Sansão perde sua alma
Para a futura Júlia
I Os trovões ressoam longe, ainda assim o som reverbera suavemente na textura das paredes do restaurante. Da mesa onde estão, vê-se no lado oposto do salão a chuva caindo diagonalmente, esticando em pingos longos e finos, desenhando na superfície da grande vitrine por sobre a inscrição:

O ambiente é agradável. O ruído moderado é efeito de um ou outro natural tilintar de talheres, cochichos aqui e ali.
- Pois é, os negócios na empresa vão bem, a gente está namorando há um tempão. Você sabe, acho que é hora da gente assumir um compromisso mais sério - e no "sério" ele levantou umas sobrancelhas de "então?".
Ela hesitou, olhou para baixo e em seguida para o aquário disposto na entrada dos banheiros. Já há algum tempo ele monologava sobre casamento e filhos; ela era incapaz de tomar uma decisão, conseqüência de um caráter analítico mórbido e do horror em agir. O achava educado, bem sucedido, sabia que ele lia revistas semanais e um jornal qualquer todo dia: "Mas acho que é inteligente" – queria acreditar. “Gosto dele, mas também gosto de outras coisas, e nem por isso saio casando com todas elas”.
Ele a olhava com devoção, vendo graça até mesmo nas partículas de comida coladas no batom rosa do lábio inferior, partículas que ficavam lá esquecidas em resultado do excessivamente delicado uso do guardanapo.
- É... - ela ensaiou, mas antes que continuasse foi interrompida por um “Só um minuto, preciso do banheiro”. Subitamente feliz, não achou nada ruim, mentindo para si mesma que talvez pudesse tomar uma decisão nos poucos minutos de intervalo.
II Saiu do banheiro enxugando as mãos nos bolsos das calças, andando do jeito de sempre, com as pernas um pouco abertas e jogando os ombros. Viu uma garotinha de vestido verde-limão na frente do aquário, parou ao lado e perguntou:
- Você gosta de peixes?
Júlia - três anos, cabelos claros-lisos-curtos e olhos grandes, achou a pergunta bem idiota. "Quem poderia não gostar de peixinhos coloridos?".
- Sim - respondeu secamente, sem nem mesmo olhar para o interlocutor.
- Por quê? - ele perguntou sorrindo, tentando alongar a conversa.
- Ué, porque eles são bonitos e eu gosto de coisas bonitas – respondeu, arremessando um olhar desdenhoso para o rapaz. Voltou a atenção para o aquário, tocando delicadamente o vidro usando seu minúsculo indicador – não pretendia incomodar os peixes.
- Não pode mexer, eles mordem.
Júlia não achou apenas o argumento idiota, agora tinha certeza de que o pobre rapaz era idiota inteirinho. Sentiu até um pouco de pena, mas depois, mostrando os dentinhos brancos e perfeitos e espremendo os olhinhos, inquiriu sarcasticamente:
- Pelo vidro?
- Hã?
- Pelo Vidro? Eles mordem pelo vidro?
Sem graça, concluiu que era hora de voltar. Seguiu para a mesa batendo a palma da mão direita no topete, ajeitando uns fios desobedientes que não prezavam a coletividade. Por um tempo, a garotinha-verde-limão acompanhou o rapaz com o olhar, e logo se voltou novamente aos peixinhos.
III - Desculpa a demora, mijei que nem um cavalo! – disse, sentando à mesa e ajeitando o guardanapo sobre as coxas roliças.
- Ah!
Ele queria a cerimônia para daí três meses; ela perguntou se podia pensar melhor na data. Enfatizou o “na data” buscando amenizar o efeito, já se arrependendo até mesmo de ter feito a pergunta - era do gênero das que pedem desculpas quando lhes pisam no pé.
Quase não conversaram. Ela monossilábica, ele fazendo umas poucas observações sobre a boa comida.
Na saída um funcionário do restaurante os acompanhou com um guarda-chuva gigante. Desnecessário, na verdade, porque restava um chuvisco leve, dos que demoram um certo tempo para molhar de verdade, mas que não deixam de encharcar depois de você andar umas duas quadras. O carro estava um pouco afastado do meio-fio, dificultando o acesso às portas por causa da forte enxurrada.
Ele se antecipou para abrir a porta para a moça, enquanto o homem-guarda-chuva-gigante postava ao lado deles em admirável zelo, mas ao se abaixar, vejam só como são as coisas da vida, em que de um momento para o outro as coisas mudam de lugar, e a borboleta que bate as asas na Alemanha provoca uma pororoca no rio Amazonas, e o narrador já não lembra o que ia dizer porque alongou demais o parágrafo.
Sim, quando ele se abaixou para abrir a porta sua peruca escorregou, caiu na enxurrada e deslizou em disparada. Esticou a mão; tarde demais. Escapuliu assim, sem dizer palavra!
IV Uma fuga inesperada – até porque fugas não costumam ser previamente anunciadas. Com a boca torta e aberta, como que vítima de um derrame, olhou para a namorada sem saber o quê fazer. Por fim, saiu correndo atrás da fugitiva gritando "volta aqui volta aqui, merda merda merda".
O semblante dela era neutro. Viu ele se abaixando várias vezes, mas como não conseguia se abaixar e correr ao mesmo tempo – limitação resultante do acúmulo adiposo abdominal - havia um descompasso que sempre mantinha a peruca a alguns centímetros da mão.
Sem mais nem menos, do nada, que é de onde as coisas sempre pululam, Dalila se lembrou de Mateus 16:26: "De que vale o homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?", suas sobrancelhas arquearam e seus lábios gesticularam num beicinho. Então pensou numa variante para o versículo e disse:
- De que vale o homem ganhar o mundo inteiro e perder sua peruca?
- Hã!? – grunhiu o do guarda-chuva.
- E perder sua peruca - ela repetiu e achou graça, abriu um sorriso de muitos dentes, girou sobre os calcanhares em cento e oitenta graus e seguiu sem olhar para trás; na direção oposta, três quadras adiante, o pobre ainda gritava “merda merda merda”.
Escrito por Luciano �s 12h59
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caploft
Aqui, o mais bem executado assassinato de blog que eu já vi (vou copiar descaradamente quando for o momento de matar este em que escrevo).
Não que a morte do Write In Water seja cousa boa e tal. Entenderam, né?
Escrito por Luciano �s 20h24
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blem-blem
Não, não saio correndo quando o implacável ceifeiro chegar; abro um sorriso largo - como faria um personagem de Beckett -, fecho os olhos e uma destas versões abaixo toca dentro da minha caixa craniana:
We Have All The Time In the World* – na voz de Iggy Pop** (3.5MB)
We Have All The Time In the World* – na voz de Louis Armstrong (4.6MB)
Importante: para baixar informe a senha: “senha”. Depois de baixar, renomeie da extensão "xxx" para "mp3".
(* Música de John Barry, letra de Hal David, gravada em 1969 por Louis Armstrong para a trilha sonora de “On Her Majesty's Secret Service”. Regravada por Iggy Pop em 1997, em 2005 fez parte da trilha sonora de “Camisa de Força” – onde ouvi pela primeira vez).
(** Até então nunca havia ouvido uma música desse rapaz, sobre ele só sei que é um senhor de idade que não gosta de usar camisas. Mas esse cover que ele fez é muito muito bom.)
Escrito por Luciano �s 01h12
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tlec-tlec ad infinitum

Li uns garotos, estudantes de filosofia, argumentando que se um macaco martelar ad infinitum uma máquina de escrever, ou seja, se datilografar bem bastantão, dali pulularão as obras completas de Shakespeare. Esta alegoria é para afirmar que se houver tempo suficiente algo muito complexo pode emergir de estruturas simples.
Mas deve-se considerar, em conta de um mínimo respeito pela ciência de Resistência dos Materiais, que os dedos do nosso macaquito desmanchariam num tempo consideravelmente curto, sendo desnecessário pensarmos na escala do infinitum. E se não esquecermos de que para o macaco a atividade de datilografar não deve ser, digamos, atraentemente recreativa, é minimamente razoável supor que nosso amiguinho prefira comer bananas, balançar em pêndulo o próprio corpinho peludo num galho qualquer, ou ainda coçar cabeça e barriga simultaneamente.
Para mim é um fato que de estruturas simples podem emergir sistemas complexos - ponto importante: desde que exista um prévio arcabouço -, mas a alegoria do macaco bardo é de uma forçada hércula, da linha de morder a própria mão na tentativa de infligir dor no adversário. Se o símio datilografar ad infinitum não chegará sequer a produzir as obras completas de Zíbia Gasparetto. Pressionar para sempre a barra de espaço é uma possibilidade, a tecla "s" outra, todas de uma vez outra ainda; explosão combinatória, prováveis loops infinitos.
Um exemplo clássico para corroborar o argumento do macaco-shakespeare é o de um algoritmo genético, recorrentemente utilizado por Richard Dawkins, que milagrosamente escreve as palavras "hello world" - sozinho e sem dedos, vejam só.
Mas entre "hello world" e
"O wonder! How many goodly creatures are there here! How beautious mankind is! O brave new world, That has such people in't!" —The Tempest, Act 5, Scene 1
há um tantão assim.
(Entendo um pouquinho do assunto porque há alguns anos eu e um camarada escrevemos uma monografia bem ruinzinha para uma disciplina que cursamos - e quando digo "ruinzinha" não é por uma questão de modéstia, e sim uma constatação. Daí eu poderia explicar o básico de um algoritmo genético - uia nome bonitinho: algoritmo genético-genético-genético -, mas como sou preguiçoso e isso seria off-topic... Então, se te interessar pega a tal monografia aqui, muito mal escrita e tal, e na solicitação da senha digite, ué, "senha" - mas para entender o texto você tem que saber um pouco de computacionês.)
Concordo, dizer que um macaco não é capaz de se ombrear a Shakespeare é racismo, é politicamente incorreto, é crime ambiental; mas penso assim e defenderei minhas idéias até que alguém me ameace de morte. Daí eu fico esperto que nem Galileu, sussurro "mas que se move, se move" e salto de banda.
Ah, mas nem vem, minhas diárias incursões no metrô me impedem de ser adepto do "Intelligent Design", orapois.
Escrito por Luciano �s 21h12
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"Não era uma barata; era um besouro, cabeçudos!" - Nabokov

Ilustração de capa: “No Circo”, de Juan José Balzi - do qual nunca ouvi falar, pois sou ainda mais ignorante em arte , e que pinta de um jeito meio borrocado, mas que fez essa pintura bonita aí (resposta: ah, Renoir e Monet também pintavam meio borrocado, 'gonorante').
Encontrei o livrinho num sebo. Capa dura e bonita, 142 páginas, 19 contos/fábulas de Kafka. Não resisti, dei um peteleco no escorpião e desembolsei $ 20.
Dos contos mais conhecidos inclui "Na Colônia Penal" e "Um Artista da Fome" - que são muito muito bons. Em "Um Relato para uma Academia", um macaco escreve sobre seu esforço e superação, de como chegou ao estágio de - praticamente - humano. "Uma Pequena Mulher", sobre o relato da relação de ódio entre o narrador e uma mulher, me fez lembrar de "A Dócil", de Dostoievski. "Josefina, a cantora, ou O Povo dos Ratos", narra a conturbada relação entre Josefina e o povo de um vilarejo - uma divertida discussão sobre a natureza do mérito do artista, na linha de “Um Artista da Fome”.
Abaixo, digitei o conto "O Abutre" inteirinho, o que me resultou num sério problema de lesão por esforço repetitivo, fazendo meus dedos contorcidos e secos como galhos de árvores da caatinga - e agora estou chamando elevadores com a ponta do cotovelo.
Se me processarem por violação de direitos autorais da tradução, choro e digo que não sabia, e que estou fazendo propaganda de graça. Mas choro bem doído, entortando a boca, espremendo os olhos e coisa e tal.
“Havia um abutre que bicava os meus pés. Botas e meias ele já havia arrebentado, agora já bicava os pés. Atacava sempre, em seguida voava inquieto várias vezes ao meu redor e depois prosseguia o trabalho. Veio passando um cavalheiro, ficou a olhar por algum tempo e perguntou então por que eu tolerava o abutre. - Ora, estou indefeso - disse eu -, ele veio e começou a bicar, daí eu naturalmente quis afugentá-lo, tentei até estrangulá-lo, mas um animal desses tem muita força, queria inclusive pular no meu rosto, por isso preferi sacrificar os pés. Agora eles já estão quase arrebentados. - Mas que o senhor se deixe torturar desse jeito - disse o cavalheiro -, um tiro e o abutre está liquidado! - É mesmo? - perguntei eu. - E o senhor quer providenciar isso? - Com prazer - disse o cavalheiro -, só preciso ir até em casa e buscar minha arma. Será que o senhor pode esperar meia hora ainda? - Isso eu não sei - disse eu, e fiquei paralisado de dor por algum tempo, até dizer: - Por favor, tente isso em todo caso. - Bom - disse o cavalheiro -, vou me apressar. Durante a conversa, o abutre tinha ficado escutando bem quieto e deixado correr seus olhares entre mim e o cavalheiro. Agora eu via que ele entendera tudo; alçou vôo, distanciou-se em curva ao longe para conseguir bastante impulso e, então, como um arremessador de dardos, lançou o bico através de minha boca profundamente em mim. Senti, aliviado, ao cair para trás, como ele se afogava sem salvação em meu sangue, que ia preenchendo todas as minhas entranhas, transbordando todas as margens” "O Abutre", conto de "Nas Galerias", de Franz Kafka, escrito em 1920 (publicação da Estação Liberdade, 1989, na tradução de Flávio R. Kothe).
A sensação é de que a tradução dá umas escorregadas, mas para mim é mais fácil do que tentar ler em alemão. E eu não ia dizer, porque sou egoísta e queria que só eu o tivesse, mas você encontra o livro aqui.
Escrito por Luciano �s 21h15
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Mais visões terríveis. Tempos atrás, no rebuliço da rua Teodoro Sampaio, vi um grande saco de pururucas e um rapaz vestindo uma camiseta preta com a palavra “CONSCIÊNCIA” estampada. Assim mesmo, em caixa alta; uma consciência grandona - algo cósmico, creio. Daí escrevi meu primeiro haicai:
As pururuca comi; das camiseta corri!
Um Pau-no-Leminsk, praticamente!
-O-
Queria escrever um conto trágico cujo desfecho fosse: “Apontou o nariz adunco para diferentes direções, procurando, com aspiradas fortes e curtas, a origem do odor . Então, olhou para baixo, arregalou os olhos e gritou repetidamente: - Jesus, meu pinto está em chamas!”.
Escrito por Luciano �s 09h45
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Festa

Êêê! Lançamento de livro da Olivia (sem acento). Boa sorte, menina!
Escrito por Luciano �s 20h18
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