Conselhos para um infalível encontro com Deus
“Dentre os pouco numerosos métodos de descartar-se do corpo, o melhor consiste em cair, cair, cair[...] Não é recomendável saltar de altas pontes mesmo que não se saiba nadar, pois o vento e a água costumam estar presentes em estranhas contingências, e não se pode permitir que a tragédia culmine com um recorde de mergulho ou com a promoção de um policial[...] Outro ponto predileto de decolagem é um pico montanhoso com uma queda abrupta de uns quinhentos metros, mas há que procurá-lo com cuidado, pois você se surpreenderá ao verificar como é fácil calcular mal o ângulo de desvio e, de repente, deparar com uma saliência oculta ou uma aresta imbecil que vem a seu encontro para apará-lo e fazê-lo aterrizar nos arbustos, frustrado, fraturado e desnecessariamente vivo. A queda ideal é a que se faz de um avião, os músculos relaxados, o piloto perplexo, a bolsa do pára-quedas posta de lado, desprezada, desdenhada – adeus shootka (pára-quedazinho)! Lá vai você, mas todo o tempo se sente suspenso como se boiasse, dando saltos mortais em câmera lenta como uma sonolenta pomba às cambalhotas, espojando-se de barriga para cima do edredom de ar ou virando-se preguiçosamente para abraçar o travesseiro, gozando cada instante derradeiro da vida macia, profunda e acolchoada pela morte, com a verde gangorra da terra ora acima ora abaixo, e a crucificação voluptuosa à medida que você se espraia na velocidade crescente, no zumbido que aumenta de volume – até que seu corpo se oblitere no colo do Senhor”.
Dr. Charles Kinbote – personagem de “Fogo Pálido”, de Vladimir Nabokov.
Escrito por LLC �s 00h52
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Unificaria as leis da física; mas o sono é valente - e bate na gente!
Perscrutaria profundos segredos, mas minha retroescavadeira é de brinquedo. Daí penso em Sócrates - não o jogador, aquele desgraçado perdedor de penalts - lembro do "só sei que nada sei" e me sinto justificado. ("Olha, eu sou 'ignorantinho', eu sei que nada sei" - diz, cabisbaixo, de olhar humilde.)
Ao final que, na média, todos estão mais ou menos certos, ou errados, ou os dois. E que ninguém venha grudar-me um rótulo de relativista, pois é de conhecimento geral que a verdade está lá fora, com antenas, cútis abacate e olhos de personagem de mangá.
O rodopio entre o positivismo e a metafísica gera uma força centrífuga que cria um buraco preto (desculpem-me, quis dizer "negro", juro), lançando-nos à questão inicial: "Quem está na primeira base?"; e lampeja em minha memória o desfecho de repetidas cenas de filmes diferentes, onde, antes da revelação do que seria o segredo do universo, sou levado ao metafísico mundo dos sonhos.
(Ah! Feliz Ano Novo.)
Escrito por LLC �s 01h19
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