sobre outro morcego, o enciclopédico
A descrição que Andreis faz de Borges pode ser aplicada quase na totalidade. Mas não toda-toda, creio. Lá o tempo todo com as obsessões dele: tigres e espelhos e labirintos e brigas de faca; e o citado lance dele operar em níveis até então não pensados. E adiciono a tudo isto o fato dele usar toda a filosofia, enciclopedinia e pouca variação em temas como tripé da sua estética. Por isto entendo que Borges é sim, muito do consciente, e não soa fake-sem-querer justamente porque toda aquela cultura não é academicista, não alavancada pela escrita de monografias lato-stricto-sensu. Tudo muito natural desde pequeno; diferente de nós aqui, todos sempre ouvindo o estampido da largada horas depois do fim da corrida.
Mas é verdade que Borges, assim como John Cheever (este mais em romance e menos nos contos), não é uma coisa de escritor de profissão. Então, vamos dizer, ó, é como se estes dois fossem profissionais quaisquer. Um Borges bibliotecário (antes de tudo ele é o leitor) e Cheever fiscal de rendas, e ainda assim ambos fazendo a coisa toda direitinha em literatura. E este é um talento maior do que daquele que nasceu sem poder ser outra coisa que não escritor (e ouço falar que os escritores contemporâneos são todos assim, né?); então que invoco o título de gênio para tais competentes bibliotecários e fiscais de renda.
Daí o efeito de imitação da literatura. É assim mesmo...
(em paralelo, óbvio e tal, preste atenção, não vá ver Planet Terror, do Robert Rodriguez, e sair crente que aquilo é um filme b; e nesta linha vejo como From Dusk Till Dawn seria melhor se em sua segunda parte se seguisse o tom geral de Planet Terror)
... a gente vê as arestas, mas elas estão todas lá nos encaixes perfeitos,...
(e antes que eu me esqueça, enfio um parêntese aqui também para dizer que tudo isto se aplica a Muriel Spark, uma tiazinha que faz tricô para fora, e ainda lá com seus esboços de personagens que, claro, não são bonequinhos mal construídos ou inacabados, mas pinceladas legítimas e suficientes em si mesmas)
...não como tentativas falhas, mas apenas o reflexo daquilo que tem de ser assim mesmo, como a sombra das coisas todas.
Penso em Borges voluntariamente exilado na biblioteca de seu pai, num subúrbio de Buenos Aires. Ouve milongas enquanto com uma mão para o alto e a outra colada à pança arrasta os pés pela casa. Traduz O Príncipe Feliz, de Wilde, aos 9 anos. Escreve Ficções aos 44 (!); aos 49, O Aleph; e aos 75, já cego, dita o Livro de Areia.
Não é normal. É extraordinário. Único.
Gênio.
Escrito por Luciano �s 01h52
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dom [repost]
Eu tenho o dom de visões. Não ria, é um fardo. Há alguns é dado o dom da sabedoria, a outros o da profecia, a outros o de falar em línguas estranhas e a outros o de interpretá-las (I Coríntios 12:8-10). Eu tenho o dom da visão. Inclusive o dom de ver coisas que não quero, como, por exemplo, uma "moça" de cabelo-laranja-curto-rente-ao-couro-cabeludo, usando um casaco de pele branco e uma calça colante preta de couro - do sapato não lembro bem, só sei que também era muito feio. Foi no metrô, e na ocasião quase deixei cair o livro que estava lendo, "O Arquivo Dalkey", de Flann O'Brien. Por instantes pensei que a visão era efeito de minha leitura, pois o livro é de literatura do absurdo, em que uns camaradas fazem um colóquio submarino com Santo Agostinho, e também há um episódio em que um padre oferece um emprego a James Joyce, cuja tarefa seria a de cerzir cuecas de padres jesuítas - este é o "momento gargalhada" do livro. O livro é divertido, mas não chega perto de "O Terceiro Tira" - livro do mesmo autor.
Mas eu estava falando do metrô. Sabe? Existem variadas formas de perder a dignidade, e dentre estas andar de metrô é uma das mais eficazes. Estranhos se esfregando em você, falando alto, impedindo que você leia em paz; estranhos ofendendo a todos com sua feiúra e mau cheiro; estranhos que dizem "Ni" à velhas senhoras. O mundo é cruel e cheio de visões terríveis. Percebi isso muito cedo, quando ainda beliscava impunemente os seios das moças, o que resultava, no máximo, numa leve repreensão da categoria "Que menino safadinho!". Nessa época, numa conversa casual, uma moça bem mais velha que eu - que já não era bonita, e para ser sincero digo que era bem feia - abaixou-se para pegar algo, quando então pude ver, enquanto esfregava meus olhos nervosamente e estupefato pelo terror, um tufo de pêlos entre seus seios muxibentos. Nunca mais belisquei seios alheios, e me arrependi destes pequenos pecados.
E por falar em pecados e visões terríveis, ontem assisti um bom pedaço de "O Devorador de Pecados", um filme que trabalha a tensão entre o profano e o sagrado, a redenção e o pecado. Ri muito e falei para minha mulher: "Jesus! Dê, olha só que filme ruim", e ela, lá do quarto, perguntou "Então por que você está assistindo?", e eu respondi "É mesmo, por que eu estou assistindo?". Mas continuei assistindo, e rindo. E fiquei um pouco triste, é claro, por perceber que minha visão, mais precisamente a moça-careca-de-cabelo-laranja, teria gostado muito do filme; e meu coração foi torcido feito uma camiseta velha, destas que as lavadeiras torcem com seus braços musculosamente adiposos, enquanto cantam músicas do Djavan e do Caetano Veloso. E também fiquei sorumbático por ver que o protagonista, Heath Ledger, faz muitos filmes ruins.
E eu que, às vezes, reclamo da vida! Mas imagine se você fizesse muitos filmes ruins. Imagine a dor: “Jesus! Eu faço muitos filmes ruins! Oh, a dor! A dor!”.
Mas, como dizia o filósofo Aristóteles - ou Genival Lacerda, não lembro -, sempre há uma saída. Se eu fosse Heath Ledger daria um jeito de driblar a baixa estima dizendo a mim mesmo: "Poderia ser pior, eu poderia ser a Regina Casé". E logo me esqueceria de que faço muitos filmes ruins e diria com firmeza: "É, eu não sou a Regina Casé, muito menos a Regina Duarte"; e seria feliz como uma pomba rola planando no ar - fazendo muitos filmes ruins, mas sendo alguém que não é a Regina Casé - ou como um golfinho que salta nas águas do mar azul - fazendo muitos filmes ruins, mas sendo alguém que não é a Regina Duarte.
Hei, vocês todos, que não são a Regina Casé nem a Regina Duarte, vocês têm o MAIOR dom de todos. Levantem o queixo proeminente e a braguilha, encham o peito de ar e gritem retumbantemente: "Eu não sou a Regina Duarte! Eu não sou a Regina Casé! Eu tenho o dom maior! Eu tenho o dom maior!”.

Heath Ledger, que não é a Regina Casé.

Povo brasileiro, que, apesar de tudo, não é a Regina Casé (Tá, tudo bem, o povo brasileiro tem muito de Regina Casé, mas não é a própria).

Regina Duarte, que ao menos pode argumentar que tinha razão para dizer “Eu tenho medo!”, e que não é feia como a Regina Casé.

Regina Casé, que não tem outra opção senão admitir que é a Regina Casé.
Escrito por Luciano �s 02h26
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tdk (2008) – de zorbas por sobre as calças

Em Begins impliquei com Christian Bale porque achei que aquele nariz dele não é um nariz de Batman que se preze. Nem pergunte. Mas agora com The Dark Knight devo admitir que Bale funciona muito bem. Não é um nariz de Batman, ok, mas é um nariz perfeito para Bruce Wayne, porque quando Wayne está sob Batman, Wayne e Bale desaparecem direitinho.
Sério, Bale é bom ator e faz um bom Bruce Wayne com seu nariz afilado, diferente do Michael Keaton e aquele seu cabelo-lourinho-cacheadinho-cheio-de-bobs e sobrancelhas circunflexiais.
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Os roteiristas Jonathan e Christopher Nolan fizeram muito bem em absorver, além do título, apenas o essencial do Dark Knight de Frank Miller. Essencialmente, um Batman freqüentemente transgressor e violento além do necessário. De Miller, que li décadas atrás, me lembro particularmente de “por princípio não mato, mas posso machucar bastante” e “ouço o som da coluna dele se quebrando, mas ele é jovem e com sorte andará de novo”; em paralelo, de Nolan temos “Batman não tem limites, e eu [Wayne] não me dou ao luxo de conhecer os meus”. Em Nolan e Miller o único princípio absoluto: “não matarás”. Nem herói, nem anti-herói, sempre um precário equilíbrio. Mas, importante, nunca um desequilíbrio mulherzinha do tipo [arrancando cabelos não cacheados] “oh, quem sou eu mesmo?”.
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Begins é bom, mas não ótimo por vários fatores. Prólogo interminável. A montagem, na transição entre cenas de ação e não-ação não funciona tão bem, resulta em um ritmo meio solavancado. Além da própria concepção da Gotham, não gótica como a de Tim Burton (que, ok, era estilizada), mas ainda assim sombria além da medida justa para uma concepção, er, realista.
TDK é excelente porque corrigiu quaisquer das imperfeições de Begins, além de trazer um tanto a mais em bônus. Lembro bem das transições, em que a cena de ação sempre termina quase que durante no ápice, às vezes até ligeiramente antes, num corte rápido de efeito suspensivo, aumentando a tensão gradativamente. E nisto a ambientação é essencial. Gotham deixa de ser uma entidade independente e pré-definida, um personagem esquizofrênico a mais, sendo o quê de fato as cidades são, resultado da arquitetura, clima, cores, comportamento humano, e, principalmente, aquele amálgama nebuloso que está apenas na percepção dos próprios habitantes. É uma Gotham mais abstrata, não sustentada por arquitetura gótica, nem dependente de ser necessariamente uma cidade noturna - veja como há um equilíbrio entre cenas noturnas e diurnas –, mas uma cidade que imperceptivelmente emerge de tudo que há nela. Sim, mais assustadora porque indefinível.
***
Como toda estória de herói que se preze, o filme de Nolan é maniqueísta. Gordon (Gary Oldman está mesmo muito bom - 30% do mérito para o bigode e óculos exatos -, e tão naturalmente perfeito que todo mundo diz isto mas ninguém entende exatamente o porquê) é a encarnação do “comum” homem de bem, sustentando seus princípios em um meio absolutamente corrupto. Já o discurso do Coringa sempre tende para um relativismo moral (nunca amoral); desce a pancada no maniqueísmo mas não nos convence. Seu discurso aponta o alto preço em se separar bem e mal, e em como os planos para trilhar o caminho estreito por vezes fracassam etc., e ao mesmo tempo ele próprio é evidência do homem à deriva no caminho largo, a passos rápidos com os confortáveis sapatos da resignação. Porque a justiça, apesar de considerar meandros e blablabla, é sempre maniqueísta em seu resultado final – os fins podem atenuar, mas não justificam os meios. O Coringa quer provar que todo mundo pode vir a ser como ele, e isto ele tenta com Gordon, com Batman, com os cidadãos de Gotham nas balsas, obtendo efeito em Harvey Dent, que seria a encarnação do bem (olha aí mais uma vez onde o messianismo vai parar) - mas um êxito parcial, já que Dent é mutilado simultaneamente no físico e psicológico.
***
Não acho tão exagerados os odes ao Coringa. A questão é a confusão geral entre personagem e ator. Heath Ledger fez muito bem o seu trabalho - até que enfim um filme bom, né, rapaz -, mas o que todos esqueceram é que o ator é responsável primordialmente pela execução (onde há mérito, sem dúvida). Apesar de Ledger acabar fazendo a “arte final” do personagem, quem dedilha os títeres é a dupla Jonathan e Christopher. O Coringa é excepcional, mas o mérito de Ledger é restrito. Você poderia argumentar que neste sentido o mérito do ator sempre seria restrito. Mas não, você não vai argumentar isto, porque entendeu muito bem que eu quis dizer que neste caso o Coringa não existiria sem o roteiro e/ou direção em questão; bem diferente de outros casos em que atores, normalmente coadjuvantes, pegam um personagem qualquer e fazem dele um monstrinho grandioso a revelia da concepção original, escamoteando clichês do roteiro, e às vezes até fazendo troça [uma piscadela discreta vez em quando] da direção.
***
Se falarmos em mérito, além dos personagens coadjuvantes, da cidade, do Coringa de Oscar póstumo, do Gordon, do Bale, de tudo isto e muito mais que tem sido dito, preciso lembrar todo mundo quem é o maior responsável? Hein?
- Mas de quem você está falando, Luciano? Do cara da fotografia? Dos efeitos especiais? Da maquiagem? Dos designers e engenheiros que bolaram os veículos? - Não. Repita comigo, amigo: Chris-to-pher No-lan. Chris-to-pher No-lan. Diretor, co-roteirista e, putz, produtor!
O fato é que Nolan está se tornando cada vez mais irretocável.
Escrito por Luciano �s 22h48
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hard times - three mice rescued from pet store and 65 chickens liberated

Humoristas lascados, já que o povo aí fazendo humor (involuntário) da melhor qualidade.
Escrito por Luciano �s 14h13
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vários posts curtos para compensar longos; e agora este só título
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Escrito por Luciano �s 23h15
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há tempos estou para dizer
Ouçam Vampire Weekend. Oxford Comma / Campus / Cape Cod Kwassa Kwassa / A-Punk / Boston / Mansard Roof / Walcott
Escrito por Luciano �s 23h12
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believe me, danço igualzinho o thom yorke
Veja.
Escrito por Luciano �s 21h57
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e por falar em highbrow: vitor fasano
"Prometi pra mim mesmo que hoje vou separar uns minutos para bater palma pro pôr do sol em Ipanema. Forever Young!"
"Rodízio de sopas no terraço itália (42 reais). Esta semana vou me entregar de coração a esta maravilha da culinária. Aceito sugestões? sim"
"QUE DIA MARAVILHOSO! sinto uma onda de brasilidade contagiar minha alma após esta adorável viagem. Talvez um delivery de acarajé resolva"
E assim por diante. Aqui.
Escrito por Luciano �s 23h06
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um filistinismo mais limpinho; um mundo melhor
A Ironia Contemporânea (IC), como bem batizou DFWalisticamente o Tiago, é recurso recorrente de duas turmas (não que existam só duas turmas, oh, meu cabeçudo leitor, faz favor, não fique pulando e soltando gritinhos agudos enquanto eu generalizo, senta aí e escuta):
1. gente que não sabe nada de nada – e que por isso se esconde (subtipo a) ou que por isso se orgulha (subtipo b); 2. gente que sabe alguma coisa e morre de medo de que alguém saiba que não sabem tudo – como se ninguém soubesse.
O deadlock da segunda turma - o highbrow 24x7 - é efeito colateral do apego desesperado ao perfeitinho. Uma ambiçãozinha de idealizar coisa qualquer, onde grande parte da turma invariavelmente critica, com razão, a baixa cultura, e ao mesmo tempo idealiza ao extremo o cinema, literatura e arte e tal e coisa. Então não bastam os Christopher Nolan ou os David Fincher. “Não, não, Hitchcock sim, Truffaut sim, estes eram cineastas”. Daí o fato que nunca marcarem posição, exceto nos casos de prática unanimidade em torno de nomes que - embora possam ser pouco reconhecidos em certos grupos - no mundo da segunda turma correspondem ao que há de melhor, ou nos casos de nomes pouco conhecidos, cuja menção já remete àquela aura de exclusividade que nasce fácil do obscuro.
Fácil elogiar Tolstói e Shakespeare, e eventualmente acertar uma ou outra unanimidade para exercitar a iconoclastia; mas há resistência em admitir que o escritor contemporâneo x escreveu um livro muito bom, que a banda pop y faz boa música. E quando há algum tímido elogio, este é seguido por uma enumeração de deméritos devidamente carregados de IC. No que IC se torna não mais gratuita, mas um artifício bastante útil para brincar de esconder. E a razão do esconde-esconde, arrisco aqui, está no temor de deixar a mostra as fissuras e incompletudes de um senso estético cambaleante. E talvez pior, a falta de auto-conhecimento e conseqüente inconsciência do próprio senso estético. Daí um abster-se de julgamento até compreensível e justo sobre aquilo que está na zona fantasma entre o ideal e o ridículo; não fosse a desonesta sabonetada.
(E você pode ter certeza, amiguinho highbrow freak, que mesmo de relance dá para ver frestas adentro o seu terror de ser pego - mesmo quando você está escrevendo entusiasticamente sobre os melhores do mundo.)
Em outro aspecto está o fabuloso contato humano, e fico curioso sobre como nosso amigo highbrow freak se comporta em casa. Se despreza os próprios pais ou irmãos quando estes são pouco instruídos ou burros como hidrantes ou as duas coisas. Porque é mesmo divertido sapatear na cabeça de desconhecidos boçais; mas e quando o boçal é aquele do qual você gosta tanto? - Mamãe, esconde aqui debaixo da mesa que meus amigos highbrow acabaram de chegar!
Então a brincadeira fica bastante triste, sobrando pouca coisa para amar.
Como certa vez escreveu o Júlio, precisamos menos de gênios e mais de gente que trabalhe e faça algo de bom, mesmo que este não seja o melhor. Porque os gênios são uns míseros por geração, e os esforçadinhos somos todos nós, meu caro. Mas, vê lá, não faço apologia à mediocridade. A questão é que há confusão das grandes entre o bom, o ótimo, o genial, e aquilo que é medíocre. O genial é quase incidental, são casos do ótimo que se torna único por sua reverberação no futuro, por servir de base para estruturas que só vieram a existir em conseqüência de. Então vamos fazer sempre o bom e o ótimo, e deixemos o juízo lá para a tal da posteridade.
***
Já o comportamento da primeira turma da IC, subtipo b, é conseqüência do mesmo problema de idealização. Então "The Big Lebowski" (1998) já não é apenas uma comédia bacana, mas se torna também o porta voz dos loosers (prole do The Dude). Ao invés de serem loosers em determinadas áreas, o que é comum mesmo entre os gênios, se tornam loosers em tempo integral, todos orgulhosos de andar o dia inteiro de roupão, tomando coquetéis alcoólicos no café da manhã e chorando por tapetes como se fossem entes queridos – tudo isto supostamente com IC. Algo como: “Sou looser porque não me vendo ao sistema, trabalhando oito horas por dia por um salário como qualquer um. Não, não senhor”. Idealizam tanto o sucesso que acham necessário vender a alma para chegar a qualquer lugar. Um mix de niilismo e anticapitalismo de botequim, um Bazarov de boina e pochete.
***
Voltando a segunda turma, mais especificamente pensando no subconjunto blogolândia, tal comportamento também é reflexo do grande filtro mental que se tem ao escrever em blogs.
Na real, no bar, no almoço de trabalho, no jantar de família, é difícil esconder os gostos middle ou mesmo lowbrow (que não necessariamente serão baixa cultura, mas que não fazem parte da alta, sendo basicamente aquela cultura pop pouco ou medianamente sofisticada, solidificada nas últimas décadas porque resistente a algumas gerações, indicando algum sentido de permanência).
Já nos blogs temos o recurso da prévia escolha do tema e da edição.
[IC on] Daí todo mundo com gostos perfeitinhos, citando Dante, William Blake e escritores russos o tempo todo. [IC off] =P
Escrito por Luciano �s 01h03
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wall-e

Lendo este post da Ieda sobre "Wall-E", não pude deixar de fazer este mal traçado contra-post.
O.O reflexão filololosófica sobre a coisa-em-si Uma verdade não deixa de ser Verdade quando dita por porta-vozes idiotas. O acerto é incidental? Na maioria das vezes. Irrita? Sim. Constrange? Também. Mas continua a Verdade lá, te observando com olhos esbugalhados.
O risco de um idiota ter razão – e, graças, ocorre na ordem de centésimos percentuais – é repelirmos a verdade em detrimento ao porta-voz.
Mas espera aí que eu começei do fim e é melhor começar de novo.
O.O aquafobia – de Spectreman a Wall-E E se o mundo todo virar uma rua Teodoro Sampaio? Suja, barulhenta até seus tímpanos sangrarem, ônibus lotados bufando e expelindo toneladas de CO2, gente feia, churrasco grego, bancas de pururuca, camelôs, calçadas destruídas. “O horror, o horror”.
Este é o argumento base de "Wall-E": o mundo todo uma Teodoro Sampaio, exceto pela gente feia e poluição sonora, porque a Terra foi abandonada há muito pelos humanos.
Uma mundial Teodoro Sampaio. Mas poderia ser uma hecatombe nuclear. Peste. Dilúvio. Saraivada de fogo e enxofre. Granizo. Gafanhotos. Alias, o argumento não é novo. Há quase quatro décadas Spectreman já era obrigado a lutar com monstros nascidos da poluição, e recentemente em “O Hospedeiro” (de Bong Joon-ho) o mostro linguarudo também resulta de mutações causadas por poluentes.
Os ecologistas apocalípticos são chatos? Sim, poucos conseguem chegar a tanto. E idiotas com um discurso ambientalista “proteja as árvore, ame os bicho” me dão vontade de sair chutando cabeças de micos-leão-dourados, empunhando um moto-serra a fim de não deixar uma só roseira em pé. Mas, convenhamos, um certo senso de assepsia que vem no pacote do ambientalismo serve muito bem a nossa terrinha, um país de gente suada por natureza.
Um argumento politicamente correto? Nem tanto, poderíamos ter “aquecimento global”, e daí sim teríamos um roteiro do Al Gore.
Mas digrido e degringolo demais.
O.O primeira parte – fred astaire de armadura Na imensa Teodoro Sampaio temos o único robô ativo na Terra, cuja tarefa é cuidar da sujeira. Prensar lixo, gerar cubos e amontoá-los em pilhas gigantes tão altas quanto arranha-céus. Mas Wall-E não se limita por sua diretriz. Recolhe, em meio ao entulho, objetos que remetam a algum senso estético. Coleciona, é melhor dizer, pois separa os itens em prateleiras, insanamente zeloso. Quando em casa, Wall-E assiste musicais o tempo todo, ensaiando passos, usando uma tampa de lixo como chapéu. Tão sentimental, na boa acepção da palavra, que é praticamente filhote de Shakespeare.
A primeira parte do filme (sem dúvida a melhor, e não tomei tanta manga com leite a ponto de discordar), se resume a Wall-E solitário, com todas as brilhantes expressões que os roteiristas e desenhistas conseguiram tirar de um robô. Depois Wall-E acompanhado de uma temperamental visita – o primeiro encontro, o acanhamento, o nervosismo, tudo totalmente livre de pieguice. E, nossa, e aquela trilha sonora!?
Só isto já vale o filme; não importando o que há de vir. Poderiam colocar um filme brasileiro na segunda parte, uma porção de comerciais das casas Bahia, um filme do Oliver Stone com trilha sonora do Calypso. Ainda assim...
O.O segunda parte (em que eu não tinha mais onde enfiar *** SPOILERS ***) - pelos ovários de madame bovary Na segunda parte há apenas uma referência pontual, feita pelo comandante, sobre voltar e dar um jeito de cuidar da Terra, sobre “enfrentar o problema”. Coisa de algumas frases, nada tão proselitista.
Pregando ambientalismo? Não vejo. Ao menos não como os idiotas fazem hoje, estúpida e languidamente. Se há uma lição moral explícita ela é rápida, daqueles acenos tímidos de “ei, olha aí, ok?”.
Apesar de não ser cute como a primeira, a segunda parte é, sim, bem elaborada. Vejam, a planificação geral é absolutamente intencional. Cores mais uniformes, praticamente nada de imprevisível, humanos planos (seja no visual ou sentimental) – a Terra é mais bacana mesmo lascada. Este é justamente o contraponto, pois o único que se comporta como humano é o próprio Wall-E. Pense, os humanos estão há 700 anos em um cruzeiro espacial, onde a tecnocracia , indolência e resignação, - e não o consumismo, repito, e não o consumismo, porque o motor do consumismo é diferenciação contínua, e lá na colônia humana todos são iguais, como em um regime comunista -, é que fizeram dos humanos seres gordos, preguiçosos e temporariamente incapazes de pensar. O fato de estarem em um cruzeiro – piscinas, entretenimento total, etc – foi fator direcionador para uma evolução humana que errou a mão. Mas nos poucos momentos em que os humanos se livram da hipnose tecnológica, há uma volta momentânea ao velho humano. Basta que ocorra um evento imprevisível, uma briga, para o comandante também voltar a si, ser algo inteligente e superar a máquina. O que Wall-E faz é apenas despertar os cabeceantes, chacoalhar aquilo que o humano é desde sempre, mas que está praticamente atrofiado - como dedos das mãos retorcidos como galhos na caatinga.
E aquele videoclip do desfecho, com a arte em estilo de variados grandes cabeções? Caramba, como aquilo é bom.
(Além do que o meio e a forma deveriam ser os mais importantes em arte. Fazendo um paralelo, você pode pensar que em “Madame Bovary” Flaubert foi: a) reacionário, as adúlteras se lascam no final ou b) libertino, diário sexual de uma adúltera. Ou melhor, pode esquecer as duas explicações e simplesmente pensar que Flaubert escreveu um romance perfeito. E lembra aí também como a arte contemporânea tem uma mensagem para lá de pretensiosa, mas sempre acompanhada de uma execução por meios e formas ridículas.)
O.O ainda Ivan Karamazov Há moral em Wall-El? Sim, claro (livrai-nos da amoralidade, Jesus). "Ratatoulli" e "Os Incríveis" – realmente excelentes – também têm lá sua dose de moralidade. Pois não?
Ratatoulli: “todos são capazes; não importa a origem, todos podem chegar lá” – e no filme só compreendem isto alguns poucos personagens, e só no fim do filme (a humanidade é má? pois sim).
Os Incríveis: “família é tudo, a humanidade nem merecia ser salva, mas vamos lá”.
Wall-E: “a humanidade é uma bosta, mas humanos em particular podem ser legais, principalmente robôs aspirantes a humanos.”
Nestas três animações o importante é sempre o indivíduo; apesar da decadência geral, olha como o mundo se sustenta milagrosamente pela ação silenciosa de anônimos (a oração dos justos, tal).
Mensagem abominável em Wall-E? Não creio.
Concedo, quase sempre os porta-vozes são mesmo abomináveis, lançando mentiras ou verdades como perdigotos.
Mas, vamos lá, não desta vez.

Mudando de assunto. Saca só a sofisticação deste maiô por cima das calças. Huh?
Escrito por Luciano �s 02h11
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cérbero é meu poodle

Bouguereau (1850)
Dante só podia estar de brincadeira quando pensou em apenas 9 círculos infernais. Nove?
Citando a esmo, desconsiderando ordem em níveis de suplício:
1. rua Teodoro Sampaio - em São Paulo 2. metrô 3. marceneiros 4. sujeitos cortando unhas no ambiente de trabalho 5. regina casé 6. capas dos livros da zíbia gasparetto 7. axl rose (nem sabia como escrever o nome disto) 8. jon bon jovi (nem sabia como escrever o nome disto) 9. kevin spacey 10. assunto do momento 11. completar depois 12. completar depois 13. completar depois 14. ...
O que Dante não sabia é que existem infinitos círculos infernais, e fronteirinhas todas em escala subatômica. E olha só a sofisticação, há interatividade entre círculos e a possibilidade de zoar os vizinhos.
Dia desses, no metrô, embora eu estivesse em meu círculo infernal do corredor, outros mais infelizes próximos a porta eram espremidos na parada da estação Paraíso (!). Um gordinho estava no limiar, entre porta e corredor, apoiado no poste de metal, e quando a manada entrou empurrando ele ficou mugindo um tempão:
- Ah, meu pai... nooooosa.... aiiiiii... ô loco....noooosa.... ah, meu pai....nossa."
Bah, e depois ficam aí em laboratório tentando a fusão a frio, enquanto no metrô isto acontece todo o tempo.
Doutra vez, mesma coisa. Uma garota praguejava contra o compulsório contato humano, e em resposta um tiozinho ao lado disse que se ela quisesse conforto que fosse de táxi.
E nem pago por tamanha diversão.
É claro que eventualmente o corredor também fica tumultuado. Frente ao inevitável, costumo falar alto:
- Pessoal, é o seguinte... encoxar é conseqüência, mas abstenham-se de ereções, ok? Olha lá! Vê lá, hein!
*
Agora em gráficos (em ASCII, que é mais dramático):
Antes do metrô
:xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx : Nível Dignidade - 75%
Depois do metrô
:xxxxxxx : Nível Dignidade - 17,5%
*
E você, já foi encoxado hoje?
Escrito por Luciano �s 00h04
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vonnegut-cute-cute
Minha avó fala muito palavrão.
Quando criança eu ficava constrangido; hoje acho bastante engraçado.
Espero que ela viva no mínimo o suficiente para constranger meus filhos.
Ei, já disse que minha avó é a cara do Beckett?
Ela é assim, ó:
Já o meu avô tinha um bigode tipo assim, ó:
Um dia qualquer, quando eu tinha uns 11 anos, o meu avô ia pro sítio onde morava, e quando foi desviar de uma poça de lama entrou um pouco pro asfalto da estrada e ploft, esbarrou com um cara grande que era mais ou menos assim:
Meu avô e o Kurt Vonnegut não estão mais por aqui, mas agorinha há pouco vi o Beto Barbosa na TV e este continua bem vivo e rebolante.
“Coisas da vida”.
***
Vonnegut é tão pessimista quando Beckett, mas este não tem nada do humor daquele.
A escrita de Vonnegut é tão terna quanto a de Salinger, e este também não tem o humor daquele.
Tempo atrás o Adrian perguntou: “Vonnegut é meio bobinho, né?”
E eu respondo: Sim, graças a Deus!
***
Dia desses assisti um show do Interpol aqui em São Paulo. O show foi bom e tal, e nunca vi tanto indie num lugar só. Olha só, vi até um cara de saia, que Deus me defenda!
Fui ao show absolutamente sozinho, o que é meio deprê.
Por falar nisto, indies e emos parecem meio tristes, né? Mas pra falar a verdade não acredito na tristeza de ninguém que tenha o cabelo penteadinho demais. Pra mim alguém triste tem que ter o cabelo zoado e bolsas em volta dos olhos, algo como:
***
A seguir separei trechos de entrevistas com o Kurt Vonnegut:
K. V.: I’ve said it before: I write in the voice of a child. That makes me readable in high school. [Laughs.]
I: When Timequake was published ten years ago, you said you were basically retired as a writer. You’ve published two essay collections since then, God Bless You, Dr. Kevorkian and the best-selling A Man Without a Country. I wonder if the visual arts have become a substitute for writing in your life. K. V.: Well, it’s something to do in my old age. [Laughs.] As you may know, I’m suing a cigarette company because their product hasn’t killed me yet.
I: Is it a different creative process for you, sitting down to write or picking up a paintbrush? K. V.: No. I used to teach a writer’s workshop at the University of Iowa back in the ’60s, and I would say at the start of every semester, “The role model for this course is Vincent van Gogh — who sold two paintings to his brother.” [Laughs.]
I: We live in a very visual world today. Do words have any power left? K.V: I was at a symposium some years back with my friends Joseph Heller and William Styron, both dead now, and we were talking about the death of the novel and the death of poetry, and Styron pointed out that the novel has always been an elitist art form. It’s an art form for very few people, because only a few can read very well. I’ve said that to open a novel is to arrive in a music hall and be handed a viola. You have to perform. [Laughs.] To stare at horizontal lines of phonetic symbols and Arabic numbers and to be able to put a show on in your head, it requires the reader to perform. If you can do it, you can go whaling in the South Pacific with Herman Melville, or you can watch Madame Bovary make a mess of her life in Paris. With pictures and movies, all you have to do is sit there and look at them and it happens to you.
I: When someone reads one of your books, what would you like them to take from the experience? K.V.: Well, I’d like the guy — or the girl, of course — to put the book down and think, “This is the greatest man who ever lived.” [Laughs.]
*
Mr. Vonnegut, thanks for coming by. KURT VONNEGUT: My pleasure. DAVID BRANCACCIO: How's life? KURT VONNEGUT: Well, it's practically over, thank God.
...
DAVID BRANCACCIO: Well, I want to ask you about this. You ask in the book a question that actually you don't answer so I want to - KURT VONNEGUT: I'm old. DAVID BRANCACCIO: But I want to-- think about answering this one. You write "what can be said to our young people now that psychopathic personalities — which is to say persons without consciences, without senses of pity or shame — have taken all the money in the treasuries of our government and corporations and made it their own?" What can we say to younger people who have their whole lives ahead of them? KURT VONNEGUT: Well, you are human beings. Resourceful. Form a little society of your own. And, hang out with them. Get a gang. DAVID BRANCACCIO: You're preaching getting into gangs? KURT VONNEGUT: Yes. Well, look, it's-- DAVID BRANCACCIO: A good gang. KURT VONNEGUT: Look, I don't mean to intimidate you, but I have a master's degree in anthropology. DAVID BRANCACCIO: I'm intimidated. KURT VONNEGUT: From the University of Chicago-- as did Saul Bellow, incidentally. But anyway, one thing I found out was that we need extended families. We need gangs. And, of course, if they're tribes and clans and so forth have been dispersed by the industrial revolution by people looking for work wherever they can find it. And a nuclear family, a man, a woman and kids and a dog and cat is no survival scheme at all. Horribly vulnerable. So yes, I tell people to formulate a little gang. And, you know, you love each other.
...
DAVID BRANCACCIO: There's a little sweet moment, I've got to say, in a very intense book-- your latest-- in which you're heading out the door and your wife says what are you doing? I think you say-- I'm getting-- I'm going to buy an envelope. KURT VONNEGUT: Yeah. DAVID BRANCACCIO: What happens then? KURT VONNEGUT: Oh, she says well, you're not a poor man. You know, why don't you go online and buy a hundred envelopes and put them in the closet? And so I pretend not to hear her. And go out to get an envelope because I'm going to have a hell of a good time in the process of buying one envelope. I meet a lot of people. And, see some great looking babes. And a fire engine goes by. And I give them the thumbs up. And, and ask a woman what kind of dog that is. And, and I don't know. The moral of the story is, is we're here on Earth to fart around. And, of course, the computers will do us out of that. And, what the computer people don't realize, or they don't care, is we're dancing animals. You know, we love to move around. And, we're not supposed to dance at all anymore.
*
As entrevistas na íntegra estão aqui: 1 e 2.
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Pra fechar, nunca vi uma só fotografia sintetizar tão bem a obra de um autor:

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Monotemático maníaco é o teu nariz cheio de catota.
Escrito por Luciano �s 17h09
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1975 (trinta e dois)
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Escrito por Luciano �s 20h29
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statu quo
"A coisa tá feia, a coisa tá preta, quem não fô fio de Deus... tá na unha do capeta. tcharam-tchatcharamram." John Milton - Paraíso Perdido - Canto XIII

Gustave Doré, 1866
Escrito por Luciano �s 00h09
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o mundo assombrado por cabeças de mamão

Sim, a inexistência de resposta para tudo não é problema, mas sim respostas em demasia. Então pessoas saltando na sua direção, como em pegadinhas e tal, espremendo o próprio cérebro-furúnculo-amarelinho*, esguichando idéias e ideais como um chafariz da praça da igreja matriz, exigindo que se fale sério – “eu tô falando sério com você, fala sério, por isso a coisa não vai pra frente, vamos pensar aqui ô, vamos gerar soluções”.
Show de horror.
Talvez seja recalque de minha parte – não descarto. Talvez incapacidade produtiva ou escassa assertividade. Se eu cutucar bem fundo aqui pelo ouvido, ó, encontro, sei lá, umas duas opiniões mais ou menos próprias; no restante vou firme e forte em argumentos de autoridade.
E vou te dizer: morro de pena quando menosprezam argumentos de autoridade. Mesmo. Até penso em abrir a boca “Mas caramba, fio, já viu um átomo? já pisou na lua? já visitou Pindamonhangaba? Não, né?”; mas só lanço um meio sorriso meio de lado e giro a caneta entre os dedos.
É um tal quebrar tudo e fazer tudo de novo que eu não tenho idéia de quem vai pagar a conta; e só de sacos de cimento já foi mais de milhão. Mas engraçado mesmo é que a equipe toda é só de decoradores.
Nem quero saber, fico aqui de braços cruzados, a brincar de carrossel com minha cadeira giratória.
Quando finda a zona toda, me avisem.
Aliás, não avisem não.
* não me lembro, mas tenho a nítida impressão de que furtei praticamente a frase toda de alguém.
Escrito por Luciano �s 19h18
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breves notas sobre poesia: de arantes e antunes
"Your shadow at morning striding behind you Or your shadow at evening rising to meet you; I will show you fear in a handful of dust." The Waste Land - T. S. Eliot
"Amanhã, será um lindo dia, da mais louca alegria que se possa imaginar!" Amanhã - Guilherme Arantes.
Chega a ser desconcertante.
A influência de Eliot na poesia de Guilherme Arantes é tão evidente, tão facilmente perceptível, que eu ficaria até vermelho por comentar tamanha obviedade, não fosse, é claro, minha mundialmente conhecida cútis.
De métrica sutil - "dia ...louca alegria" -, que por vezes nos extenua ao buscarmos o milimetrismo métrico de sua poesia, Arantes faz um contraponto formidável frente aos poetas medalhões, desafiando as convenções e revitalizando, e por que não dizer, reinventando esta das mais nobres artes exercidas pelo bicho-homem.
Daí você me pergunta: “Mas em que exatamente Arantes herda de Eliot?”.
Ué, meu caro, é tão, mas tão, mas tão evidente - "evidente" com "e" maiúsculo até -, que nem mesmo vou dizer. É isto mesmo; não-vou-dizer. Simples assim. Se você não sabe é porque ainda não está preparado para entender as nuanças das artes maiores, o sentido profundo do belo e do sublime.
Se você não é como eu, que numa mão recebia mamadeira, e na outra uma obra de Dostoiévski - toda esta permeada pelo messianismo russo, aliada a tópicos em religião que me incitavam em calorosas discussões com minha babá.
Se você não é como eu, que aos seis anos de idade montava Hamlet – upa, cavalinho! – no quintal de casa, inclusive chamando a atenção de grandes críticos que vinham assistir à peça e sentavam em blocos de cimento e usavam baldes d'água na cabeça - uma excêntrica exigência minha.
Se você não é como eu, que aos oito anos de idade escrevia um ensaio intitulado "Sobre quartos escuros, gatos pretos e metafísicos: por onde se puxa o rabo dos bichos?", o qual assombrou os acadêmicos de filosofia da Universidade de Guararapes.
Enfim, se você não é como eu, e muito menos eu - porque se você é você, é impossível que seja eu, eu acho -, só posso dizer, levantando ambas as duas sobrancelhas: "Sorry, amiguinho, desculpe por eu ser tão bom!".
E é por isso que fico indignado quando um filisteu vem me dizer que "A poesia de Arantes é efêmera", e que "Arantes é só um choramingão" e tal e coisa.
Sou enfático: Arantes coloca Bandeira num bolso e Pessoa na pochette - ou vice-versa.
***
Outro injustiçado é Arnaldo Antunes, grande poeta altamente influenciado por Willian Blake, para o qual compôs este telúrico e formidável poema:
Canção de ninar bovinos De Arnaldo Antunes
No rego que | d e s c e
| -> sobe. -> sobe, | sobe, |
Chove chuva; no coração dilacerado pelo medo, pelo percevejo, pelo brotoejo.
Mostre-me, bi-gato: suas patas, suas garras, suas mágoas, suas parafernálias. Blake, se eu fosse como tu, meu velho, assim, mor legal, era go-go tiger e zefini.
Mas sobre Antunes dissertaremos com mais propriedade em outra oportunidade.
***

Ronda Noturna - poesia completa de Guilherme Arantes (1977). Recomendo veeeeeeeementemente!
Escrito por Luciano �s 20h05
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as chagas de Valciscley Jaquemsom de Souza (um conto de terror)
à maneira de H. P. Lovecraft - nhé

O povoado de Birigui, interior de São Paulo, ficou todo pimpão com a notícia de que Valciscley - vulgo Val, vulgo Clei, vulgo Orelhão da Telefônica, vulgo Cabeça de Bigorna, mas vamos parar por aqui porque o rapazinho tem mais nomes que Deus e Didi Mocó e já até esqueci qual era a notícia.
Espera aí que vou ali pegar o recorte de jornal.
[volta dando petelecos nas folhas do The Birigui Times]
Enfim, Valciscley, doze anos, orelhas de abano cuja envergadura fariam frente a um boing 747, queixo pontudo tal qual uma picareta, cabeça tão avantajada quanto um galão de vinte litros; Clei, cidadão honorário biriguiense, estava na boca do povo.
Há semanas corria a o boato de que Orelhão da Telefônica era a manifestação do mais recente milagre ocorrido na região. Teólogos e filósofos discutiam continuamente na praça da cidade, no que levantavam o indicador em riste até que um dos opositores mordesse o ereto indicador adversário, ou, o que era mais comum, o rival tivesse o dedo dobrado até que pedisse água. Senhoras donas de casa, vestindo aventais que desciam até às canelas, comentavam o assunto detrás de seus portãozinhos nhec-nhec, balançando seriamente cabeças terrivelmente povoadas por bobes e outros adereços capilares.
A discussão toda era se Cabeça de Bigorna realmente havia manifestado chagas em seu corpitio mirrado, ou se os estigmas que cobriam quase toda a superfície de seu corpo eram, como podemos dizer de uma forma mais polida, vejamos, é ..., enfim, as más línguas diziam se tratar nada mais nada menos do que perebas.
"Pereba!", gritavam os céticos; "milagre!" respondiam os devotos.
Birigui passou a ser o foco da mídia da região. E todos ficaram muito-muito orgulhosos quando um helicóptero passou a sobrevoar a megalópole do interior paulista. As garotas mais assanhadas, predominantemente as de mais de 70 anos, saíam na rua só para brincar de Marilyn Monroe, sentindo o ventinho ricochetear no solo e a poeira subindo a levantar seus saiões recheados de babados - no que todas exclamavam provocadoras: "Uiiiii, óia o ventinho! hi-hi-hi!".
Como os especialistas locais não se julgavam capazes de identificar a natureza do fenômeno, chamaram o Dr. Tchekhov - médico russo e exímio teólogo radicado em Araçatuba, cidade vizinha distando apenas quinze quilômetros de Birigui.
Dr. Tchekhov colocou o monóculo e franziu o cenho. Os presentes suspenderam a respiração em incontrolável ansiedade, e o doutor ficou nos ham-ham e hum-hum, apalpando aqui e ali o corpo marcado de Val, enquanto todos ficavam de cútis cada vez mais arroxeada, alguns já até revirando os olhos e se esfregando nas paredes, até que enfim, depois de um longo tempo proferiu o fatídico diagnóstico:
- Oh, nom haver dooveda, ser só catapora.
Escrito por Luciano �s 01h18
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sad playmobil

“O sabão, lava o meu rostinho, lava os meus pezinhos, lava as minhas mãos.” - Walt Whitman
Sou um sujeito limpinho. Banho todos os dias, os fios de água caindo sobre minhas omoplatas dantescas, ricocheteando em minha cútis naturalmente bronzeada, deslizando por meu corpo habilmente torneado pelas sábias mãos da mãe natureza.
Sou limpinho. Mas, vejam só, acontece que tenho uma bolsa que uso para trabalhar. Sempre nela: uma blusa de lã preta, a carteira, contas, bilhetes de metrô, cinco quilos em moedas, trechos de artigos técnicos, canetas, um colírio, uma chave, crachás, um livro – ou dois -, um guarda-chuva e um tamanduá-bandeira.
Tenho a bolsa há um bom tempo; nunca lavei. Não que seja comum lavar uma bolsa; mas a minha já tomou chuvas, e é atirada ao chão o tempo todo.
Acontece que há um mês, ou dois, ou no máximo três, mas mais que quatro tenho certeza que não, mas como dizia: há *uns dias* não consigo olhar para ela sem pensar: “Meu Deus do céu, homem-de-Deus, lava essa bolsa!”.
Inevitável. Toda vez que eu olhava para o espelho o meu eu-crítico me dizia: “Sujeitinho desqualificado, é isso que você é! Um homem sem qualidades! Lava essa bolsa, menino!”. Ou ainda ouvia o lacônico: “Que vergonha! O que diriam John von Neumann e Alan Turing sobre isso, rapaz?”, e a esta última pergunta eu respondia: “Hein!?”. Ciente de ser um homem sem qualidades, andava pelo mundo carregando a dor neste peito sofrido, neste semblante sorumbático marcado pela amargura. Martirizado pela severidade do meu espírito alemão, andava pelas ruas desalentado, recebendo, taciturno, os golpes da pesada garoa neste meu cocoruto deformado pelos incontáveis cascudos que levei quando criança. Não encarava mais as pessoas nos olhos, carregava minha bolsa bicolor como quem anda de mãos dadas com a Regina Casé na avenida Paulista, como quem carrega um filho defeituoso - um monstro saído de minhas entranhas, do meu ventre de menino-homem.
O fato é que faz duas horas que choro sem parar. Lágrimas esguicham de meus olhos estreitos como se fossem seringas d’água sendo pressionadas por polegares opositores. Chacoalho tanto os ombros que pareço um playmobil dançando mambo; tremo tanto os lábios que um desavisado diria que estou em constante oração; contorço tanto a cara que já não sei se respiro pelo nariz ou através das orelhas. E por falar nisto, tento colocar os óculos mas é impossível: “JESUS, ONDE ESTÃO MINHAS ORELHAS?”.
Há duas horas choro sem parar.
Há duas horas e vinte segundos lavei minha bolsa.
Escrito por Luciano �s 23h21
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sobre gostar de dias nublados

“Algumas pessoas – entre as quais me incluo – odeiam finais felizes. Sentimo-nos ludibriados. O infortúnio é a regra, as engrenagens do destino aziago nunca deveriam ficar emperradas. A avalanche que se detém alguns metros acima da aldeia acocorada comete um atentado não só contra a natureza, mas também contra a ética.” Trecho de Pnin (1953), de Nabokov – na tradução do excelente Jorio Dauster.
É possível gostar de Nabokov apenas por seu domínio narrativo, ironia mordaz, cadência e habilidade metonímica que lampeja praticamente a cada parágrafo; mas para ser um admirador incondicional – dos que inclinam ligeiramente a cabeça para um lado, com um fio de baba esticando-se do lábio inferior e fazendo tóin-óin-oin (como de fato eu sou) – é necessária aquela cumplicidade sádica, aquele sorriso sem dentes de satisfação em ver os personagens sendo habilmente torturados das mais distintas maneiras.
Os personagens de Nabokov debatem-se o tempo todo, mas apenas por uma certa obrigação moral em tentar um final feliz. Cada torturado tem plena ciência de seu incontornável desconforto com o mundo, do desajustamento definitivo, e, conseqüentemente, de certo modo se conformam com um destino fatal – seja a morte (Lolita e Coisas Transparentes), a infelicidade (Pnin), a consciência esmagadora da própria mediocridade (A Verdadeira Vida de Sebastian Knight), a perda irreparável de anos e anos (Ada ou Ardor) ou a loucura (O Olho Vigilante e Fogo Pálido).
Sinto em Nabokov um ligeiro niilismo – veja bem: *ligeiro*-, não chegando ao extremo de Beckett, mas tendendo para. Em Beckett o pessimismo no princípio, o atabalhoamento frente a toda e qualquer necessidade de ação; em Nabokov o pessimismo como conclusão, a moral do fim da estória.
(Sim, estou vivo. Olá.)
Escrito por Luciano �s 23h08
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a million motives to procrastinate
Às vezes eu dava um passo para o lado e minha gravata vermelha balançava em pêndulo, no que os professores da banca pregavam os olhos nela até que o movimento cessasse em absoluto; daí, só de graça, eu dava um passo para o lado contrário e os deixava hipopotizados lá com o pêndulo balouçando.
Sério, eu queria ser punido pela Vida.
Acontece que procrastinei o tempo inteiro, e quando chegou o deadline fiz as coisas mais ou menos de qualquer jeito. Ainda assim os doutores da banca - um japonês [olha só o pleonasmo] de cara amassada e um outro de cabelos brancos - disseram que meu projeto de pesquisa é lindo como um arco-íris, fofo como um beija-flor a bitocar flores de um campo verdejante sem fim. E também disseram que meu português escrito é muito claro, e mais fluente que as enxurradas das ruas de São Paulo.
Mas eles ficaram mesmo impressionados quando, sem mais nem menos, executei um moonwalk da mesa onde eu estava até o fundo da sala, mantendo as mãos espalmadas como se estivesse tentando segurar uma parede imaginária. Os queixos deles - dos dois doutores mais meu orientador-doutor - deslocaram-se num tempo só e estatelaram sobre a mesa retangular, espatifando os copos de Lindóia e esguichando água mineral para todo lado.
Sinceramente, eu queria que a Vida me ensinasse alguma coisa. Mas a Vida é professora do Estado, ganha um salário mínimo e não tem nem onde esquentar a marmita. Isso quando não murcham os pneus de sua barra-forte e ela tem que empurrar a bicicleta por uns dezoito quilômetros até chegar num posto, desses que vendem gasolina adulterada, para encher os pneus e comentar com o frentista: "É, não é fácil não, seo Cleodecir! Rapadura é doce mas não é mole não!". E o senhor Cleodecir só faz tirar o boné, coçar o cabelo de esponja de aço e abrir um sorriso corintiano com mais gengiva que dentes.
Ah, me lembrei. Dia desses vi uma "moça" cantando e dançando na TV. Ela tinha uma dessas vozes infernais, que não podem ser reproduzidas nem por um exército de fanfarras de crianças do primeiro grau, e chacoalhava o corpo o tempo inteiro, jogando a cabeça para os lados com tanta força que já estava vendo a cabeça dela desparafusar, cair no chão e sair quicando pelo palco. Mas nada aconteceu e fiquei um pouco frustrado.
Tudo isso, sobre a Vida não me aplicar corretivos e cabeças desparafusadas, me fez pensar muito seriamente sobre uma coisa. Vamos supor que antes do teu nascimento chegassem para você e te perguntassem:
– Olha, o negocio é o seguinte, você precisa escolher, quer ter uma “cabecinha” ou um “cabeção”? – Hã? – você responderia. – O diâmetro da sua cabeça, mané. Di-â-me-tro. Entendeu? Quer ter uma cabeça pequenina ou um cabeção? Não, não, não pode ser uma cabeça normal. Ou cabecinha ou cabeção. Escolhe.
Bom, particularmente fico horrorizado quando vejo alguém que tem uma cabecinha em cima de um corpo maior, desproporcional, sabe? É como se a cabeça tivesse murchado durante a vida, ou como se o suco cerebral do sujeito tivesse sido sugado de canudinho por um personagem monstruoso do Lovecraft; diferente do cabeção, que dá a impressão de que o sujeito estudou bastante, ou que no mínimo tem uma doença interessante que lhe dá uma cabeça d'água. Não sei você, mas para mim "cabecinha" é bem pior. Eu escolheria um cabeção. Sei lá.
Mas a Vida, aquela lascrefenta...
[Agora eu estou desesperado, com os olhos arregalados e a boca bem contorcida te seguro pela gola da camisa.]
Mas não, a Vida não quer me ensinar nada. NADA. NADA. O quê que eu faço então, se a Vida não me ensina nada? Como vou crescer *a nível* de PESSOA? HEIN? HEIN? Quando vou deixar de procrastinar? PROCRASTINAR. ME DIZ, ME DIZ, por piedade!
[Largo a gola da sua camisa, me viro bruscamente e fico de costas para você. Abaixo a cabeça e assumo um tom profético.]
Eu realmente gostaria que a Vida me desferisse golpes potentes com musculosas mãos de padeiro; que a bigorna do juízo caísse sobre meu cocoruto como um martelo lascando uma castanha do pará.
Mas não, a Vida não é de nada. É professora do Estado e tem bíceps do tamanho de bisnaguinhas seven boys.

Exemplo de japonês verde.
Escrito por Luciano �s 20h26
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4 links
um, dois, três, quatro.
(Ah, e não deixem de ver os dois vídeos do link "dois". Jesus, Bruni!)
Escrito por Luciano �s 20h27
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algo em torno de uns oito graus em miopia espiritual
“Um dia você ficará cego, como eu. Estará sentado num lugar qualquer, pequeno ponto perdido no nada, para sempre, no escuro, como eu. Um dia você dirá, estou cansado, vou me sentar, e sentará. Então você dirá, tenho fome, vou me levantar e conseguir o que comer. Mas você não levantará. E você dirá, fiz mal em sentar, mas já que sentei, ficarei sentado mais um pouco, depois levanto e busco o que comer. Mas você não levantará nem conseguirá o que comer. Ficará um tempo olhando a parede, então você dirá, vou fechar os olhos, cochilar talvez, depois vou me sentir melhor, e você os fechará. E quando reabrir os olhos não haverá mais parede. Estará rodeado pelo vazio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que ressuscitassem, o preencheriam, e então você será como um pedregulho perdido na estepe”.
Hamm, em “Fim de Partida” – Fin de partie –, de Samuel Beckett (na tradução de Fábio de Souza Andrade, Cosac Naify, 2002).
Escrito por Luciano �s 00h49
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"All work and no play makes Jack a dull boy." [off topic]

Resumo
A necessidade de se automatizar tarefas realizadas por humanos – que em grande parte exigem habilidades de percepção sensorial, capacidade de raciocínio, senso comum e generalização – tem impulsionado o desenvolvimento de sistemas computacionais inteligentes. A inspeção visual em processos industriais enquadra-se neste tipo de tarefa. Este trabalho propõe a utilização de métodos indutivos, particularmente o de aprendizado de máquina através de árvores de decisão, para identificação de defeitos em placas montadas de circuito impresso (PCB - Printed Circuit Board). No aprendizado de máquina algoritmos são treinados através de exemplos previamente rotulados, utilizando-se características derivadas do objeto de estudo. O algoritmo aprende quais são as características úteis para a distinção entre classes, avaliando as dependências entre características x classes. O resultado é um classificador, que é basicamente um conjunto de regras, que pode ser utilizado para classificar novos exemplos ainda não rotulados. Neste trabalho são apresentados aspectos teóricos em inspeção visual de placas de circuito impresso e aprendizado de máquina – em que foram desenvolvidos protótipos para avaliar a viabilidade de se usar esta tecnologia. Basicamente, o desenvolvimento deste trabalho constituiu-se da extração de características de um conjunto de imagens de placas de circuito impresso montadas, composto dos subconjuntos “placas normais” e “placas com defeito”, submissão destes dados a diferentes algoritmos de aprendizado de máquina e avaliação dos resultados. Os resultados iniciais apontam que é viável utilizar-se de aprendizado de máquina, através da indução de árvores de decisão, para identificar defeitos em placas de circuito impresso montadas; por fim, são descritos os próximos passos para a conclusão deste trabalho.
Palavras-chave: inspeção de PCBs, visão computacional, árvores de decisão, aprendizado de máquina, inteligência artificial.
(Sim, mais ou menos imitando aquele post.)
Escrito por Luciano �s 22h37
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de variações de Mateus 16:26 - one tear by day

"De que vale o homem ganhar o mundo inteiro e perder __________". a peruca a dentadura o amor a tampa do tubo de pasta de dente o respeito o bilhete da loteria o orgulho o ônibus o pinto o aniversário do filho de 3 anos o cinema o jogo o episódio de Lost a bicicleta
Oh, "não se turbe o vosso coração", que o demo nunca exige tanto. Ao menos não tanto de uma só vez.
É claro que pode tudo. Sem dúvida. Eu deixo, e Deus e o demo assistem das numeradas, e riem muito, cuspindo pipoca nos das fileiras subseqüentes.
Mas deve-se admitir que o demo é um sujeito delicado; então te colocar na parede é uma impossibilidade. Não, não é do tipo "E aí, mano, me dá tua alma aí".
É preciso demasiada tenacidade para se chegar ao inferno - este vem efetivamente em doses homeopáticas, sobre uma Caloi 10 (1972) com dois pneus furados e marchas enroscando.
A merda toda é essa: "É só um pouquinho", "É só dessa vez" e outras variações mais ou menos sutis.
O processo é *aparentemente* indolor.
Então você acorda numa segunda-feira qualquer, estica um sorriso bizonho amarelo e lança um olhar bovino de "Como assim?" - tudo devidamente impresso numa superfície lustrada por óleo de peroba.
(Nossa, um post sério! Nem parece que agorinha eu estava todo sensual, dançando "Take You on a Cruise" só de cueca – "making money like Fred Astaire".)
Escrito por Luciano �s 21h24
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perfect jay
Senti os lençóis frescos, apesar do sol já estar relativamente alto. Sorri mesmo antes de abrir os olhos. Sentei na cama e espreguicei durante um bom tempo.
Um dia bom.
Pouco depois, eu descia serelepemente a alameda de cascalhos, sentindo, sob confortáveis chinelos, o variado relevo das pedras do caminho estreito. À direita, feixes de luz ligeiramente trêmulos cintilavam na superfície do lago.
Me sentia como se tivesse acabado de ler um conto de Salinger, ou de Fitzgerald, ou de John Cheever. Na verdade, a impressão era de que eu tinha acabado de ler um conto de cada um deles. E é claro que estes três contistas não aprovariam tal descrição, mas eu era um sorriso de 68 kilos.
A pedra lançada no lago não fez loboft, e sim plumbt – uma singela expressão de delicadeza num mundo de lojas de $1,99 e shows do joão bom jovem.
Um dia perfeito.
Senti um leve comichão na parte inferior da nádega direita, já na divisa com a perna, e disse a mim mesmo em extrema satisfação: “Ah, vou resolver isso agora mesmo. Não vou deixar pra amanhã não”. Então estiquei a mão espalmada paralelamente à coxa, colei-a na parte de trás e a deslizei suavemente num movimento ascendente. Na região do comichão, fiz movimentos circulares com a ponta dos dedos enquanto abri um sorriso diagonal e refleti: “Ah, eu poderia estar sendo torturado, amarrado a um tambor de duzentos livros, sem a mínima possibilidade de me livrar do comichão. Mas não, não, eu sou livre, completamente livre, livre como a borboleta que ziquezagueia por entre as folhagens douradas do outono, livre como um vaga-lume a ser luz no mundo por breves intervalos; a luz do mundo, o sal da terra. *Livre*!”.
E foi aí, no exato momento da consciência de não estar sendo torturado naquele exato momento, e de ser um sujeito abençoado e que ilumina feito um vaga-lume esse mundão de meu deus, exatamente aí que me virei e avistei nuvens negras carregas no céu; ouvi o vento uivar agonizante; me arrepiei dos pelinhos do dedão às sobrancelhas; ouvi a trilha sonora de dezenas de filmes de suspense. É, eu me virei e vi, com estes olhos que a terra *não* há de comer, já que sou doador de órgãos.
Vi dona Josefa - uma senhora negra de 73 anos, cabelos grisalhos de globetrotter, 114 kilos equilibradamente distribuídos em imponentes um metro e quarenta e três de altura, vestido branco de estampas róseas cobrindo até um palmo antes dos joelhos massudos. De costas para mim, ela se abaixava em um movimento suave e lento, e por isso mesmo ainda mais impressionante, onde a superfície de suas coxas colossais, cuja existência como coisa-em-si nem um solipsista empedernido se atreveria em contestar, esticava-se na mesma medida em que a celulite se escondia, e suas cadeiras angulosas que abarcam o mundo empurravam acintosamente o indefeso vestidinho sentido acima, e acima e acima, cada vez mais, até o ápice, quando então suas mãos tocaram o canteiro de flores rasteiras. E então vi ainda mais.
Em câmera lenta, efeito colateral de meus sentidos entorpecidos, vi o vestidinho se rasgar de baixo até o meio das costas de dona Jay. E em resposta a súbita libertação, incontáveis pneuzinhos de gordura saltaram uns após outros num frenesi coletivo irrefreável, num estremecimento telúrico nunca dantes visto por um homo sapiens; por fim, mas não menos estarrecedor, as nádegas paquidérmicas de dona Jay chacoalharam em movimentos uniformemente variados, espremendo impiedosamente sua calçola de velame de pára-quedas.
Um pingo de suor deslizou sinuosamente da têmpora à ponta de meu queixo, e então se precipitou tragicamente rumo ao emaranhado verde de grama.
Gritei “Minha mãe de Deus!” duas vezes e caí de costas.
Escrito por Luciano �s 19h34
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