"O amor pode falhar, mas o cava-
lheirismo prevalecerá" - K.V. apud J.F.

o führer mameluco


No que a imperfeição é causada por pura falta de tempo para uma edição decente.

O mundo dos blogues é de puro amor platônico. Todo blogueiro é perfeitinho; cabelos penteados, sapatos engraxados (falo de blogues bons, é claro). Há tempo para escrever e revisar, de selecionar assuntos, de editar o que se escreveu.

Blogueiros sempre estão citando alguém da Literatura, Filosofia ou Ciência: "Nas noites de insônia eu leio Joyce, depois de cinco minutos estou dormindo feito pedra", "Sou aristotélico, sou incapaz de idéias abstratas como as de Platão e Sócrates", "Acho que Dawkins é um cabeçudo, pois acha que a Teoria da Evolução vai matar a Metafísica". Daí você lê o blogue do cara e o imagina fazendo estas citações no ambiente de trabalho, no boteco da esquina, na padaria do seo Manoel.

Sim, é difícil imaginar que seu amigo blogueiro gosta das músicas antigas dos Engenheiros do Hawai, que assiste filmes brasileiros (mesmo que usando disfarce), que coloca caquinha de nariz embaixo da mesa do computador ou atrás das cortinas, que cutuca o ouvido com tampa da caneta Bic ou chave do carro, que leu e gostou de um livro do Paulo Coelho, que mija na pia de banheiros públicos, que foi ao show do U2, que tem amigos mongolóides que deixam scraps no Orkut com dizeres como "e aí, u-hu, sds, bjus" (hei, não faça essa cara, eu gosto dos meus amigos mongolóides, de cada um deles; sou um bom humano, apesar de ter um peso de papel no lugar do coração).

No dia-a-dia seu blogueiro-amigo-ideal pode até fazer coisas pelas quais você daria um sorrisinho de satisfação (dizendo consigo "não falei que ele era um cara especial?"), como utilizar nomes de escritores favoritos em senhas de acesso (dosto123, bshaw357, shake777, jlb***, nabokov01) ou se matar de rir lendo um bom livro no Metrô - enquanto as pessoas em volta estão com livros da Zíbia Gasparetto em mãos (ah, aquelas capas horríveis; enforquem o designer, faz favor).

De qualquer forma sou precavido. Mesmo tentado a ir nalgum encontro blogueiro (lançamento de um livro ou algo parecido) sempre fiquei firme e forte na minha misantropia. Porque para amar as pessoas e o mundo é necessário um certo grau de distanciamento (Jesus, estou falando muito sobre amar, tenho que terminar este post logo), já que tudo que chamamos de civilização é um eterno ensaio, uma pré-edição. (Ser civilizado é ser previsível. Então ouça: se você chegar em minha casa com um abacaxi sobre o chapéu vou te colocar para fora a pontapés, ou no mínimo vou rir de você).

Mas as pessoas são humanas, o mundo é demasiado humano. Tudo humano e imperfeito e blábláblá e blábláblá. É por isso que olhamos para os outros como se estivéssemos olhando lá adiante, onde os quebramos em pedacinhos e os montamos de outro modo (dentro da nossa caixa craniana as pessoas são muito melhores, não o inverso, acredite).

Ah, vá lá, diga você, qual o seu costume feio? Responda e dê uma chance para minha decepção.

 



Escrito por LLC �s 21h57
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Amostragem não tão aleatória

(1)

“Enquanto ela pintava delicadamente um ocelo ou um labro, a concentração extasiada fazia com que a ponta de sua língua se enroscasse no canto da boca e, sob o olhar do sol, a fantástica criança de cabelos preto-azuis-castanhos parecia, por sua vez, imitar a flor do espelho-de-vênus. O vestido largo e de tecido fino tinha uma cava tão profunda nas costas que, quando ela se curvava para a frente, movendo as escápulas salientes e deixando a cabeça pender para o lado (enquanto, com o pincel suspenso a meio caminho, examinava sua úmida produção, ou com a parte externa do pulso esquerdo afastava os fios de cabelo da testa), Van, que se aproximara do tamborete tanto quanto sua ousadia lhe havia permitido, era capaz de ver o dorso esbelto de Ada até o cóccix e aspirar o calor que subia do corpo dela. O coração martelando, uma das mãos tristemente enfiada bem fundo no bolso da calça – onde ele mantinha uma carteirinha com meia dúzia de moedas de dez dólares de ouro para ocultar seu estado -, Van, se inclinava para ela, que se inclinava sobre seu trabalho. Muito de leve ele deixava seus lábios ressequidos roçarem os cabelos mornos e a nuca em brasa. Era a sensação mais doce, mais forte e mais misteriosa que o rapaz jamais tivera.”



Escrito por LLC �s 21h46
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(2)

“Quando nos lembramos de quem fomos, sempre vemos aquela pequena figura e sua longa sombra, tal qual um visitante atrasado e inseguro parado na soleira iluminada, ao fundo de um corredor que vai se estreitando por força de uma impecável perspectiva.”



Escrito por LLC �s 21h45
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(3)

“Um dia desses, ela pensou, vou precisar dar uma arrumada no passado. Retocá-lo, retomá-lo. No filme, certas coisas terão de ser apagadas, outras inseridas; corrigir certos arranhões reveladores da emulsão da película; aplicar a técnica do fade-out para eliminar discretamente algumas seqüências embaraçosas e indesejáveis, para obter garantias definitivas; sim, um dia desses... antes que a morte bata sua claquete e dê a cena por terminada.”

Trechos de “Ada ou Ardor”, de Nabokov (na tradução de Jorio Dauster, Companhia das Letras, 2005).



Escrito por LLC �s 21h45
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Sobre ser um sujeito "muderno" (ou em defesa da parcimônia)

Quase tudo que temos de progresso na Arte e Ciência foi alcançado por sujeitos essencialmente conservadores; em contrapartida, a maior parte da "merdaria" foi gerada por mentes modernóides*.

Eis o brado: tudo que é moderno e bom - sim, meu dileto amigo, nem tudo que é moderno é bom, e me sinto um pouco idiota por ter de dizer isto - foi produzido por quem respeita a tradição** e a usa como escada para chegar ao que é maior. 

Pois o sujeito conservador pode ser ponderado, fazendo respeitosas e parcimoniosas experiências no fundo do seu quintal, para depois, se houver algum sucesso, levar a novidade a público; mas aquele essencialmente modernóide é um perdido que vaga em um labirinto de possibilidades (e o labirinto é mais aterrador que o próprio Minotauro), que reinventa a roda duzentas vezes fazendo-as quadradas e triangulares, e a cada nova versão grita da sua janela algo como "olha meu senhor, a roda quadrada não é suave como a redonda, mas é moderna, tem estilo, sabe? Afinal, uma roda não deve ser só redonda, não é, temos que sempre evoluir as coisas, não é mesmo minha gente? Por falar nisso, já estou pensando numa roda hexágona, que dá uns solavanquinhos a mais mas é um luxo...”.

O problema é que o sujeito modernóide tenta "de com força" e o tempo todo. É o experimentalismo como meio e fim, a tentativa de acerto através das explosões da combinatória (a marca maior da nossa modernidade é o uso perversamente masturbatório da Matemática). Daí a necessidade de negação, pois é necessário convencer de que há "um outro mundo possível". E já que desconstruir (não li nada de Derrida, mas imagino sim que ele seja um idiota) é algo inerentemente fácil, novos mestres pululam aqui e acolá. Depois de alguns gritos e frases de efeito temos uma massa persuadia. E é preciso dizer que tal massa (esqueça a pizza,  seu glutão) não precisa ser exatamente ignara, mas apenas  essencialmente*** tarada por dúvidas.

Justamente, a dúvida é a musa da modernidade. No que sou levado a confessar que também sou um sujeitinho atormentado por dúvidas, mas ao menos tenho melhorado muito me automedicando com doses cavalares de anti-modernidade. 

Pronto. Pode me chamar de cavaleiro medieval.

* No inicio da primeira versão do texto tinha um disclaimer dizendo que isso não era uma teoria, mas apenas minha opinião. Mas o disclaimer é um patente sinal de modernidade, o que destoaria do texto.
** Se alguém falar em teocracia e aristocracia leva um pisão no dedão do pé.
*** Sim, percebi que usei a palavra "essencialmente" repetidamente, mas a preguiça e o sono não me permitem reescrever os trechos...

 



Escrito por LLC �s 07h33
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