"O amor pode falhar, mas o cava-
lheirismo prevalecerá" - K.V. apud J.F.

o führer mameluco


Mamãe, hoje acordei iconoclasta!

Dia desses, escutei algumas músicas de Leonard Cohen, do qual só ouvira falar. Mas o que é aquilo, hein? E eu que me penitencio diariamente por meu avariado senso estético musical.

-O-

Há poucas semanas, li “Madame Hermet e Outros Contos Fantásticos”, de Maupassant. Creio que “ruim” não seria um adjetivo justo, mas os contos são bem fraquinhos. Entre vários só gostei de dois. Maupassant é medíocre mesmo ou me falta sensibilidade 'autística'?

-O-

A Consciência de Zeno”, de Italo Svevo, faz parte de uma reduzida turma de livros para os quais joguei a toalha, o calção e minhas luvas emborrachadas. Ô velho chato! Li há uns três anos, mais ou menos até a metade. Segundo a tal da crítica esse livro é o primeiro a ter toques psicanalíticos à la Freud, muito embora não me recorde de Svevo falar muito sobre pintos. Fico curioso em saber o que Nabokov, costumaz escarnecedor de Freud, diria sobre o livro.

-O-

Eu bocejava o tempo todo durante a leitura de "O Retrato do Artista Enquanto Jovem" - de James Joyce; cheguei até a metade do livro. Certa vez, lendo-o na frente do computador, ‘dorminhoquei’ por instantes e bati com a cabeça no teclado, no que em minha testa foram gravados, em relevo, os caracteres "zxcvb" - com as letras invertidas, é claro. Svevo era amigo de Joyce; acho que isso diz alguma coisa.

-O-

Call me Nietzsche-depilado-do-noroeste-paulista! (ui!) 



Escrito por LLC �s 21h44
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Dom

Eu tenho o dom de visões. Não ria, é um fardo. Há alguns é dado o dom da sabedoria, a outros o da profecia, a outros o de falar em línguas estranhas e a outros o de interpretá-las (I Coríntios 12:8-10). Eu tenho o dom da visão. Inclusive o dom de ver coisas que não quero, como, por exemplo, uma "moça" de cabelo-laranja-curto-rente-ao-couro-cabeludo, usando um casaco de pele branco e uma calça colante preta de couro - do sapato não lembro bem, só sei que também era muito feio. Foi no metrô, e na ocasião quase deixei cair o livro que estava lendo, "O Arquivo Dalkey", de Flann O'Brien. Por instantes pensei que a visão era efeito de minha leitura, pois o livro é de literatura do absurdo, em que uns camaradas fazem um colóquio submarino com Santo Agostinho, e também há um episódio em que um padre oferece um emprego a James Joyce, cuja tarefa seria a de cerzir cuecas de padres jesuítas - este é o "momento gargalhada" do livro. O livro é divertido, mas não chega perto de "O Terceiro Tira" - livro do mesmo autor.

Mas eu estava falando do metrô. Sabe? Existem variadas formas de perder a dignidade, e dentre estas andar de metrô é uma das mais eficazes. Estranhos se esfregando em você, falando alto, impedindo que você leia em paz; estranhos ofendendo a todos com sua feiúra e mau cheiro; estranhos que dizem "Ni" à velhas senhoras. O mundo é cruel e cheio de visões terríveis. Percebi isso muito cedo, quando ainda beliscava impunemente os seios das moças, o que resultava, no máximo, numa leve repreensão da categoria "Que menino safadinho!".  Nessa época, numa conversa casual, uma moça bem mais velha que eu - que já não era bonita, e para ser sincero digo que era bem feia - abaixou-se para pegar algo, quando então pude ver, enquanto esfregava meus olhos nervosamente e estupefato pelo terror, um tufo de pêlos entre seus seios muxibentos. Nunca mais belisquei seios alheios, e me arrependi destes pequenos pecados.

E por falar em pecados e visões terríveis, ontem assisti um bom pedaço de "O Devorador de Pecados", um filme que trabalha a tensão entre o profano e o sagrado, a redenção e o pecado. Ri muito e falei para minha mulher: "Jesus! Dê, olha só que filme ruim", e ela, lá do quarto, perguntou "Então por que você está assistindo?", e eu respondi "É mesmo, por que eu estou assistindo?". Mas continuei assistindo, e rindo. E fiquei um pouco triste, é claro, por perceber que minha visão, mais precisamente a moça-careca-de-cabelo-laranja, teria gostado muito do filme; e meu coração foi torcido feito uma camiseta velha, destas que as lavadeiras torcem com seus braços musculosamente adiposos, enquanto cantam músicas do Djavan e do Caetano Veloso. E também fiquei sorumbático por ver que o protagonista, Heath Ledger, faz muitos filmes ruins.

E eu que, às vezes, reclamo da vida! Mas imagine se você fizesse muitos filmes ruins. Imagine a dor: “Jesus! Eu faço muitos filmes ruins! Oh, a dor! A dor!”.

Mas, como dizia o filósofo Aristóteles - ou Genival Lacerda, não lembro -, sempre há uma saída. Se eu fosse Heath Ledger daria um jeito de driblar a baixa estima dizendo a mim mesmo: "Poderia ser pior, eu poderia ser a Regina Casé". E logo me esqueceria de que faço muitos filmes ruins e diria com firmeza: "É, eu não sou a Regina Casé, muito menos a Regina Duarte"; e seria feliz como uma pomba rola planando no ar - fazendo muitos filmes ruins, mas sendo alguém que não é a Regina Casé - ou como um golfinho que salta nas águas do mar azul - fazendo muitos filmes ruins, mas sendo alguém que não é a Regina Duarte.

Hei, vocês todos, que não são a Regina Casé nem a Regina Duarte, vocês têm o MAIOR dom de todos. Levantem o queixo proeminente e a braguilha, encham o peito de ar e gritem retumbantemente: "Eu não sou a Regina Duarte! Eu não sou a Regina Casé! Eu tenho o dom maior! Eu tenho o dom maior!”.

Heath Ledger, que não é a Regina Casé.

Povo brasileiro, que, apesar de tudo, não é a Regina Casé (Tá, tudo bem, o povo brasileiro tem muito de Regina Casé, mas não é a própria).

Regina Duarte, que ao menos pode argumentar que tinha razão para dizer “Eu tenho medo!”, e que não é feia como a Regina Casé.

Regina Casé, que não tem outra opção senão admitir que é a Regina Casé.



Escrito por LLC �s 20h40
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Um amigo é como uma estrela; e "as estrelas são o colar de margaridas de Deus" (1)

À maneira de Gogol, batido no liquidificador com alguns poucos cubinhos de Wodehouse - ambos, é claro, neste exato momento, praguejando em russo e inglês, respectivamente).

Para a Dê

I

O mujique (2) disparou pelo corredor estreito, e tão depressa que os calcanhares batiam-lhe alternadamente em ambas as popas da bunda - o que fazia toda a gelatina estremecer, pois, talvez seja interessante dizer, estava ensaboado e completamente nu, exceto pelo gorro azul que não tirava da cabeça nem mesmo na hora do banho.  Chegou à porta engasgando pelo fôlego que lhe faltava, abriu-a com cuidado. Primeiro adentra sua cabeça avantajada, olha ao redor de canto a canto; depois, instintivamente, mirou o teto.

E viu, e o que viu não entendeu.

Mas antes de continuarmos é interessante expor informações sobre o mujique, para que o leitor possa ter a visão de que espécie de mujique este mujique era. Pois bem, é de conhecimento geral que mujiques são mujiques e nada além disso; trabalham o mínimo necessário, gastam todo o seu dinheiro em vodca e usam sempre as mesmas expressões: "Valha-me, Deus!", "Ê, canalhada!", "Deus me defenda", "És um patife" e outras. Pois chegamos à conclusão de que esta observação toda não ajuda em nada. Enfim, o mujique era um mujique, e damos o caso por encerrado.

II

Pois, como se dizia, o mujique mirou o teto. E viu; e o que viu não entendeu; e matutou, mas ainda assim continuou sem entender; e cerrou os olhos, e as rugas lhe responderam na testa. E permaneceu boquiaberto por um tempo.

- Pela mulher de Ló! – disse apropriadamente o mujique, que não se transformara em uma estátua de sal, mas cujo movimento resumia-se ao revirar dos olhinhos em sentido horário, anti-horário, horário, anti-horário, e assim sucessivamente.

Por fim, chacoalhando os punhos cerrados - ou os punhos cerrados chacoalhando-lhe o corpo, é grande dificuldade dizer - e lançando perdigotos para todos os lados, alguns agarrando-lhe a barba em busca da salvação, gritou furiosamente:

- Jacaré! Ah, jacaré, desça já do lustre, seu patife. Anda, és bolsa de madame, seu canalha. Darei-lhe uma lição para não voltares a pregar-me peça.
- Veja lá - retrucou o jacaré em tom de censura -, veja lá como falas comigo, seu cara de pote de farmácia. Até hoje não terminaste de ler "A República", e de Kant não leste mais que dez páginas; em compensação lês a Veja de capa à capa toda semana, cabeça de mamão!
- Ah, jacaré, pândego dos diabos. Não interessa o que li ou deixei de ler. Não existe isso de jacarés pendurados em lustres. Jacarés andando por aí como pessoas decentes está muito bem, ou mesmo passeando à beira da lagoa vá lá, para manter a tradição, mas pendurados em lustres? Não, não é possível; daqui a pouco gnomos sapatearão sobre minha pança e buxas transformar-me-ão em um leitão.

Não demorou ao mujique apanhar uma vassoura de um dos cantos da sala e a estocar a grossa pele das costas do jacaré. Blasfemando contra todos os santos, o jacaré lamuria, e com pouco êxito defende-se com o rabo. Não resistindo às insistentes cutucadas do mujique acaba por desabar ao chão. Contorcendo-se ele chora, esguichos fininhos de lágrimas são lançados de seus olhos, chama o mujique de “bruto” e de “homem sem coração”.

"Valha-me, Deus", exclama o mujique - pois, como já dito, é costume dos mujiques dizerem "Valha-me, Deus"-, e cola as palmas das mãos nas faces avermelhadas, puxando agressivamente tufos da própria barba.

- Ah, jacarezinho. Mil perdões, meu amiguinho. Perdão se te feri. Sou mesmo um bruto, um mujique ignorante.

...

III

Horas depois, na taberna da aldeia, mujique e jacaré bebiam vodca, e conversavam e riam, dando tapinhas nas costas um do outro. E não seria exagero dizer que estavam ambos mamados, como se diz. E se abraçavam e choravam, e repetiam continuamente o seguinte diálogo:

- Ah, este é meu amiguinho jacaré!

No que o jacaré respondia:

- Ah, este é o mujique! Meu amiguinho do gorro azul!

E riam, e se abraçavam e choravam. Porque quando russos bebem juntos o tempo não corre muito até chorarem e se abraçarem e trocarem beijocas, em nada comedidas expressões de afeto - o coração, como se diz, bate-lhes mais forte no velho peito (3).

Inclinando-se para trás, o jacaré percebeu que o mujique mostrava o cofrinho - o inicio do rego, para dizer de forma mais clara, e também não seria exagero dizer que o rego estava mais para um riacho abundante de águas. O jacaré, bonachão como era, deposita-lhe uma moeda de um rublo.

“Por mil diabinhos sem cabeça!” – gritou o mujique por várias vezes. Mas depois abriu um sorriso e logo mais já estava gargalhando; então disse zombeteiramente:

- Ah, jacaré, és um pândego! Um pândego! Vejam só meu amiguinho jacaré sorrindo! Reparem-lhe bem, em quantidade de dentes só perde para a dona Julia Roberts! Hi-hi-hi!

- Este é meu amigo jacaré!
- Este é meu amiguinho mujique, o homem do cofrinho! – e riu tanto que lágrimas surgiram no canto de seus olhos, e depois rolaram lentamente por sua cútis esverdeada.

E todos riam, bebiam, se abraçavam e trocavam beijocas.

- O fim -


(1) Citação literal de uma frase da personagem Madeline Bassett, em “Então tá, Jeeves”, de Wodehouse - na tradução de Beth Vieira.
(2) “mujique”: camponês russo, homem rude de pouca instrução.
(3) Citação livre de um trecho de “Viy”, novela de Nikolai Gogol.



Escrito por LLC �s 10h19
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Resenha bem feitinha sobre filme ruim: “36 Quai des Orfèvres”

Ontem à noite, enquanto fazia minha frugal refeição noturna, assisti os dez últimos minutos do filme francês “36 Quai des Orfèvres” – com Gerald Depardieu, direção de Olivier Marchal.

Apesar da pequena amostra pude perceber que é um filme bem ruim, e afirmo com toda convicção de que tem a pior trilha sonora que meus ouvidos côncavos e aveludados já puderam apreciar. É um violinozinho arranhando os mesmos acordes em intervalos regulares, criando um suspense aterrador tal como “Jesus! Quando isso vai acabar?!”. A tensão superou o limite do suportável, quando então perdi os sentidos por um momento e tombei de cara no prato de minha inocente e modesta refeição. Depois de retirar o arroz dos olhos e recolher uma folha de alface que estava pendurada em minha orelha direita, vi o rosto de Depardieu na minha TV de vinte e nove polegadas, momento em que identifiquei o único ponto positivo do filme...

o cameraman, rapaz de comprovado talento, por ter captado Depardieu e seu nariz – ou o Nariz e seu depardieu - num mesmo close, o que não é tarefa trivial, ainda mais em se tratando de enquadrar tanta coisa em apenas vinte e nove polegadas!

Para encerrar, digo que Depardieu é a contrapartida realista do conto fantástico “O Nariz”, de Nikolai Gogol – do qual postei um trecho aqui -, e cito eventos importantes da vida deste vultuoso, portentoso e notável ator.

Depardieu irritado, se esforçando muito para desencaixar seu Nariz de uma taça de vinho.


Depardieu triste, depois que um tablóide publicou detalhes sobre uma tragédia de seus tempos de estudante, quando, por infelicidade e livre de qualquer dolo, teria causado a morte por asfixia de um colega de quarto.


Depardieu feliz, após cientistas publicarem um artigo na revista Nature isentando-o de culpa pela queda do nível de O2 e aumento de CO2 na atmosfera terrestre.”É tudo culpa do imperialismo americano”, concluiu o estudo.


Ah, quase me esqueci! No final, Depardieu morre com um tiro na testa; mas o Nariz para cima, maciço, bombado, antítese do nano e ainda do macro, um monumento a ser tombado como patrimônio da humanidade.

Outra coisa, até agora não sei o que quer dizer “36 Quai des Orfèvres” - talvez por não saber nada de francês -, exceto quanto ao número “trinta e seis” que, inteligente e perspicaz que sou, soube o que era num relance.



Escrito por LLC �s 18h30
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"O Rabino Baumel, um scholar de Vitebsk, decidiu jejuar em protesto a uma lei que proibia os judeus russos de usarem sandálias fora dos guetos. Durante quatro meses, o santo homem permaneceu deitado num catre, olhando para o teto e recusando alimentação de qualquer espécie. Seus pupilos temeram por sua vida e, então, certo dia, uma mulher aproximou-se de seu leito e, inclinando-se até seu ouvido, perguntou: “Rabino, qual era a cor do cabelo de Ester?”. O Reverendo virou-se lentamente e a encarou: “Vejam só o que ela perguntou! Mal consegue imaginar a dor de cabeça provocada por quatro meses sem comer!”. Com isso, os pupilos do Rabino escoltaram-na pessoalmente até a sukkah, onde ela comeu da cornucópia da fartura até se fartar.

Este é um sutil tratamento do problema do orgulho e da vaidade, parecendo implicar que jejuar é um engano dos grossos. Principalmente jejuar com o estômago vazio. O homem não provoca sua própria infelicidade, e parece fato que sofrer só depende da vontade de Deus, embora nem eu entenda por que Ele se diverte tanto com isso. Certas tribos ortodoxas acreditam que o sofrimento é a única forma de redenção, ao passo que os estudiosos mencionam um culto dos essênios, o qual consiste em sair por aí dando cabeçadas nas paredes. Deus, segundo os últimos livros de Moisés, é benevolente, embora haja alguns assuntos em que ele prefere não interferir."

Trecho de “Cuca Fundida”, de Woody Allen - na tradução de Ruy Castro, L & M Editores Ltda, 1978.



Escrito por LLC �s 16h29
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Eu: gênio agora, filósofo desde pequenino

Sou um sujeito inteligente. Descobri isto em tenra idade, quando ainda andava só de Zorba pelas ruas de minha cidade natal. Naquela época eu já me fazia perguntas extremamente filosóficas, tais como: "um pão - daqueles que a gente come e que compramos na padaria - pensa e sente?", ou "o quê há no fim do mundo?".

Em resposta a esta última pergunta um adulto me disse que "lá no fim do mundo tem um muro bem alto, para ninguém passar"; obviamente o argumento não me convenceu. Em conseqüência disso entendi duas coisas: que o mundo era infestado de idiotas, e que não precisaria fazer a primeira pergunta - a do pão, só para lembrar -, tendo em conta de que se o tal adulto tinha miolos de pão, o que era incontestável, temos o corolário de que "o pão não pensa e sente". 

Estes fatos me marcaram bastante. Tanto que até hoje, no calor das discussões costumo soltar um enigmático "eu sou mais eu de Zorba" - principalmente quando o interlocutor é alguém que se julga muito inteligente mas não é lá essas coisas.
 
Sim, sempre fui inteligente. E não é só pela modéstia - que ficou rubra de vergonha por eu dizer tantas vezes de sou inteligente -, mas a bem da verdade devo dizer que minha inteligência está apenas um pouco acima da média. Digamos que sou modestamente inteligente.

Mas toda essa volta é apenas um prólogo. O que quero dizer é que ultimamente estou assustado com minha mente poderosa! É como se eu tivesse feito um upgrade de processador e memória!

Ando resolvendo integrais e derivadas complexas de cabeça; escrevo programas de computador de 10.000 linhas de código (em assembler!) e eles rodam na primeira tentativa, sem qualquer erro; milhares de citações de Shakespeare e de filósofos ricocheteiam dentro da minha caixa craniana; lembro do nome de cada personagem de “Guerra e Paz”, de Tolstoi; decorei o livro de "Cantares de Salomão", e agora fico sussurrando obscenidades bíblicas no ouvido da minha mulher; nas horas vagas, no pouco tempo que tenho, estou terminando de unificar as leis da física, coisa que os cientistas estão tentando fazer há mais de 50 anos. Meu cérebro pulsa com vigor e eu, que sou moreno jambo, fico de rosto vermelho, tronco e membros pálidos como os de um sueco.

Fazendo uma análise de causa e efeito, concluo que o “incrível pulsar” é resultado de eu consumir peixe cru constantemente. Pois, é de conhecimento geral, os japoneses são mais inteligentes por comerem mais peixe, embora isso resulte em desvantagens ... [dá uma piscadela, faz o gesto de um círculo usando os dois indicadores] na esfera ... [procura uma expressão polida] da fisiologia abaixo do baixo ventre.

Mas o efeito 'japoronga' não é o que mais preocupa, pois meu calor latino compensa em grande parte, o aterrorizador é que sempre me lembro de uma das primeiras cenas de "Scanners" (1981, de David Cronenberg), quando a cabeça de um camarada explode, arremessando massa encefálica  para todos os lados num raio de dez metros.

Maneirar na comida japonesa, no incrível pulsar do cérebro, ferro, minerais, essas tranqueiras todas.



Escrito por LLC �s 21h30
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