Literatura e auto-flagelo
“[...] Conclusão: não vale a pena ler. Não serão melhores pessoas, não serão mais infelizes e não encontrarão um significado para a vida. Pelo contrário: serão maus, perversos, alienados, deprimidos e sem o mínimo resquício de esperança. Com sorte, a vida passa depressa. Só isso. No final, é provável que venham a preferir os volumes do Guerra e Paz ao amor dos vossos amigos. Florença à vida do vosso filho.” – Tiago Galvão, no Diário.
“Salinger é o único escritor que eu tenha lido que me faz brigar com a literatura e não ler nada por meses e meses. É tudo por amor, é claro, como se a própria Literatura me mostrasse seus esforços diários, sua superioridade em nossa relação e como eu não contribuo em nada (simplesmente porque não posso, jamais vou merecê-la e ela estaria muito melhor com um outro alguém). Eu odeio ler Salinger porque é bom demais.” – Nico, no Million Dolar Baby
Incidentalmente, assim como a Nico também estou lendo “Nove Estórias”, do Salinger. Dos cinco contos que li até agora três têm diálogos entre crianças e adultos, um outro é um relato em primeira pessoa cujo narrador é um garoto – “O Gargalhada”. Em “Um Dia Ideal Para Os Peixes-Banana”, primeiro conto do livro, há um diálogo entre um rapaz e uma garotinha que me fez pensar em inúmeros possíveis diálogos com meus futuros e hipotéticos filhos (e também lembrei de “Peixe Grande”, do Tim Burton).
A prosa de Salinger é absolutamente espontânea, mas de uma espontaneidade em que não há uma palavra ou frase supérflua. Ele não é exatamente conciso; talvez seja econômico com as palavras. Sei lá.
Se penso em Flaubert e Nabokov lembro da metonímia, da capacidade descritiva, da cadência perfeita; em Tolstoi, da meticulosidade, do estilo bonito e realista; em Dostoievski, da angustia moral, dos personagens concretos, do messianismo russo; em Tchekhov, da síntese absoluta do gênero humano; em Borges, da economia em palavras, da prosa em solavanquinhos, da imaginação; em Evelyn Waugh, da crueldade, da retratação brilhante da pusilanimidade de seus personagens frente ao "destino", através do qual são levados para todo lado como numa enchurrada.
Numa primeira impressão Salinger me escapa – como a palavra esquecida lá no fundo que teima em não vir à tona –, e só sei que os contos são perfeitos.
Escrito por LLC �s 16h10
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À Associação dos Neonazistas de Pindamonhangaba

Venho por meio desta, em plena posse de minhas ilibadas faculdades mentais e psicomotoras, contestar veementemente as injúrias a mim lançadas por colegas de nosso grêmio... quero dizer, de nossa renomada instituição. Para tanto, separei minha argumentação em tópicos de forma a proporcionar claro e inequívoco entendimento.
De minha suposta origem nordestina Se há algo incontestável é o que se refere à pureza de meu sangue; um sangue vermelho-escuro que, ainda que por demais espesso, corre por minhas nobres veias em velocidade superior a que Robson Caetano aplicaria em busca de uma marmita. Geneacologistas idôneos, em estudo minucioso, traçaram minha árvore genealógica, cujos frutos são dos mais viçosos, além de apresentarem uma tênue penugem que os torna objeto de volúpia – o que nos remete, é claro, ao nosso Wando, amante de pêssegos, símbolo máximo da música e arte neonazi, cuja principal composição “Fogo e Paixão” ombreasse, ou mesmo supera, o “Anel dos Nibelungos”, obra prima do nosso querido Wagner. Sobre o fato de meu crânio ser, digamos, levemente plano – os ignorantes diriam que tenho a cabeça “achatada” -, esclareço que é resultado de um lamentável acidente ocorrido quando eu ainda era bebê. E ainda agora me lembro como num filme: eu - pequeno, barrigudinho, pontinhos esverdeados de ramela no canto dos olhos, um par de fios de coriza saíam juntinhas de meu pequeno nariz, e, tal como lágrimas, afastavam-se entre si delineando minhas bochechas rosadas até, no ápice, se reencontrarem alegremente no extremo de meu queixo pontudo - estava na banheira e me estiquei todo para apanhar meu patinho de borracha que pousava docemente sobre a pia, no que escorreguei e caí de cocoruto no chão, quicando várias vezes até o corredor enquanto chacoalhava freneticamente minhas perninhas rechonchudas.
De meus supostos traços indígenas Nunca usei um short Adidas ou Havaianas, muito menos executei a dança da chuva usando a palma da mão para esconder e mostrar a boca enquanto se grita “hu”. Se meus olhos são levemente estreitos e diagonais se deve ao fato de quando em criança ter imitando muito nossos amigos japoneses - aliados importantes na nossa luta da segunda guerra –, em que repuxava meus olhos com fitas crepe afixadas do canto dos olhos às minhas têmporas. Também desminto qualquer um que diga que meu livro de cabeceira é “O Guarani”; já “Mein Kampf” leio até no banheiro, principalmente.
De minha possível ligação com judeus Não é verdade que eu tenha um dia vendido minha mãe; alugar e vender são transações completamente distintas. Nego também que eu seja circuncidado - ou seja, nunca operei da fimose -, e se meu membro apresenta tal característica dêem graças ao cachorro desgraçado que um dia quase me arrancou o pinto. Também dizem que meu nariz é adunco; mentira, visto que originalmente é levemente arrebitado, mas foi achatado por uma porta fechada sem aviso quando eu, com as calças arriadas, corria atrás de minha empregada de 65 anos.
De minha cútis Má fé, ou falta de um espírito observador, acomete os que argumentam que eu teria sangue negro. Um absurdo. Não há dúvida, minha cútis original é tão alva que poderia cegar ao refletir um minguado raio de sol, e tão macia e branquinha como um tufo fofo de algodão. Tanto que isso fazia com que eu recebesse de meus amiguinhos apelidos carinhosos tais como “melanina zero”, “bigato” e “alemão”. “É uma questão de adaptação”, como diria nosso mentor Darwin. Hoje, se apresento este bronzeado sensual é simplesmente por ter vivido muitos anos em Araçatuba, interior de São Paulo, onde o Sol, com a conivência das nuvens ausentes e do vento que mal consegue chacoalhar uma roseira, fustiga nossas peles alvas como a neve, dando-lhes este bronzeado pelo qual podemos erroneamente ser tomados por mestiços (cabe aqui uma breve digressão: nessa mesma cidade do sol ardente, houve tempo em que faziam o transporte de ovos utilizando caminhões frigoríficos, pois de outro modo todos chegariam já cozidos aos seus destinos; ainda lá, rememoro nostalgicamente, meu hobby predileto era utilizar os impiedosos raios solares para fritar ovos na calva suada de judeus gordinhos, no que eles gritavam: “Oh, D’us, outra Holocausto! Socorra, a nazista estar fritando uma ovo em meu cabeça”; e digo, sem qualquer exagero, que era por demais instigante o desafio de manter a gema do ovo no centro do kipá – que para quem não se lembra é o boné-tampa-de-laranja).
Epílogo Espero que as considerações acima sejam suficientes para sanar quaisquer dúvidas sobre minha nobre origem, e anseio, pelo bigodinho do Fürer, continuar na luta por um mundo melhor e mais limpinho. Um mundo de amor fraternal, de amor entre camaradas distintos de puro sangue, de nossa integração íntima, a sublimação de nossas virtudes arianas.
Aiii, Hitler!
ass. Severino Zulu Goldenstein – o ariano puro sangue.

Richard Wagner, o nibelungo dos nibelungos.

"Você é luz, é raio estrela e luar, manhã de sol, meu iaiá, meu ioiô. Você é sim, e nunca meu não, quando tão louca me beija na boca e me ama no chão." Versos imortais de Wando - nosso maior artista ariano contemporâneo
Escrito por LLC �s 00h57
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Taxistas num mundo perfeito
Costumo usar o metrô; mas ontem, ao deixar o trabalho, voltei de táxi para casa. Mais por uma questão de segurança, pois, vá lá, andar em São Paulo depois das nove da noite pode viciar os dados multifacetados da sorte, tendendo-os a cair para os lados: “facada”, “orifício à bala”, “assalto” e toda variedade de desgraças possíveis.
Sento à frente, ao lado do taxista – comportamento politicamente correto que por mais que evitemos sempre nos sussurra o quê fazer -, “Rua x, por favor”.
“Essa vagabunda!”, responde o taxista em tom libidinoso - um sujeito baixo (em mais de um sentido), calvo, perto dos cinqüenta e cinco anos e levando um óculos estilo engenheiro na cara redonda e adiposa. Fiquei um instante sem entender, e ele me contou sobre como a tal mulher, moradora de um prédio residencial que é vizinho do prédio onde trabalho, havia deixado o marido para ficar com outro. “Essas mulher trepam muito! Os cara não agüenta!”, disse, me tomando por seu amiguinho confidente.
Sou do tipo que se constrange facilmente quando em elevadores, táxis e filas. A sensação de ter que dizer algo - simpatia mínima: previsão do tempo ou respostas monossilábicas - é um tipo de extorsão, além de ser eficiente em desagradavelmente distender o tempo.
No mundo ideal – e não sou idiota o suficiente para achar que a realidade mudará porque tenho sei lá que idéias na cabeça e lutarei por um mundo melhor - o taxista, pouco depois de ouvir o destino solicitado, me perguntaria: “Hei, cê viu que a Livraria Cultura tem os dois volume de ‘Contos Completos’, e também ‘Aulas de Literatura’, do Vladimir. Tudo pronta entrega, rapaz. Em um dia tá lá na sua casa! Cê viu?”.
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Em tom leve de censura pergunto se quando ele fala ‘Vladimir’ quer dizer ‘Nabokov’. “É, o Nakobov! Esse mesmo, o russo que depois foi morar nos States. Grande sujeito, escreve facim”, ele responde.
Então eu digo que sim, que vi os livros e inclusive comprei todos de uma vez – o que fez com que a Visa me mandasse um buquê de flores (uma coroa seria mais adequada) e um cartão de prástico de cliente preferencial. Sim, são bem caros, importados, traduções em português de Portugal; comprei ontem, chegarão hoje.
“Leio o Vladimir no original. Em ingrês é bem mais barato” – ele diz, enquanto dá uma fechada na moça de óculos e cabelos presos, e completa: “Barbera! Mulher é tudo igual, só sabe pilotá fogão!”.
Eu afundo no banco, corando por ter um inglês não suficientemente bom para ler Nabokov no original, mas, obstinado, pensando que no ano que vem sim, colocarei meu inglês branquelo-de-costelas-demarcadas na musculação.
*
Os transeuntes são rápidos como formigas, marchando rapidamente na direção errada - não fecha, droga de semáforo -; o motor um ponto zero do táxi branco tremelica, bufando em resposta ao pé gordo de unhas encardidas do motorista (não as vejo, as unhas, mas imagino) - quando chegar em casa os livros estarão lá, ao menos isso -; quase atropelamos um ciclista avoado que agora dança em espasmos para manter um precário equilíbrio, e em sentido contrário os carros vão depressa, deslizando no asfalto e deixando um quase imperceptível rastro de luz – cidade-lixo do caramba.
“É, essa mulhé é a maior vagabunda! Aí, moço, que calor, hein?”.
É.

Contos Completos - V.1 e V2 (Teorema, 2003); Aulas de Literatura (Relógio D’água, 2004).
Escrito por LLC �s 17h36
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Cônicos cômicos (ou De cueca na cabeça, enteados de Frederick Taylor dançam graciosamente ao som frouxo da cuíca)
Extraterrestre de crânio cônico é um estereótipo aprendiz em ridicularidade frente a gurus da vida executiva. Calva cônica reluzente, gravatas italianas, ternos risca-de-giz e protuberantes gogós: essa é a caracterização sintética dos gurus da administração, marketing, tecnologia da informação et caverna.
Derivando do “Cada povo tem o governo que merece” (frase que, salvo engano, é de Ruy Barbosa), cada ciência tem o guru que lhe cabe. E se as áreas humanas já são o que são, imagine as sub-áreas citadas, todas ainda mais avariadas pelo efeito entrópico.
E riem do esoterismo – não que este não seja risível -, enquanto colecionam pilhas de revistas na linha de Você S/A, Vencer, PM e Exame (algumas chegando ao modesto custo de R$ 30, todas dissertando sobre banalidades e obviedades). Na banca de jornal, quando passo os olhos por esse tipo de material tenho vontade de lhes distribuir piparotes nas calvas lustrosas e orelhas de abano, além de pancadinhas comiserativas em suas nucas suadas.
Não me faltasse o talento, além de sobrar a preguiça, escreveria um romance à la Evelyn Waugh ou Wodehouse – dando preferência ao primeiro, porque de bom sarcasmo estamos em falta – ridicularizando a Tecnologia da Informação (aka TI), sub-área de humanas mais ridícula possível, por ser prima de quinto grau da ciência da computação e posar de ariana-puro-sangue-das-ciências-quase-exatas. Porque Dilbert, apesar de bom, não é suficiente; é preciso escarnecê-la, tripudiá-la, dançar quadrilha sobre suas partes pudendas e obesas; aplicar-lhe um ritual de descarrego, exorcismo, missa de sétimo dia, vigília de trezentos e tantos pastores, aspersão de água benta, passe...
[respira fundo] Jesus, quase me indignei!
Escrito por LLC �s 15h06
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Múltipla escolha
“Estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já.”
“Quero apossar-me do é da coisa.”
“Quero possuir os átomos do tempo.”
“Tenho coragem? Por enquanto estou tendo: porque venho do sofrido longe, venho do inferno de amor.”
“Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio.”
“Eu sou antes, eu sou sempre, eu sou nunca.”
“De que cor é o infinito espacial? É da cor da cor.”
“Arrepio-me toda ao entrar em contato físico com bichos ou com a simples visão deles.”
“Sou um coração batendo no mundo.”
“Comprazo-me com a harmonia difícil dos ásperos contrários.”
“Ter coruja nunca me ocorreria, embora eu as tenha pintado nas grutas.”
“Para te escrever eu antes me perfumo toda.”
As frases são:
a) de uma adolescente que admira coisas como amor, dimensão e espaço; e usa perfume para escrever b) de uma mulher com leve retardo mental c) de uma mulher com grave retardo mental d) de Fritjof Capra e) de Clarice Linspector f) de um robô desenvolvido por mim, montado com peças do despertador mecânico da minha avó
(Não que você precise da resposta; mas tirei as frases daqui. Minha pança dói de tanto gargalhar; rolo feito carretel pelo carpete do escritório; quico nas paredes como uma bolinha de borracha!)
Escrito por LLC �s 10h43
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Sempre fico assustado quando leio uma resenha gigante de filme ou livro ou qualquer coisa. Jesus! Como se deriva tanta coisa? Daí eu bato em minha cabeça com o grampeador num “toc, toc. toc", ou entro em mim por minha orelha e grito “Alguém? alguém.... alguém... a l g u é m ... a l g u é m... g u é m ... g u é m”. Tenho que aprender a derivar. Derivar é divertido.
Projeto: escrever mil páginas sobre uma frase 'enigmática' da dona Clarice Linspector.
(Essa observação não se refere em nada com o Altamente Derivativo; blog, aliás, do bom.)
Escrito por LLC �s 10h34
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