"O amor pode falhar, mas o cava-
lheirismo prevalecerá" - K.V. apud J.F.

o führer mameluco


Plante uma árvore; faça um filho; NÃO escreva um livro (ou "Morango do Nordeste está de volta às paradas")

Em meio à mediocridade geral, em anonimato devido, estão criaturinhas também medíocres, mas que se diferenciam pela consciência das próprias limitações (talvez por isso sejam um pouco menos medíocres).

A estes chamo de medíocres-conscientes, os que têm a mínima noção do que é bom e bonito (ia escrever belo, mas ficaria meio sei lá) e que carregam um pesado fardo. Saber que nunca se chegará a ter uma barba branca como a de Tolstói, quanto mais de escrever como o velhinho; que no máximo é possível ver, boquiaberto, o malabarismo de palavras feito por Nabokov (com uma mão, com as duas, com os pés, subindo escadas em espiral, plantando bananeira!); que só resta rir com Gogol e Evelyn Waugh e sentir muita inveja por não saber fazer rir como eles; que não é possível alcançar a imaginação de um Borges; que basta ouvir quem realmente sabe fazer música e apenas ver quem realmente sabe fazer arte.
 
E só resta aos medíocres-conscientes serem bons engenheiros, analistas de sistemas, profissionais de marketing (fui generoso por não escrever “marqueteiro”), jornalistas, professores e críticos de literatura - no que se poupa a arte de variadas formas de conspurcação. Sim, isso já é muito. Passar adiante aquilo que recebeu atestado de qualidade  de várias gerações, que resistiu ao tempo. Deve-se ficar muito contente de um dia dizer: "Filho, o papai não sabe escrever, e provavelmente os teus professores também não, mas lê este cara aqui que é muito bom".

O fato é que cada geração quer deixar a sua marca:  "Paulo Coelho mijou neste vaso de planta", "Mirisola arrotou nesta mesa de bar". Daí se tem uma busca desesperada pelo mais novo brilhante escritor, o mais genial músico dos últimos tempos, o artista "prástico" mais brilhante da nossa geração.

Não torça o nariz. Não se trata de apologia ao niilismo, algo como "tudo de bom já passou e não vale a pena tentar"; é uma questão de cuidado, de ter o mínimo de zelo, de respeitar "tudo que aí está há tempos". Só os idiotas são loucos por novidade; o mais esperto experimenta em silêncio, até o ponto em que é impossível não se revelar.

O deprimente é que provavelmente temos alguns gênios contemporâneos; mas estes são pisoteados pela turba de medíocres insolentes que corre por todos os lados pedindo seus 15 minutos de fama.



Escrito por LLC �s 05h55
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Besta, mas não muito

Quando se trata de cinema sou uma besta (também sou uma besta em outras coisas, mas vou deixar em reserva para posterior auto-flagelo). Uma besta do tipo que se diverte vendo "Missão Impossível III" e "V de Vingança".

Sim, é um pouco infantil. Aquela coisa de tocar a musiquinha, feito trilha sonora de Indiana Jones, e ficar todo animado. E achar graça quando o mocinho dá uma rasteira no oponente ou enfia o dedo indicador no olho do vilão.

Porque ser chato em questões de literatura já me é suficiente. Daí é um alívio ser uma besta-cinemônica. Já pensou eu só querer assistir filmes iranianos, quenianos e outros quaisquer "anos". Ou ser muito fã de cineastas franceses. Não, obrigado, sou mais feliz assim.

Mas apesar de ser uma besta no assunto e gostar de filmes ruins, ao menos também gosto de coisas boas, como dos filmes do Woody Allen e do Clint Eastwood, e do último do Win Winders ("Estrela Solitária" é o filme mais bonito que eu vi nos últimos tempos. Depois eu escrevo sobre isto; talvez).

E só para provocar eu ia escrever que dormi no último quinto de Cidadão Kane. Mas deixa pra lá, porque o que eu queria dizer mesmo é que não fui tão besta a ponto ter gostado de "O Apanhador de Sonhos" e "Firewall". Morte lenta ao diretor do primeiro, Lawrence Kasdan, e ao diretor do segundo, o qual não vou me dar ao trabalho de descobrir quem é.

Besta, mas não total.

(Ah, depois escrevo o porquê de eu ser uma besta quando o assunto é música.)



Escrito por LLC �s 19h29
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As nádegas e a Lua

Estaciono o carro; desço; dou a volta. Do outro lado da rua um ciclista acena e grita: "E aí, Marajá!".

"Olá", digo; "Marajá, é a puta que pariu", penso (queria gritar também, mas sou minimamente polido).

Marajá! Vê-se que as pessoas burras acreditam (em auto-indulgência, é claro) que as coisas caem do céu, por mais que nada, além da chuva, tenha caído em cima de suas cabecinhas ocas e embaladas a vácuo.

É algo que me irrita intimamente (o que não se refere a inflamações epidérmicas das partes pudentas), as pessoas acharem que sou um cara de sorte, que me dou bem porque nasci com as nádegas apontadas para algum astro. E quando alguém diz isso penso nas noites não dormidas e mal dormidas, nos fins de semana "recreativos" no ambiente de trabalho, no dias de sair de casa as sete da manhã e voltar à meia noite - para daí tomar banho, comer, dormir, levantar e começar tudo de novo, num clico ininterrupto - e nos diversos períodos em que trabalhei praticamente de graça, sempre fazendo mais do que era minha responsabilidade.

Até entendo a lógica de atribuir tudo à sorte, de achar que espaço e tempo conspiram - trocando sussurros inexprimíveis - para o bem de uns sortudos (o Woody Allen fez isso em “Ponto Final”, mas ele eu perdôo). Que causa e efeito são cirurgicamente manipulados - um rewind aqui, um foward acolá - com a criação de fissuras temporais minimamente sincronizadas para a chegada de bons fluidos que abençoem os nádego-lunares. Confesso, é mais cômodo do que admitir que enquanto um sujeito assistia diariamente a novela das oito, outro ouvia um interminável blá-blá-blá numa sala de aula qualquer (no melhor sentido da locução incomparável da professora do Charlie Brown), de onde, depois da aplicação de vários filtros conscientes e inconscientes, sobrava algo de proveito - uma pedra semipreciosa amadoramente lapidada - ; que enquanto um bebia com os amigos num boteco qualquer, um outro devorava livros, manuais, revistas e até bulas de remédio.

Só sei que havendo oportunidade, a preparação é imprescindível. O meu êxito - que não é grande coisa - eu devo aos dias em que não fiquei com a bunda enraizada no sofá.

E antes que eu me esqueça: marajá é a mãe.

(Mas, hei. Alto lá. Estou apenas fazendo uma associação entre ação e reação. Não me entenda mal, não estou orgulhoso de ter trabalhado muito. Mas trabalhar é um mal necessário nessa nossa sociedade neo-liberal-porco-capitalista. Se fôssemos comunistas ninguém teria de pegar no pesado, e o desconforto seria a conseqüente inanição solidariamente partilhada por todos - menos os do partido, é claro.)


Escrito por LLC �s 21h18
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Hulk não é Jesus

A frase "se ele vem saltando pelos montes" remete a um certo monstrinho verde: Hulk, o monstrinho pula-pula, um dos filmes recentes mais ridículos que eu já *não* vi.

Na minha mente sempre há uma associação involuntária entre algo e um trecho bíblico (ainda que, na maior parte do tempo, eu seja um teísta mais ou menos no sentido de Espinosa). Uma espécie de mix de exegese e reconhecimento de padrões.

Por exemplo, quando leio a expressão "Intelligent Design" penso logo na Revelação como uma estreitíssima fresta, por onde são recebidas algumas migalhas da Verdade, através das quais se tenta sofreguidamente e malfadadamente juntar os pedacinhos. Logo, vejo o “Intelligent Design” como um pé-de-cabra conceitual.

Por outro lado, a Teoria da Evolução é ridícula como explicação para tudo (já tentaram isso com "Celular Automata", em que a função de qualquer coisa seria despender energia). É a Teoria de Tudo. Fizeram da Teoria da Evolução a Psicanálise moderna, é só trocar o pinto por "competição e adaptação" (e não é reclamação pelo positivismo - não há solução, o cientista precisa ser positivista mesmo sabendo que lá adiante há algo grande e nebuloso, algo impossível de tatear).

Por esse e outros motivos - tão interessantes quanto - os ateístas-evolucionistas são tão xiitas quanto crentes (e o peixinho com patinhas é a provocaçãozinha mais juvenil que eu já vi). A favor dos crentes há o fato de que todos, por mais que apenas intimamente, têm mais esperança que certeza; já os evolucionistas estão sob o manto indelével (uia! rapaz) da Ciência. 

No que o crente devia parar de afetar tanta certeza; e o ateísta-evolucionista demonstrar que também tem esperança. 

 



Escrito por LLC �s 21h54
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