um abraço.
Moda? Manja tudo de moda. Usa saia por cima das calças há uns 20 anos. Vanguardista que só, mulher à frente de seu tempo - se você considerar que ainda estamos em 1900.
Transcrição de um diálogo com minha avó:
- Vó, aê, o quê que a senhora acha dos relativistas?
- É tudo viado**, achando que “sair” e “entrar” é relativo.
- !
Minha avó é exatamente uma avó. As rugas em sulcos profundos entrecortando a velha tez; a roupa invariavelmente antiquada; a assertividade das opiniões em frases breves e o falar matreiro. Lhe tenho respeito por cada uma das rugas e por outros tantos detalhes. Lhe tenho respeito por ser exatamente o que uma avó tem de ser: uma avó.
Sério. Se minha avó desse uma de moderninha e quisesse saltar de pára-quedas, daria para ela uma mochila cheia de panelas no lugar do velame (o paninho que se abre e faz plum).
Do céu azul-desbotado pincelado de nuvens, panelas caindo feito maná; tampas reverberando raios de luz durante intervalos infinitesimais; a vovozinha fazendo piruetas em colchões de ar com o indicador e o polegar colados num circulo e outros três dedos em fila indiana correndo atrás do coco.
Anos atrás, quando falei que ia saltar de pára-quedas, ela me disse: "Olha, não vai não, filho. Não mexe com quem tá quieto!".
Sábia avó. Minha avó é uma avó.
É sério, dou graças por isso.
* Ô, se liga, não estou dizendo que Beckett é analfabeto. Embora ainda tenha lido bem pouco dele, gosto bastante. Beckett é legal. Vê lá, hein! Minha avó é parecida com ele. Mesmo. ** Minha avó não é homófoba. Não vá sujar a imagem de minha vovozinha. De novo: vê lá, hein!
Escrito por Luciano �s 23h23
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dicas para o verão
i Repita comigo: “cores escuras absorvem luminosidade”, “cores escuras absorvem luminosidade e esquentam meu corpinho”. Amiguinho, não use roupas pretas.
ii Em “Usos e Costumes dos Sumérios”, 1140 páginas, 1943, monumental pesquisa de Mohamed Goldenstein, professor da Universidade de Beirute, temos: “Os sumérios eram um povo muito inteligente. Em épocas de extremo calor, toda a população era convocada a deixar a geladeira aberta, com o objetivo de amenizar o calor e, quiçá, resfriar o universo.” Por sua vez, Abraão Abdul Abdala, catedrático da Universidade Hebraica de Jerusalém, em “Sumérios: povo civilizado ou povo Cabeça-de-mamão?”, 520 páginas, 1948, contra-argumenta: “Em primeiro lugar, não estou convencido de que existiam geladeiras naquela época – as escritas cuneiformes fazem referência a uma máquina que produz gelo, mas, ponderemos, nem toda máquina que produz gelo é uma geladeira. E o principal: a idéia de resfriar o universo vai conta a segunda Lei da Termodinâmica. Ouviram? A segunda Lei. Povo de Cabeças Negras? Não, não. Definitivamente: povo Cabeça-de-mamão.”
Conclusão: é difícil refrigerar o mundo, mas sentar de frente para a porta aberta de uma geladeira, sem camisa e com as pernas bem abertas, já dá uma aliviada.
iii Estendendo a idéia inicial dos sumérios, e em resposta ao meu tradicional comentário sobre o clima, um taxista apareceu com uma idéia brilhante: “O problema de São Paulo é muito asfalto e muito concreto. Tem que fazer uns chafariz pra todo lado, daí a água espirra e o vento leva os pingo d’água pra todo lado e deixa todo mundo fresquinho” [sic]
Sem escala. Vai direto para a academia de Jenhos.
iv Abanar-se com a mão não é o mais indicado. Dica esperta: pegue os dois volumes de “Guerra e Paz”, um em cada mão, e use-os como leque. Produz vento de alguns nós e deixa seus bíceps e tríceps mais torneados.
v Pistolas d’água.
Escrito por Luciano �s 10h32
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shinning words in/on/at/for [praquetantaspossíveispreposiçõesmeujesus?] The Bard’s language

Eu tinha um inglês debilitado. Um inglês mais judiado que nordestino. Um inglês com costelas estufando sob uma pele semitransparente e veínhas roxas subcutâneas serpenteando serelepemente em todas as direções.
You know, eu tinha. Yes, is that! Resolvi meu raquitismo-anglo-saxão em apenas duas semanas, através de um curso intensivo por correspondência com o IUB (Instituto Universal Brasileiro). O inédito método iubense é simplíssimo e consiste de apenas dois passos. Follow me:
step one Numa parede de concreto, pendure um livro de inglês aberto (tem que ser no mínimo de concreto; pode até ser de um material mais resistente; aço, por exemplo, mas haverá dificuldade na fixação do livro);
step two Tome distância de no mínimo dez metros, corra a toda velocidade e bata com a testa chapada no livro aberto;
O processo é *praticamente* indolor, não requer prática nem tampouco habilidade. A absorção de conhecimento ocorre por fusão a frio – processo também chamado de knowledge transmuting by cold fusion. As palavras literalmente entram na sua cabeça. So cool, big head!
Maior impacto; maior a eficácia. Estudos recentes demonstram que saltando de um prédio de quinze andares você consegue evoluir diretamente do for dummies para o intermediate III; mas não é muito recomendado, obviamente, pela dificuldade em se acertar o pequenino livro lá embaixo. Pára-quedistas tem ido do for dummies ao high advanced plus III em apenas um salto – mas a prática é para poucos.
Eu utilizei uma técnica própria que já estou patenteando. Quatro assistentes (minha mulher, a empregada, o zelador e o porteiro) me seguram na posição de aríete, movendo-me agilmente em direção à parede quantas vezes forem necessárias. Believe me, agora manjo muito da língua de uncle Shake. Ontem mesmo li as obras completas do Bardo e de Nabokov, “Ulysses”, “Infinite Jest”, “Gravity's Rainbow” e “Moby Dick”. Tudinho no original. (Fui dormir já era manhã, e estou com olheiras de panda e tal, mas valeu a pena. Oh, beautiful words!)
Num sotaque britânico de irretocável elegância, as palavras ‘anglófilas’ deslizam de meus lábios insinuantes como em um tobogã besuntado de manteiga derretida. Minha postura está mais ereta e parei de mijar no ralo do banheiro. Se você descontar minha pele cor de caixa de papelão, sou praticamente um lord inglês sem cartola.
Inclusive, look that, estou escrevendo diretamente em inglês. Segue um pequeno poema que desbancará aquele anti-semita do T.S. Eliot:
A handful of little things I am saving my little body for/to Jesus I am saving my little body for/to Jesus I am saving my little body for/to Jesus All my body
I am saving my little body for/to Jesus I am saving my little body for/to Jesus I am saving my little body for/to Jesus All the time
I am saving my little body I am saving my little time I am saving my little money All for/to Jesus
A handful of little things for/to Jesus
O único problema – para o qual o método não traz recomendações – é que não consigo pronunciar o “th” sem lançar nada menos que uns 30 ml de saliva no ar: thin splash gs, tho splash ughts, pha splash rmacy.
Oh, brave new words!
Escrito por Luciano �s 16h47
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notas pretensamente sérias sobre “Memórias de Brideshead”, de Evelyn Waugh

O humor é sempre relativamente fácil. É claro, o risco de se parecer patético é presente; mas o patético também pode ser divertido. Mesmo que sejamos idiotas completos, ou principalmente se formos, fatalmente faremos alguém rir. Fazer humor é como arremessar um dardo tendo como alvo uma senhora de 160 kilos a três metros de distância.
(Estou falando de escrita, porque interpretar humor exige timing, tiques e expressões que aumentam a complexidade da brincadeira.)
Minhas primeiras leituras das obras de Evelyn Waugh eram essencialmente hedonistas. De praticamente toda página saltava uma gargalhada – quando não, várias. “Declínio e Queda” (1928) foi o primeiro lido: sarcástico, divertido e um pouco absurdo, me marcou muito a respeito de tópicos capilares (e agora não consigo ler ou ouvir a palavra “peruca” sem rir e lembrar deste romance). Depois veio “A Provação de Gilbert Pinfold” (1957): divertido e dramático – mas não triste, acho –, destoa dos outros livros que cito neste parágrafo, provavelmente por ser uma das últimas obras de Waugh. Então “Um punhado de Pó” (1934), divertido, sarcástico e um pouco melancólico; e, por fim, o hilário “Furo” (1938), o mais divertido de todos. “Memórias de Brideshead” (1945) - o último dos que li de Waugh - é de fina ironia, pouca mordacidade e doses paquidérmicas de nostalgia. E a nostalgia também pode ser patética, mas não neste caso – e nisto identifico um escritor realmente grande, isto, é claro, balizando pelos meus padrões de crítico literário especialista em computação. Escrever num tom sério exige uma habilidade, uma sutileza, um cuidado em não incorrer em clichês que torna o trabalho muito mais difícil. Repito: o humor pode ser ridículo, mas sempre terá como autodefesa a própria despretensão que lhe é característica. Para o sério não há desculpa, ou você acerta, ou é inócuo, ou erra por quilômetros e passa vergonha. É como arremessar um dardo num pequeno alvo móvel.
O próprio Waugh considera “Memórias de Brideshead” com sua primeira obra realmente significativa – exagero dele, é claro, porque os livros anteriores, dos que li, são absolutamente bons, independentemente de serem duma prosa de demolição. Waugh argumenta que em “Memórias de Brideshead” conseguiu abarcar um número maior de temas que lhe eram caros, fazendo do romance sua obra mais completa até aquele ponto de sua carreira.
Charles Ryder, um oficial de infantaria do exército inglês na segunda guerra, é responsável por organizar um acampamento em uma região que reconhece imediatamente. São as imediações da mansão Brideshead. Temos então um flashback monumental, que é o livro todo, onde Charles relembra os velhos tempos, que vão desde o inicio da juventude até seus dias de homem maduro e veterano de guerra.
O núcleo da estória consiste da amizade (algo colorida) entre Charles e Sebastian Flyte – um rapaz que em termos de beleza e graça seria equivalente ao garoto de “Morte em Veneza”, de Thomas Man, por quem o protagonista se apaixona. Charles acaba por conhecer a família toda de Sebastian – os Marchmain –, se envolvendo em sua rotina aristocrática e problemática. Se for para resumir - o que é de um esforço infrutífero, bem sei -, vou dizer que o romance disserta sobre a beleza e força da juventude, um tanto perdida e utópica (pleonasmo?), e a difícil transição para as coisas [limpa a garganta] sérias da vida, onde a decadência é sempre presente. Waugh pincela o romance todo com a questão religiosa – que ele, o autor, inclusive afirma ser o tópico principal. Charles, ateísta na adolescente e juventude, revê seus conceitos religiosos na maturidade. Creio que isso não deve incomodar o leitor cético, tendo em conta que Waugh não chega a dar uma de proselitista, e até porque se pode substituir os conceitos “ateu” e “religioso” por, talvez, imaturo e maduro – não necessariamente nesta ordem, e sem considerar equivalências entre os termos.
Você admira e despreza os personagens, torce por eles, pensa neles mesmo quando não está lendo o romance. É um pouco difícil descrever o prazer de ler “Memórias de Brideshead”, mas é possível dizer que através desta leitura se pode perceber conscientemente – e “perceber consciente” parece pleonasmo, mas não é – a elegância, a beleza, a melancolia, a sutileza, a grandeza da prosa de Waugh.
Vejo que se eu continuar patinando vou acabar na patetice – se já não for o caso. Simples, vamos encerrar assim: li muitos* livros em 2006, praticamente todos muito bons, mas “Memórias de Brideshead” fica entre os três que me deram mais prazer. Não o prazer da gargalhada repentina e efêmera – o que já não seria pouco –, mas o prazer do sorriso sem dentes que fica ligeiramente estampado no rosto por dias e dias inteiros.
* Quando digo muitos quero dizer ao menos algumas dezenas, o que ao menos para os padrões da bananalândia deve ser até mesmo absurdo. E não, não estou me exibindo, mas apenas te dando uma idéia do universo amostral.

Evelyn Waugh, fotografado em 1940 por Carl Van Vechten.
Escrito por Luciano �s 17h15
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