Velhinhas não acreditam em bichanos
A velhinha - materialista e iconoclasta desde menininha - inicia sua costumeira caminhada noturna (no inicio da noite, que se diga, pois ela temia a violência de um abuso sexual). Caminha tranqüilamente pelas ruas estreitas de sua cidadezinha, até que avista, alguns metros adiante, um cavaleiro com um grande capa preta, vestido à moda da idade média - com armadura e tudo! A velhinha segura o passo por um instante, olha fixamente para o cavaleiro, no que a estranha figura diz em voz gutural: "Metafísicaaaaaa"; numa reação instintiva a velhinha tapa um dos ouvidos, a outra mão segura uma bengala onde é possível ver uma pequena placa com a inscrição: "Uno metafísicus és ceguetas quo procuras uno gatus pretus nom quartus escurus quo no ecsta lá” (uma espécie de latinhol).
"Metafííííísica" repetia o cavaleiro em tom ameaçador. "Oh, que mundo é esse em que cavaleiros dizem ‘Metafísica’ a velhas senhoras" choramingava a velhinha.
(Ela ouvira falar dos “Terríveis Cavaleiros Que Dizem Metafísica", mas não dava importância, e dizia que tais cavaleiros eram como "o gato preto que não estava lá no quarto escuro", eram como a própria metafísica.)
A dentadura nova debatia-se compulsivamente (uma síntese do estado de terror em que a velhinha se encontrava). O cavaleiro, resoluto como um pica-pau no tronco, diz "Metafísica" em modulações variáveis, a fim de acentuar e revigorar o dito.
Todas as luzem se apagam; e o cavaleiro repetindo seu mantra. A velhinha, girando a bengala como a hélice de um monomotor, arrisca alguns passos para trás, momento em que pisa em algo fofinho; um miado esganiçado e horripilante preenche o espaço feito som ambiente de elevador. Um passo à frente e um outro algo fofinho, miados, passos ao lado, idem. E por onde a velhinha pisa há algo fofinho que mia, como um grande e vivo tapete felpudo. E a cada miado o cavaleiro responde com "Metafísica". A velhinha perde os sentidos, é gentilmente abraçada por Morpheus e levada suavemente ao metafísico mundo dos sonhos.
Dias depois, a velhinha descrevia minuciosamente o ocorrido na reunião semanal do seu grupo de terceira idade - onde, no asilo onde moravam, discutiam sobre filosofia e o papel social dos da terceira idade. As outras velhinhas, segurando exemplares de "Assim falou Zaratrusta", gargalhavam debochadamente, escondendo as bocas com as mãos, com fartos abdomens subindo e descendo convulsivamente, e diziam repetidamente: “Gatos não existem, minha querida”.
Desde então a velhinha - outrora convicta materialista, agora agnóstica – recebeu o apelido de Madame Gatô Que Estava Lá, e andando serenamente pelos corredores do asilo ouvia miados, no que seguiam risinhos escarnecedores das velhinhas materialistas.
Escrito por LLC �s 18h26
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Salvar a Amazônia ou tomar um sorvete de baunilha?
Quando tenho uma infinidade de coisas "importantes" para fazer me dá uma vontade irresistível de fazer qualquer coisa "desimportante".
No trabalho, quando tudo sofre de combustão espontânea - com várias decisões para tomar, onde cada decisão pode afetar os rumos de projetos, aos quais várias pessoas estão envolvidas - tenho um incontrolável impulso de escrever um post sobre o incontrolável impulso de escrever um post (que, por acaso, é este post). Carecendo chamar o encanador para consertar uma torneira que está inundando o apartamento, eu sento sobre a TV - pois a água já estava chacoalhando na altura do meu peito -, estico a mão para pegar meu exemplar de "Admirável Mundo Novo" (que estava boiando por alí), e releio diferentes trechos; ou retiro "O Rei Lear" detrás da televisão (escondido lá há semanas) e começo a recitar meus trechos favoritos com toda a expressão "autística" que recebi através dos zeros e uns (ou ABCD, ou XY, tanto faz) do meu código genético.
Oh, inferno. Quão detestável é tomar decisões; principalmente se for o caso de termos mais de duas opções. Eu - se pudesse - proibiria a existência de mais de duas opções para qualquer tomada de decisão. Nada de diversidade, nada de pluralidade (pluralidade é uma palavra feia, não é?). Nas lojas só duas cores de gravata, na sorveteria apenas baunilha e chocolate, no supermercado apenas dois tipos de iogurte, e por aí vai (só haveria exceção para livros e filmes, desde que fossem bons).
O pesadelo de mil decisões (todas com os esqueletinhos balançando na sua frente, rindo de você) transforma o sentido de urgência, e de prioridade, em uma fumaça que expressa frases inelegíveis em código Morse - ah, não seja chato, não diga que a fumaça não é capaz disso, eu até posso escutar o barulhinho.
Não, Não. Voltemos à primeira base. A irresistível vontade de fazer algo "desimportante" nada mais é que a verdade martelando na caixinha de pensar (dá até para ouvir o eco: toc, toc, toc), é o princípio da sabedoria acenando desesperadamente com as mãos, feito uma adolescente em show do Menudo.
Vou recomeçar.
Quando tenho uma infinidade de coisas desimportantes para fazer me dá uma vontade irresistível de fazer qualquer coisa importante.
Eu escreveria algo mais, mas preciso urgentemente tomar um sorvete de baunilha.
Escrito por LLC �s 21h56
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