"O amor pode falhar, mas o cava-
lheirismo prevalecerá" - K.V. apud J.F.

o führer mameluco


Quatro categorias de leitores (ou sobre o porquê de Nabokov ser um escritor muito fofo)

Sou um Fusca quando estou lendo Nabokov. É mais ou menos assim: claro, a partida não funciona; damos um "empurrãozinho"; pega no tranco e segue adiante mais ou menos constante, são produzidos ruídos dos mais variados (as onomatopéias ficam por sua conta).

O vocabulário vasto, os períodos extensos (freqüentemente complexos), as palavras que fazem piruetas no ar - ora são fumaça, impossível de tatear, ora são blocos de cimento que caem no seu pé -, a cadência, as figuras de linguagem (ah, a metonímia!), a ironia mordaz, as muitas referências implícitas e explícitas. Resumo: para Nabokov escrever era tão fácil quanto dançar o Tchan (não ele, é claro).

Sabe, há um mérito intrínseco em gostar de Nabokov. Sim, estou me gabando por gostar dele, por ser de primeira categoria (o que é uma coisa boboca, pois é o mesmo que se considerar esperto por gostar de mulheres bonitas). Não carece habilidade para reconstruir mentalmente suas descrições de cenários - nisto Nabokov é mestre, a habilidade dele prescinde da nossa-, mas há um esforço considerável para entender seu raciocínio complexo, principalmente quando ele está bailando dentro da cabeça dos seus personagens, com seus diferentes estados de consciência, sob camadas de um sonho, etc. A narrativa irregular, entrecortada, polifônica, exige a atenção do leitor para saber se é o narrador, o protagonista ou o leiteiro quem está falando. Não que seja um defeito de Nabokov, a narrativa não convencional simplesmente prova o quanto ele era hábil em colocar todos falando ao mesmo tempo.

Mas há quem não goste do homem. São os de segunda categoria (uma dentre duas tenebrosas): os que reclamam da sua prosa aristocrática (que remete sempre a príncipes e nobres ancestrais), os que dizem que Nabokov é enfadonho, engomadinho, exibicionista. Então tá, bonito mesmo é escrever sobre pobreza, favela, pagode, funk carioca e outras coisinhas mais sobre a comunidade, não é minha gente? “Bonito mesmo é o artista do povo, u-hu!". Ora, isso faz parte de uma irreversível inversão de valores. A cultura trash (não confunda com o que há de bom na cultura pop) não se conformou em ter um grande público, precisa afetar desprezo pelo que é muito maior que ela. Para esses pobres de espírito, que ostentam a bandeira da “cultura do povão”, a Relatividade (pobre Einstein) Cultural é uma mãe que é chamada aos berros toda vez que são afrontados por algo superior.

Na terceira categoria estão os que admiram Nabokov por "toda a sua [neste momento eu fiquei pensando muito no adjetivo que iria usar, simplesmente a palavra me escapava, daí fui no Google e digitei “Nabokov escandalizou” e pronto] audácia”. Os que vêem Nabokov como um rebelde senil que escreveu Lolita: "o despudorado senhor que tocou na ferida das vovós corocas", "que escreveu sobre pedofilia de uma maneira muito sensual, quase pornográfica!", "que bateu de frente contra a moral e os bons costumes" (os que se escandalizam também são trouxas, mas sobre essa categoria calamos). Ha-ha-ha. Nabokov ria de todos vocês, seus avançadinhos de meia tigela; vocês são os personagens, ele o sádico escritor; ele puxa as cordinhas e vocês sambam malemolentemente.

(Além do que, Lolita é excelente, mas Pnin é maior que Lolita, Fogo Pálido é maior que Lolita, Ada ou Ardor é maior que Lolita (sub-parêntese – isso existe? - para escrever sobre Ada ou Ardor: comprei o livro ano passado - creio que em Outubro, mais ou menos -, li as primeiras páginas e dei um tempo; só comecei a ler para valer faz pouco tempo. Duas principais razões para não ter lido o livro logo que comprei: primeiro porque fico um pouco caflito ao ler um tijolão como Ada ou Ardor, de quase quinhentas páginas, enquanto poderia ler uns três ou quatro livros - porque quantidade e diversidade importam, sim senhor -, segundo porque o Fusca estava dando trabalho para pegar no tranco. Como sou incapaz de escrever algo próximo de uma resenha – sou analítico demais, teria que ser uma tese -, em próximos posts coloco alguns trechos, talvez com um comentário ou outro).)

A “categoria indefinida” é dos que nunca leram Nabokov. Por enquanto, vocês estão perdoados, vão lá ler e depois me agradeçam ajoelhados, beijando minhas mãos (mas sem babar, por favor).

 



Escrito por LLC �s 22h39
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Pela instituição da censura em blogs

Sabe? eu pensei em escrever um post mais ou menos assim:

"Pessoas eram oprimidas e vilipendiadas por tirarem caquinha de nariz em público. Claro, a sociedade antiquada não estava preparada para um comportamento tão, digamos, contra os bons constumes. Então os futucadores - é assim que vou chamá-los daqui para frente - brigaram muito até conseguirem o direito de não levarem cascudos e borrachadas nas solas dos pés. Organizaram Paradas do Orgulho Futucador, onde futucavam o nariz até sangrar, e mostravam o sangue nas mãos dizendo: 'é o meu sangue que dou por vocês, é o meu sangue que dou por vocês'; alguns, mais 'criativos', faziam belos quadros e esculturas de caquinha - eram os novos Duchamp, com a vantagem de trabalharem com materiais orgânicos, biodegradáveis, etc.

Uma novela da Glória Perez exibia cenas de atores futucando em grande estilo. E todos achavam lindo e chique o lance de quebrar as regras do Livro Sagrado da Etiqueta. Ah, faziam filmes também, onde se mostrava como era difícil a aceitação - apesar de todo mundo achar lindo e aceitar - dos pobres futucadores; havia até um filme em que um par de amigos futucadores gostavam de futucar juntos e coisa e tal.

Estudiosos historiadores, para a felicidade dos futucadores, diziam que Nietzsche não só futucava como escondia no bigodão para degustar depois (não tendo bigode, um garoto que estudava comigo na quarta série guardava no bolso da camisa mesmo).

Mas não bastava aceitar e tolerar; era necessário glorificar. E como 'glória' tem tudo a ver com o Divino, e este não leva desaforo...

Chegava um anjo na casa do seo Filó - conhecido por ter uma família que não futucava em público - e dizia que era para a família dele se mandar dali porque a coisa ia ficar preta, ops, quero dizer, a coisa ia ficar negra, o local seria devastado e todo aquele que futucasse se daria mal. Mas o seo Filó era gente boa e tentava defender outras pessoas perguntando ao anjo se eles suspenderiam a devastação caso encontrassem na cidade vinte pessoas não futucadoras. Ficaram barganhando um tempo; mas o anjo dizia: 'Seo Filó, desculpe aí, mas isso aqui não é leilão não'.

É claro, vocês sabem, a família tinha que fugir sem olhar para trás - como naqueles trabalhos de macumba, ouvi falar -, mas o papagaio do seo Filó, que era muito curioso, olhou para trás e virou uma estátua concretina de caquinha.

No céu, de um azul bem clarinho com algumas nuvens esparsas, descia uma saraivada de fogo enquanto o homem-de-barba-e-cabelos-brancos-esvoaçantes gritava: 'Hi, nojentos'."

Confesso, cheguei a pensar em fazer o tal post. Imaginem, depois de 5 meses sem postar, fazer uma coisa dessas. E ainda me lançariam ataques ad hominem dizendo que sou futucófobo e coisas do gênero.

Ainda bem que desisti.

Em breve postarei sobre coisas importantes como a "tomada da Amazônia pelos imperialistas americanos", "a riqueza mítica do folclore brasileiro: do saci ao boi-bumbá", "as nuances rítmicas da música afro-axé-calipsoniana", "o abuso de colocar calcinhas nas cabeças de prisioneiros iraquianos" e outros tópicos de grande interesse. Aguarde.



Escrito por LLC �s 19h31
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