É um absurdo, meu senhor! Um absurdo!
Eu desprezava um pouco a literatura do absurdo - mesmo sem conhecer. Este gênero me soava como sendo equivalente ao que a pintura abstrata é para as artes plásticas.
(Não que eu seja entendido de arte, mas, você sabe, preconceitos moderados nos protegem das mais variadas decepções. Sempre que vejo uma pintura abstrata automaticamente penso que poderia ter sido ‘borrocada’ por minha irmãzinha de 9 anos - mas, ah, não fique chateado, acontece que minha irmãzinha é uma 'jenha'.)
É claro, uma besta! Mais uma vez eu estava errado. Revisei meu conceito depois de ler "O Terceiro Tira" - "The Third Policeman" -, de Flann O'Brien*.
O'Brien tem uma prosa simples, bonita e engraçada - forçando um pouco poderia até dizer que sua escrita é terna (como se ele estivesse contando estória para uma criança). Lendo o livro é impossível dar uma de vaticinador; o evento a seguir não tem uma forte dependência com o atual, e isto dá numa expectativa constante, gerando uma cócega de curiosidade em saber qual será a próxima surpresa - sim, acho que é isso, é como ter uma pilha de presentes para abrir. Para resumir, o livro é muito divertido; e atesta que não importam os axiomas, e sim o quê se é capaz de fazer com eles. A estória até atenua um pouco o tom de absurdo no desfecho - que dá uma pincelada de realismo –, e também no fato do protagonista sempre se espantar com as situações insólitas nas quais se encontra (ou seja, faz um paralelo constante com a realidade, inexistindo um universo absurdo totalmente autônomo), mas creio que defende muito bem a tal de literatura do absurdo.
Ah, mas vou conservar meu preconceito contra pintura abstrata. Afinal, há de se conservar alguma coisa.
* Só para constar: não li o livro pelo barulho por causa da relação entre "O Terceiro Tira" e a série Lost - mesmo porque não acompanho a série -; li por causa de posts antigos do Soares Silva e da Miss Veen que faziam referências ao autor.
Escrito por LLC �s 21h39
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