"O amor pode falhar, mas o cava-
lheirismo prevalecerá" - K.V. apud J.F.

o führer mameluco


Admirável. Definitivamente, Admirável Mundo Novo

Chego na balada.

(Em minha defesa digo que fui arrastado pela minha mulher. Em defesa de minha mulher digo que foi arrastada por uma grande amiga aniversariante.)

Pago $15 adiantados pelo estacionamento. Deixo o carro - e a chama da esperança, variante maior da auto-ludibriação, afaga meu peito dizendo que verei o dito outra vez. Entro em duas filas até chegar na terceira e definitiva onde piso em água que na verdade é urina - um polvo absolutamente espontâneo, sem dúvida.

Entro meia hora depois. Centenas de Humberts e Lolitas gesticulam, chacoalham o corpo, trocam feronômios. Não há vítima, não há algoz.

De forma a suportar o fardo, visto meu jaleco branco de cientista imaginário (imaginário é o jaleco, não o cientista, lê direito aí ô).  Estudo a fauna e a flora, me inclino para frente franzindo o cenho e juntando as sobrancelhas. Repito em intervalos regulares: "Curioso. Oh, deveras interessante".

Entro na fila para carregar o cartão com créditos - ora pois, tudo é tão moderno que os painéis holográficos de Minority Report se parecem com os botões do fogão Dako modelo 1975 da minha avó. Vinte minutos de espera nem é tanto, principalmente para alguém ansioso por pagar $5 num refrigerante ou cerveja em lata (e olha que tecnicamente falando não estamos numa Casa de Tolerância). Na minha vez – justamente na minha vez, e bem que momentos antes eu já havia sentido um distúrbio na Força - o sistema trava. Mais dez minutos não são nada para quem não vê a hora de experimentar estados alterados de consciência (um punhado de Soma não seria nada mau, Aldous Huxley).

Sento; deslizo na cadeira com um movimento para trás e sinto um arrasto inesperado. Levanto. Um chiclete. "Que tenha câncer de intestino, energúmeno". Tic-tac-tic-tac. Minutos passados e minha educação cristã enfia seu dedo fino e comprido entre minhas costelas até que eu confesse "ok, uma perna quebrada é o suficente. Fratura exposta, ao menos".

O álcool anestesia, mas não o suficiente. Aldous Huxley, cadê você, meu filho?

"Tenho que trabalhar. Adeus!".

...

Balada, breu da minha vida, lança-chamas em minha honorável misantropia. Minha Regina Casé, meu Gugu Liberato. Ba-la-da. No "ba" o queixo retrocede enrugando o pescoço, o "la" estala entre o céu da boca e as costas dos dentes frontais, e o derradeiro "da" escapa da língua entre dentes enquanto escorrego numa lata vazia e caio em cima de uma garota que só no nariz tem uns vinte e cinco piercing. Ba. La. Da.

(Perdão, Nabokov! Perdão!)



Escrito por Jimmy Jimmerino �s 08h02
[ ] [ envie esta mensagem ]


Oportunidades cotidianas para se citar Dostoievski

Gostaria de ser pedante a ponto de fazer uma citação a cada dois minutos. Mas se lembro a citação não lembro o autor, se lembro o autor a citação foge. Uma vez tentei citar "Mais vale um buraco no fundo de uma agulha do que uma peruca" e passei vergonha. Mudei o buraco e a agulha e a peruca de lugar fazendo diferentes combinações e acabei desistindo. 

Emergencialmente, em parte resolverei o caso memorizando muito bem duas frases de Dostoievski para utilizar no metrô.

Se a turma estiver falando alto e lançando perdigotos num raio de dois metros enquanto leio “Onde os Velhos Não Têm Vez” - de Cormac McCarthy (obrigado, Elton) - bradarei "Demônios! Demônios, é o que sois!". Se encontrar pessoas vestidas ridiculamente, ou ridículos se vestindo de pessoas, usarei as mãos como megafone e gritarei "Se Deus não existe, então tudo é permitido. Se vocês existem, qualquer coisa é permitida. Se tudo é permitido, então Deus não existe. É isso mesmo? Deus não existe?". E dá para emendar "Pois eu digo que vocês é que não existem. Demônios! Demônios, é o que sois!".

Se mesmo depois de um bom treinamento eu esquecer as frases, grito apenas “Fiodor! Socorro, Fiodor!”* - enquanto saio correndo e chacoalho minhas mãos desesperadamente.

Talvez me confundam com um neopentecostal. Ah, mas o ligeiro terror nos olhos do polvo é pagamento mais que justo. E ainda permuto** o pedante pelo imprevisível.

De grande valia, com certeza.

(* Entenda, eu não poderia gritar "Dostoievski! Socorro, Dostoievski"; eles responderiam "Saúde! Saúde, moço".) 

(** Jesus! "permuto" é bem engraçado.)



Escrito por LLC �s 21h15
[ ] [ envie esta mensagem ]


1975 (trinta e um)

Escreveram por mim.

Escrito por LLC �s 05h58
[ ] [ envie esta mensagem ]


Trim

Como o véu do templo, em intervalos regulares o tecido da realidade é rasgado de alto a baixo. Fendas, micro-fissuras, buracos de minhoca, seja lá o que for.

Na Grobo, quando criança eu via as adaptações das peças de Nelson Rodrigues. Fascinado. Escandalizado - não por puritanismo, noção da qual sou livre desde sempre. Um comendo a mulher do irmão, dois irmãos comendo a mesma mulher, o pai bolinando a filha. “Nossa, o cara que escreveu isso deve ser um doente”. Então é só crescer um pouquinho e perceber que na verdade Nelson Rodrigues era absolutamente realista; de um realismo de extremos, é claro, mas de uma realidade nem tão incomum; um realismo pintado com as melhores cores, mas ainda assim impecavelmente verossímil.

É só prestar atenção. O cotidiano é repleto de aparições que esmigalham a já frágil estrutura do real. Não é assim? As certezas vão em cacos; objetivismo em pó, relativismo halterofilista. Dia desses, num shopping daqui de São Paulo, vi uma garota loira que girava o próprio braço direito como uma hélice de monomotor. Fiquei observando a figura até o fim do corredor - e o braço girando, ora sentido horário, ora anti-horário. Explicações não faltam: fisioterapia em movimento, espasmos involuntários, tique-nervoso, espanta-moscas. “Você precisa do contexto, precisa do ponto de vista”, alguém pode dizer.

Talvez. Mas o Contexto é um sujeito absurdamente vilipendiado. Abusado sob variados aspectos, é comumente arrastado pelas mãos para todo lado como um cobertor de estimação. Coisas não precisam de um contexto para existir. O telefone está lá tocando mesmo que ninguém ouça. Simples assim.

Mais um pouco e começo beliscar a Metafísica; agora lê este outro texto que neste blog você já leu besteira suficiente.



Escrito por LLC �s 20h21
[ ] [ envie esta mensagem ]


Sobre brincar de roxinho

No primeiro grau – ou seja lá o nome disto nos dias de hoje – ensinam que as vírgulas são úteis para que o leitor declamante tenha pequenos intervalos para respirar (se é que ainda dizem tal asneira). Hoje, isto deveria implicar em mais um “O Ministério da Saúde Adverte”, desta vez com o complemento “Literatura Contemporânea Pode Causar Morte por Asfixia”.

Entendo pouco de literatura - e de lingüística Deus me livre -, mas fazer com que a escrita seja espelho da fala me parece uma bobagem sem tamanho. Argumentam que a escrita é mera representação da tradição oral – “Matem as vírgulas, pontos e travessões!”, esgoelam por aí. Mas, ué!, a pontuação não é justamente o recurso para representar, mesmo que limitadamente, as nuances da fala? E se já há um gap entre pensamento e fala, por que a escrita deveria ser cópia desta?

Quer escrever do jeitinho que se fala? Não escreva, grave sua voz de locutor AM num CD.

Mais aqui e aqui.



Escrito por LLC �s 16h13
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Meu perfil





BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Livros, Cinema e vídeo, Ciência, Computação e Filosofia jr.



Hist�rico
01/11/2009 a 30/11/2009
01/10/2009 a 31/10/2009
01/06/2009 a 30/06/2009
01/02/2009 a 28/02/2009
01/01/2009 a 31/01/2009
01/12/2008 a 31/12/2008
01/11/2008 a 30/11/2008
01/10/2008 a 31/10/2008
01/09/2008 a 30/09/2008
01/08/2008 a 31/08/2008
01/07/2008 a 31/07/2008
01/06/2008 a 30/06/2008
01/10/2007 a 31/10/2007
01/08/2007 a 31/08/2007
01/07/2007 a 31/07/2007
01/06/2007 a 30/06/2007
01/05/2007 a 31/05/2007
01/04/2007 a 30/04/2007
01/03/2007 a 31/03/2007
01/02/2007 a 28/02/2007
01/01/2007 a 31/01/2007
01/12/2006 a 31/12/2006
01/11/2006 a 30/11/2006
01/10/2006 a 31/10/2006
01/09/2006 a 30/09/2006
01/08/2006 a 31/08/2006
01/07/2006 a 31/07/2006
01/06/2006 a 30/06/2006
01/05/2006 a 31/05/2006
01/04/2006 a 30/04/2006
01/03/2006 a 31/03/2006
01/10/2005 a 31/10/2005
01/09/2005 a 30/09/2005
01/08/2005 a 31/08/2005
01/07/2005 a 31/07/2005
01/06/2005 a 30/06/2005
01/05/2005 a 31/05/2005
01/04/2005 a 30/04/2005
01/03/2005 a 31/03/2005
01/02/2005 a 28/02/2005
01/01/2005 a 31/01/2005
01/12/2004 a 31/12/2004
01/11/2004 a 30/11/2004
01/10/2004 a 31/10/2004
01/09/2004 a 30/09/2004
01/08/2004 a 31/08/2004
01/07/2004 a 31/07/2004




Links
 A Vida de Tiago A.
 Alexandre Soares Silva
 Altamente Derivativo
 Blogauti
 Bogotissimo!
 Chá das Cinco
 Coisas de Idiota - uma lista de nunca estará completa
 Da Década
 Diacrônico
 Estado Civil
 Feliz Nova Dieta
 Filthy McNasty
 I Don't Mind a Rainy Day
 Lamas está vivo
 Million Dollar Kiss
 O Indivíduo
 Pai Al
 Radamanto, o bailarino ébrio das louras alvoradas [RIP]
 Véspera de Nada (RIP)
 wan e thoven
 xy7htk [RIP]




eXTReMe Tracker