2001: O suco é 'de grátis'
Não há monolito negro, sobre a rua Teodoro Sampaio flutua uma portentosa bolota gigante de churrasco-grego. Transeuntes - todos sem alma - gritam que só a pena de morte resolverá o problema de seres que amputam suas unhas no ambiente de trabalho, e insistem: senhoras que penduram velames de pára-quedas (eufemisticamente chamados de calcinhas) em registros de chuveiro merecem prisão perpétua.
Acima, no céu azul desbotado, surgem dois colossais abacates no lugar do sol. Do outro lado da calçada, uma modelo lindíssima martela a cabeça contra um poste de placa de trânsito enquanto grita repetidamente: "Meu Deus! Deus meu! mas abacates têm muito mais calorias".
E Richard Dawkins - ou Carl Sagan, não lembro - refletiu: “um abacate e uma cruz não são a mesma coisa”; mas mesmo assim creu.
(Sonhei dia desses. Mentira; é quase tudo verdade.)
Escrito por LLC �s 22h08
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“Meu Deus! Meu Deus! Por que tanta infelicidade? Estivesse eu sem um braço ou sem uma perna – tudo estaria melhor; estivesse eu sem as orelhas – seria horrível porém suportável; mas um homem sem nariz – só o diabo sabe o que é: nem ave nem cidadão; um troço que se pode pegar e atirar pela janela! Tivesse ficado sem ele na guerra ou num duelo, ou se eu mesmo tivesse dado motivo; mas não, perdi-o sem quê nem pra quê, em vão, a troco de nada! ... Não, não pode ser – acrescentou ele depois de uma breve meditação. – É incrível que o nariz tenha desaparecido; de jeito nenhum pode ser possível [...]”. Trecho de “O Nariz”, de Nikolai Gogol (na tradução de Paulo Bezerra, editora Civilização Brasileira, 1990).
Gogol era um pândego! O maior pândego entre todos os russos.
Escrito por LLC �s 11h31
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Eu e Nabokov: sutis diferenças
Se não escrevo como Nabokov é por culpa dos ambientes corporativos, não da Tia Rosa.
Explico. Ninguém que troque e-mails diários num ambiente de trabalho consegue deixar de esquartejar a própria escrita. Mas Nabokov sempre esteve a salvo; na infância e adolescência com preceptores e governantas de variadas nacionalidades, na idade adulta como professor de tênis, escritor e professor de literatura.
Já nas empresas, coitadinha, a escrita vai definhando, murchando feito uma velhinha magricela de 80 anos. Todos utilizando demasiadamente as palavras "ou seja" – expressão que é um implícito atestado de burrice para o escritor ou leitor ou ambos (ai, ai, vou ter que revisar posts antigos). A gramática e concordância podem até ser suportáveis, mas o texto vira uma receita de bolo.
Até tento escrever e-mails decentemente, mas é difícil. Se você usar vírgulas (e nem precisa aplicar corretamente, sei lá, pode ser uma a cada oito palavras) e, por exemplo, utilizar corretamente a concordância, dirão que você é elitista ou rebuscado; se procurar não fazer uso de clichês, ou utilizar apenas os mais inofensivos, perguntarão se você é o Machado de Assis contemporâneo; e, principalmente, se você escrever bem não entenderão nada.
Eu tento melhorar lendo bastante e escrevendo neste blog - hi-hi-hi! Mas é uma luta desigual. Escrevo muitos e-mails por dia, enquanto a escrita sobre 'amenidades' é esparsa. Eu todo roxo; o vilão da má escrita nem ofegante.
Vender água de coco não é uma boa opção, então muitos e-mails virão. Mas prometo lutar bravamente, defendendo as letras e afiando minha prosa como o limador amola alicates de cutícula, facas e espetos de frango (!). Serei um pistoleiro; não, melhor, serei um samurai da literatura a defender a honra de Nabokov, Machado de Assis e Evelyn Waugh; e para este último, com meu coração contrito e o branco dos olhos rasos d'água, juro solenemente, com a mão sobre um livro sagrado, que nunca, mesmo que um dia meus cabelos caiam feito folhas no Outono, mas nunca mesmo [voz entrecorta]... nunca usarei peruca.
Escrito por LLC �s 21h25
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Pérolas, nódulos, gotículas da minha sapiência...
(1) Ridículo mesmo é não ter consciência do próprio ódio. Acertar alvos ao acaso é esporte para quem ainda não pensou a respeito do "conhece-te a ti mesmo", já que a boa índole está em identificar e justificar desafetos (sejam pessoas, objetos inanimados ou conceitos). Verbalizar desconfortos é característica básica dos civilizados.
(2) Quem ama a tudo e a todos é canalha.
(3) Quem não ama a tudo mas tudo respeita é pobre de espírito – a fronteira da estética é suplantada para chegar ao terreno dos graves defeitos morais.
(4) Quem não odeia nada ou é vazio ou só gosta do que é rasteiro.
(5) Subjetividade não é defeito; desde que longe das mãos de idiotas.
(6) Sou muito mais sábio; Salomão me invejaria. Veja só: eu mandaria que os lacaios rachassem a criança em *três* partes equânimes; com a terceira parte fariam sabão de soda.
Escrito por LLC �s 18h50
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