"O amor pode falhar, mas o cava-
lheirismo prevalecerá" - K.V. apud J.F.

o führer mameluco


Meme sobre escritores abandonados

O Mauro - do Diacrônico - me deu um meme ‘literário’ de presente. Fiquei contente como se tivesse ganho uma supermáquina. E mais contente porque é para escrever sobre três escritores que abandonamos. Tenham paciência com o post gigante.

Paulo Coelho – De tão perscrutador e sintetizador dos sentimentos humanos, praticamente superou Tchekhov. E se fosse dramaturgo suplantaria Bernard Shaw. Mas fez pacto com o diabo – li em uma entrevista dele para a Playboy , ou outra revista, não lembro. Também era carne e unha com o Raul Seixas, outro muito talentoso que fez pacto com o capiroto. Muito negativo isso. Ele é um lobo travestido de carneiro. Não leiam.

Bruna Surfistinha – Surfistinha pode ter batido Lolita, mas acho errado isso de se orgulhar da prostituição. Se o problema é não ter opção, os prostitutos e prostitutas deveriam fazer programas apenas para pagar moradia e alimentação, sem enriquecer. Nada de comprar carros, casas e outros supérfluos com o dinheiro de meretrício. É um mau exemplo para as meninas do nosso Brasil. “Prostituir só pela sobrevivência”, dizia Rita Cadillac.

Erik Von Daniken – Melhor que Philip Dick e Ballard, mas essa coisa de dizer que Jesus era E.T. é coisa do demônio. Esqueça.

Nhé. Agora é sério.

O meme pede para citar três, mas vou escrever sobre cinco escritores só para exercitar minha prolixidade.

James Joyce – De o “O Retrato do Artista Quando Jovem” li umas trinta páginas (mas não todas de uma vez, pelo amor de Deus, senão a ciência de Resistência de Materiais ruiria). Embora a idéia de narrar o despertar intelectual de alguém seja interessante, não houve empatia com personagens, narrativa, nada. Bocejos fora de controle. E se o “O Retrato...” já é assim, imagino o que deve ser “Ulisses”, que é umas dez vezes maior.

Maupassant – Era pupilo de Flaubert, do qual gosto muito. Li a coletânea de contos “Madame Hermet e Outros Contos Fantásticos” e é só. Não achei exatamente ruim, mas poucos contos são bons, e quase nenhum “muito bom”. Desisti de Maupassant não pela ruindade, mas porque o cheio médio.

Ítalo Svevo – Falam muito sobre “A Consciência de Zeno” ser o primeiro romance psicanalítico e coisa e tal. Mas nunca fui fã de Freud, e o preconceito cresceu consideravelmente depois de ler muito Nabokov. Então que fiquei pelo meio do livro e até nunca mais. A saber, Joyce era amigo de Svevo e o incentivou a publicar seus trabalhos. Pois é.

Ítalo Calvino – Por ter comprado “Contos Fantásticos do Século XIX”, coletânea organizada por Calvino, comprei também “O Visconde Partido ao Meio”, uma das primeiras novelas dele. É um livro divertido, mas fica a impressão de que Calvino tem idéias brilhantes que terminam numa execução apenas suficientemente boa - o que é ligeiramente frustrante. Mas ainda não estou definitivamente decidido a abandoná-lo, até pelo fato de “O Visconde...” ser um de seus primeiros trabalhos. Vamos ver.

Nietzsche – O Bigode escreveu “Assim Falou Zaratrusta”, então dá para dizer que escreveu ficção. Desisti dele porque não estou disposto a usar a cueca por cima da calça*.

Já que quebrei todas as regras, vou passar o meme para cinco pessoas (talvez umas duas respondam!). Para o Elton, que saberá desancar melhor que eu, para o Cisco, que de filisteu não tem nada, para o Tiago A., que também é fã de Nabokov, para o Igor, que é para ele escrever menos sobre política e mais sobre literatura e religião e arte, e para uncle Filthy, para que ele volte a postar mais e mais.

(* Sei que já fiz essa piada várias vezes, mas não me canso. Alias, a piada nem é minha; acho que os fãs de HQ sabem disso.)

(p.s. Sou uma mula-sem-cabeça. Os links estavam todos errados; agora sim.)

(p.s.2 Dupla mula-sem-cabeça. Cheguei atrasado para dar o meme para o Filthy. Já está .)



Escrito por Luciano �s 14h56
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Que Updike me defenda

Se a dúvida fosse tudo, ao invés de ser apenas "o princípio da sabedoria", então Salomão me invejaria. Mas apenas se.

Num post em que falava de "O Terceiro Tira", de Flann O'Brien, me senti um pouquinho idiota – seja pela imprecisão ou pelo sentimentalismo – por dizer que "O'Brien tem uma prosa simples, bonita e engraçada - forçando um pouco poderia até dizer que sua escrita é terna (como se ele estivesse contando estória para uma criança)" (perceba que o “forçando” é pura defesa preventiva); mesmo assim mantive o post, simplesmente porque sentia assim - o que é sempre arriscado, e Nabokov já dizia que "não se deve ler com o coração, e sim com a espinha" ou algo assim.

Daí que em "Bem Perto da Costa - Ensaios e Críticas", John Updike escreve sobre O'Brien:
"Assim como Scott Fitzgerald, há um desenbaraço brilhante e natural em sua prosa, uma graça enternecedora lampejando em cada página [...]".

Alívio.

Entre outras coisas, Updike comenta sobre a correspondência entre Nabokov e Edmund Wilson, o mito do retraimento de Melville depois da publicação de "Moby Dick", Beckett e O'Brien, Borges, e até sobre a autobiografia da Doris Day. O livro é uma seleção de ensaios inicialmente publicados em The New YorkerThe New Yorker Review of Books e The New York Times Books Review.

Updike escreve como um cavalheiro - seja lá o que isso queira dizer -; mesmo quando desaprova, é de uma simpatia desconcertante. Creio que tal estilo “martelada de plástico”  seja mais devastador que a ironia mordaz ou sarcasmo, por eliminar a possibilidade do criticado levar para o lado pessoal, restando um baixar de orelhas e um chacoalhar de ombros. (Não que ele critique os autores que citei de passagem, mas, por exemplo, quando enumera ressalvas, intervaladas com poucas citações de mérito, sobre uma coletânea das obras de Borges intitulada “Borges: a reader”, editada por um uruguaio e um escocês.)

Não havia lido nada de Updike; mas estou gostando bastante destes ensaios e vou procurar por sua ficção.


"Bem Perto da Costa - Ensaios e Críticas", de John Updike (Companhia das Letras, 1991, tradução de Carlos Afonso Malferrari). Novinho, por irrisórios $ 12,90 num sebo da R. Teodoro Sampaio (aqui em São Paulo), ou por $ 41,50 na Livraria Cultura.

 



Escrito por Dr. Pnin �s 15h31
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Impressões sobre “Onde os Velhos Não Têm Vez”, de Cormac McCarthy

A Narrativa
Moss, veterano de guerra do Vietnã, caça antílopes quando então encontra automóveis aparentemente abandonados. Corpos, drogas e uma maleta com dois milhões de dólares. Moss sabe que tudo mudará ao levar a maleta, e que mudará não necessariamente para melhor. Chigurh, sujeito implacável que faz a linha do criminoso sádico e honrado, quer a maleta de volta. Xerife Bell - que é a síntese do "velhos" citado no título - também está atrás de Moss, mas em busca de evitar o pior.

Para um leitor desatento "Onde os Velhos Não Têm Vez"*, de Cormac McCarthy**, pode passar por um simples western urbano. Também o título original "No Country for Old Man" pode ser malversado em favor de uma crítica ao belicismo norte americano, contra a guerra e violência e blablabla. Mas ao invés de defender, antes quero criticar McCarthy por um ligeiro incomodo: o abuso do conectivo "e". Incomoda um pouco trechos como:

"Deixou a água fria correr sobre seus punhos até que eles parassem de sangrar e rasgou pedaços de uma toalha de mão com os dentes e amarrou-os sobre os punhos e voltou à sala [...] Quando terminou tirou a carteira do subdelegado do bolso e pegou o dinheiro e o colocou no bolso da camisa e jogou a carteira no chão. Então pegou seu tanque de ar e o aparelho e choque e saiu pela porta e entrou no carro do subdelegado e ligou o motor e deu ré e saiu e pegou a estrada".

Jesus, homem, para que tanto “e”? Por que não trocar alguns conectivos por algumas  ortodoxas e inofensivas vírgulas? Inicialmente, até pensei que fosse um problema da tradução, mas folheando "A Travessia", outro romance de McCarthy, percebi que ali também o conectivo é recorrente.

Outra peculariedade: os diálogos não são marcados por aspas ou travessões - mas com isso inicio a seção de elogios (muito maior, por sinal). No princípio a não delimitação entre a voz do narrador e dos personagens causa alguma confusão, mas seguindo em frente surge um narrador introspectivo, como se ele mesmo fosse responsável pelas vozes dos personagens, num universo autocontido de sua memória. Aliando isto a frases curtas e secas e ao criticado abuso do conectivo "e", McCarthy obtém uma prosa ágil e perfeita para um clima de constante tensão.

(Ok, McCarthy, não reclamarei mais do bendito conectivo!).

A “evolução” de Raskolnikov***
Comecei dizendo que o romance pode ser confundido com um simples western urbano (o que em nada diminuiria o prazer de sua leitura), mas prefiro acreditar que não. É pouco provável não reconhecer na voz do xerife Bell a sabedoria dos "velhos"; na voz de Moss, o homem contemporâneo que faz escolhas como se não tivesse opções (mas as têm), e que arrisca tudo por um futuro pouco provável; na voz de Chigurh, o super-homem de Nietzsche, o Raskolnikov de Dostoievski livre de crises de consciência.

Curioso. O vilão Chigurh talvez seja ainda mais sedutor que o admirável Hannibal Lecter. Dr. Lecter é intelectual refinado, calmo, gentil, violento - um mix de características que o transformam em ícone; Chigurh, apesar de reunir vários atributos de Lecter, está mais ao alcance – você pode ser Chigurh! Todos os personagens afrontados por ele o chamam de louco; e se assim fosse haveria conforto, o terrível é que os afrontados não convencem e Chigurh sempre fala com uma calma e racionalidade alarmantes. Não, Chigurh não é louco, é um amoral com um verniz de honesto. Se digo que mato, mato; se digo que não mato, não mato - como se honestidade pudesse ser resumida na coerência entre o falar e fazer. Chigurh é a evolução do homem moderno, e nada tranqüilamente num mar de relatividade que nivela homens da lei e criminosos.

Entra justamente aí o contraponto do xerife Bell, um homem que vê diferenças entre o bem e o mal - embora não tenha apenas certezas -, mas um homem cansado.  Cansado a ponto de achar que é realmente um velho e que não há mais um "onde" - no sentido temporal - para os que pensam como ele.

Em síntese: é o confronto entre o moderno Chigurh e o antiquado Bell , e Moss, o homem mais ou menos contemporâneo, perambulando sem rumo. 

Um bom livro.


*O livro foi adaptado para o cinema pelos irmãos Coen. O filme está em pós-produção e a estréia é prevista 2007.
** Mais uma vez, obrigado ao Elton por apresentar o autor
*** Depois de escrever este texto, busquei resenhas sobre o livro e descobri que McCarthy é fã de Dostoievski.



Escrito por Dr. Pnin �s 21h14
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Zzzzzz

Estou num descampado. Minhas pálpebras lutam, mas não podem contra o forte vento e poeira e gravetinhos vindos de lá. Aqui e ali, vejo redemoinhos gigantes - ou ciclones bebês - brincando com folhas e pequenas árvores.

Agora árvores são lançadas em minha direção. Corro para trás de uma árvore colossal que, tenho certeza, pode mais que o vento.

[corta]

Desço as escadas do que parece ser uma refinaria de petróleo - aparentemente, trabalho por lá. Esbarro com Fernando Collor de Mello, que abre um sorriso e me cumprimenta com entusiasmo; eu, sem saber o porquê, o trato por "presidente". Ele fala sobre um projeto de combustível alternativo onde utilizam suco cerebral de brasileiros. Argumentou que ninguém sentiria falta. Eu perguntei se ele gostava de David Cronenberg - acho que não me ouviu.

[corta]

Eu e minha mãe vemos álbuns de fotos antigas. Meu irmão chega; ela diz para ele se apressar para nosso encontro com Truffaut: "Vamos, rápido, ou então ficaremos lá conversando até meia-noite. Ele é muito expansivo e adora falar sobre filmes".

(Sei que minha mãe gosta de CSI, Arquivo X, Millenium e, acho, dos filmes do Hitchcock; mas fico surpreso por ela conhecer Truffaut pessoalmente. Mais surpreso se considerar que ele está morto. Muito mais surpreso se lembrar de jamais termos assistido um filme dele.)

"Sonhos costumam ser péssima ficção". Ou não. Ou sim.



Escrito por Dr. Pnin �s 16h44
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Conforto é luxo inexistente para usuários de casulos. Ou ao menos deveria.

Se sentou no sofá abrindo pernas e braços e jogando piscadelas para os lados é porque o casulo caiu bem. Se o andar for muito bonitinho, como quem de uma hora para outra pode começar a cantar e dançar enquanto bailarinas saem de bueiros e cabines telefônicas, é que a carapaça faz jus. Desconfio do tipo.

Extroversão em demasia é de gente que não tem o que esconder - lá, todos folgados em uniformes de palhaço. Dá medo, o tipo - ou mentirosos ou planos.

A saber, meu casulo é para lá de apertado, uns três números a menos. "Não vos conformeis com este mundo", já dizia o tio Paulo. Então tá; Transformers aí.



Escrito por Dr. Pnin �s 00h57
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