"O amor pode falhar, mas o cava-
lheirismo prevalecerá" - K.V. apud J.F.

o führer mameluco


oie

[Nossa, sinto vergonha por não ter matado isto aqui antes. Vergonha por ser covardia de me livrar disto aqui, que foi, sim, importante pra mim - mas há bastante tempo, claro. Vergonha também por vezes você voltar aqui esperando algo - como faço com outros blogs mortos - e com razão reclamar *então por quê não mata logo isto?*]

--

tipo uma carta aos moços

A principal vantagem de se envelhecer um pouco (mas não muito a ponto de todas as juntas doerem ao mesmo tempo) é a de se livrar daquela ansiedade crônica de se entender tudo, ou ao menos o essencial, para se viver em paz. De querer juntar elementos de religião, física, química, matemática, relações afetivas, insights dos mais variados, análises sobre redes sociais e o impacto para as relações sociais e vice-versa, de bater tudo isto e chegar num substrato transcendente, uma epifania meio que definitiva, um tantinho mais fortinha, que dure um pouquinho mais.

Uma epifania que nos faça cafuné e diga que tudo ficará bem, que nos dê aquela paz muitas vezes alcançada apenas por meios não seculares - Jesus, Buda, Ciência com C gigante.


Mas então tchau, Epifania Mãe de Todas, que tenho uma pilha de contas para pagar, passar a moto pela inspeção veicular, ir na reunião de pais da escolinha da Júlia, implantar uns cinco projetos, baixar o último disco do LCD Soundsystem, ler uns contos do Cheever, brincar com meu Galaxy Tab, ver Barney pela quinta vez (hoje!), imitar mais alguns tipos de animais selvagens e domésticos, ajudar a empurrar um carro velho, pesquisar uns produtos no Mercadolivre, tudo ao mesmo tempo e tal e coisa.

Borges dizia que quando criança não entendia o porquê de só ele se deslumbrar e se intrigar com o fato de que atrás dos olhos dele havia um que era diferente de outros, e sobre os elementos que faziam esta diferença.

Eu até continuo com as mesmas dúvidas, a diferença é que não dependo mais das soluções para seguir adiante, calminho, com meio sorriso estampado, pensando nossa que *massa* mesmo que é o Pocoyo.



Escrito por Luciano �s 12h48
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eu também vim da roça



Escrito por Luciano �s 21h54
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gut-gut não é sansão

Depois de ler muito do Kurt Vonnegut maneirista, fiquei pensando sobre o quanto ele dependeria daquela voz (que ele disse que aprendeu a usar nos tempos do colégio) de alguém sempre muito inteligente e resignado e pastelão – o tempo todo absolutamente consciente das próprias debilitações, mas nem por isso amargo. Daquela estética dele que bate no teto em Matadouro 5
Conclui, estupidamente, que sem esta voz ele perderia todas as forças – mais ou menos como se não tivesse tomado café da manhã e nem almoçado e estivesse subindo a Teodoro Sampaio as duas da tarde num fogoso calor de 38ºC. Restando um cego e escalpelado Sansão.
Conclui que estava concluindo uma conclusão equivocadamente concluída (queria enfiar mais um conclu... aqui, mas não consegui), lendo A Revolução no Futuro (Player´s Piano – 1952), seu primeiro romance. Neste, máquinas substituem homens em larga escala, inicialmente em trabalhos braçais (o que já ocorre hoje) e posteriormente em tarefas mais sofisticadas, situação que eleva engenheiros ao máximo prestígio – algo parecido com que a ciência em geral é a panacéia da vez. A automatização garante maior produção e pouquíssimo desperdício, garantindo que o homem médio, apesar de ocioso, viva no conforto de microondas e lava-louças.
Apesar de freqüentemente soar irônico, Vonnegut não usa a tal da voz, e se sai perfeitamente bem evitando – o que é muito bacana considerando que ele era iniciante – incorrer em obviedades, como discursos tecnofóbicos ou tecnocráticos. Em situações de conflito homem x máquina, movimenta os personagens de forma que o narrador (onisciente, neste caso) se abstenha da ridícula tarefa de ditar moralismos.
O tom geral, e correto, é que o ócio é a morte para sujeitos que dependem grandemente de sua função na sociedade para afirmação de valor, e que o homem-que-aperta-o-parafuso, apesar de não saber, adora e precisa apertar parafusos.



Escrito por Luciano �s 23h34
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"with all your lies, you're still very lovable"

Queria muito ouvir isto de alguém; mas, é sério, eu não minto.



Escrito por Luciano �s 01h22
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o disco todo é muito bom; e esta faixa é uma das melhores



Escrito por Luciano �s 01h16
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*



Escrito por Luciano �s 01h11
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the little hunter

Vou ter de esperar. Uns quatro anos, mais ou menos. Daí vou comprar um traje pra ela. Obviamente: um chapéu, uma blusa de botões, um cinto com um canivete vermelho de plástico, bermuda rente aos joelhos, e um par de botas de plástico (mas confortáveis) rosa, pra ela pisar displicentemente sobre poças de lama que agonizarão num splash lamurioso, molhando o tempo todo a barra de minhas calças; porque, claro, vou estar ao lado dela, ela acelerando o passo desesperadamente na tentativa de acompanhar minhas grandes passadas, ela segurando apenas dois dos dedos de minha mão gigantesca.
 
Vamos caçar jacarés.
 
[E vou contando pra ela que meu pai caçava jacarés, e que teve uma vez que ele pegou um filhote e levou vivo com ele, e chegando em casa um dos seus irmãos mais novos dormia sossegado e foi quando ele jogou o jacaré, um filhote, mas um filhote já grande, um jacaré vivinho em cima do dorminhoco. E todos riram bastante - depois de um tempo até mesmo o que dormia.]
 
Às vezes um carrapicho vai agarrar o braço dela e ela vai chorar contidamente, solavancando os ombros no ritmo de soluços abruptos em intervalos regulares. Vou tirar o carrapicho com cuidado, e vou dizer que isto não é nada perto do estrago da mandíbula de um jacaré. Ela vai parar de chorar e me olhar assustada, os olhos já grandes e agora imensos.
 
Vamos andar durante um bom tempo. E de vez em quando vou dizer olha-lá-o-tamanho-do-jacaré, e quando ela olhar na direção apontado o jacaré já haverá se ido, e vou dizer puxa-que-pena-que-você-não-viu.
 
Por fim, vou dizer que todos eles fugiram morrendo de medo da gente, já que eles morrem de medo de caçadores de jacarés.
 
*
 
Daqui uns sete anos poderemos ousar mais. Até lá ela já saberá quase tudo sobre eles, a origem, seus poderes e vulnerabilidades.
 
Vampiros.
  
*
 
A mãe dela vai brigar comigo, dizendo que ela não é um menino pra ser vestida deste jeito, e sair caçando jacarés e vampiros. E eu vou responder que convenções sociais são o pilar da mediocridade civilizada, mas vou me omitir de dizer que ainda que mediocre essencial pra tornar as coisas minimamente previsíveis e, consequentemente, civilizadas - torçendo pra que este argumento surta o efeito sofístico esperado.
 
Vou passar antiséptico nos ferimentos decorrentes da caçada - os orifícios minúsculos abertos pelas garras sanguinolentas do carrapicho, o joelho ralado enquanto fugíamos de um bando de vampiros.
 
Não vou precisar soprar; já que hoje em dia Mertiolate nem arde mais.



Escrito por Luciano �s 16h49
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X)



Escrito por Luciano �s 16h34
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the fall of Dick Diver

“Life is fun with Dick – the people in deck chairs look at us, and a woman is trying to hear what we are singing. Dick is tired of singing it, so go on alone, Dick. You will walk differently alone, dear, through a thicker atmosphere, forcing your way through the shadows of chairs, through the dripping smoke of the funnels. You will feel your own reflection sliding along the eyes of those who look at you. You are no longer insulated; but I suppose you must touch life in order to spring from it.
Sitting on the stanchion of this life-boat I look seaward and let my hair blow and shine. I am motionless against the sky and the boat is made to carry my form onward into the blue obscurity of the future, I am Pallas Athene carved reverently on the front of a galley. The waters are lapping in the public toilets and the agate green foliage of spray changes and complains about the stern.”
Tender is the Night (1934) – F. S. Fitzgerald



Escrito por Luciano �s 13h49
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and "love is

not a victory march
It's a cold and it's a broken hallelujah"



Escrito por Luciano �s 23h40
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de como ela roça meu mamilo, e a gente ri

Se você pensa um pouco, ou muito, não importa a medida, sempre tende a concluir que está só. Desgraçadamente só. Imerso em si mesmo, seus pensamentos vão e vem o tempo todo, retornando sempre aos mesmos pontos, pras velhas perguntas, saltando de um lado pro outro num ciclo sem fim. Isto te absorve, e você acha que só você pensa assim, naquele momento, naquela intensidade. Fraqueja num relance, refletindo que é mesmo aterrador só de tentar traduzir um pouco de tudo isto, e que tudo isto acaba passando por uma frestinha ridícula de tão estreita para virar um tantinho assim de palavras que não dão conta de representar uma ínfima parte do todo.

Então você não diz nada.

E você segue um pouco rápido a pé pelo terreno acidentado, desviando de buracos e subindo e descendo as fronteiras desniveladas das calçadas de diferentes casas, de fone auricular ouvindo algo, você sente tudo isto, a respiração ligeiramente ofegante, a panturrilha contraindo na subida do aclive, a bolsa resvalando em sua coxa direita, as moedas tilintando no bolso esquerdo da calça, a musiquinha que aperta um pouco seu peito, a camisa dobrada pressionando seus antebraços, as nuvens arroxeadas do fim da tarde que estão ali sobre aqueles prédios, e cada uma destas sensações remetendo a outras, sucessivamente numa espiral, reverberando suavemente até em pontos da memória os quais você já não costuma visitar. Você se sente mais tranqüilo, que tudo isto não precisa virar palavra, passar por fresta qualquer e se dilapidar a ponto de se tornar irreconhecível.

Então você não diz nada. Mas então sorri.

Mal se dá conta e já está no hall do seu andar, o elevador se fechando atrás de você. Abre a porta, ou ao menos tenta abrir durante o tempo em que a chave teima em não encaixar e você começa a se questionar se este é mesmo o apartamento, quer dizer, e a chave encaixa em um momento qualquer e você, claro, gira a chave pro lado errado e pensa que, puxa, toda vez eu giro pro lado errado, por quê? por quê? E quando a chave e fechadura e você finalmente se entendem, quando resolvem se liberar e dispersar como se estivessem no fim de uma reunião de velhos amigos onde todos estão muito cansados e apesar de se gostarem muito não vêm a hora de sair dali pra chegar em casa e brigarem com a chave e fechadura e esta coisa toda, você entra.

Então você usa a mão direita (sempre a errada) para passar a alça que enrosca na orelha esquerda e vai puxando cabelo acima até finalmente passar toda e quase enroscar também na orelha direita e, ufa, coloca a bolsa em uma das cadeiras e caminha para o sofá de onde ela olha pra você e sorri.

Ela te observou enquanto você lutava com a bolsa, viu seu cabelo um pouco desgrenhado, a camisa escorregando um pouco pra fora da calça, a calça um pouco amassada, suas olheiras de sempre, e sorriu um pouco mais esticado.

Daí você se senta ao lado, coloca a mão na nuca dela e diz oi. Ela não responde, desfazendo o sorriso-um-pouco-mais-esticado num semblante neutro, e te olha diretamente nos olhos, alternando a atenção pras suas sobrancelhas, pra ponta do seu nariz, pro contorno da sua boca, pras fronteiras imaginárias que delimitam suas bochechas, e voltando pros seus olhos. E você se atrapalha e não lembra se já falou com ela e diz oi. Mais uma vez ela não responde, continua lá te olhando. Você desvia um pouco o foco, observa a cortina branca verticalmente ondulada logo atrás dela.

Volta a olhar pra ela, agora também diretamente nos olhos, como ela faz, e você se vê, reflexo na íris dela, e num instante percebe que os oi eram mesmo desnecessários, e sabe que você não está só, já que ali não há frestas, que nada precisa virar palavra, ela é você na íris dela, e você é ela na sua íris.

Então vocês não dizem nada; e riem ao mesmo tempo em que ela toca o seu tórax e desliza roçando seu mamilo.



Escrito por Luciano �s 23h22
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só de sunga

Toda Pessoa Comum não tem mais que uns treze anos de idade mental. 
 
A Pessoa Comum, destas que são quase todas, anda como que dando saltinhos em trilha sonora da Coca-Cola*, vivendo sem uma rugazinha a lhe conspurcar a cútis aveludada, sem um grama de peso na consciência; de tão intumescida de bons sentimentos.
 
De tão esquiva, A Pessoa Comum é praticamente inimputável. Para cada acusação, um sem número de justificativas  - exemplos  perfeitos de contrição.
 
A cada manhã A Pessoa Comum te lasca todo, e você ainda se vê culpado, escarafunchando cada canto da memória, apalpando polegada por polegada, porque a culpa só pode ser sua, lascado, claro, já que A Pessoa Comum é assim tão síntese da pureza das crianças.
 
No Orkut: A Pessoa Comum só não consegue viver "sem Deus no coração", e mantém album de fotos em traje de banho. Repito: foto só de traje de banho no Orkut. De biquini ou sunguinha (o que é infinitamente pior) - férias em região qualquer do Nordeste.
 
A Pessoa Comum é romântica, bem do tipo que combina as letras do nome do par com iniciais de palavras fofas. Vamos relembrar? Exemplo:
 
J ovem
U biquo
A tencioso
R esfolegante
E xcepcional
Z issou, Steven
 
Você acha engraçado e pensa, nossa, A Pessoa Comum é tão cute. Vem aqui me dar um abraço, Pessoa Comum, me fazer personagem do Nabokov. Depressa, vem me dar um ósculo e vá correndo receber suas moedas de prata.  Pois você é mais cute que um panda todo fôfo, Pessoa Comum.
 
Só A Pessoa Comum tem para si os portões do céu escancarados;  todos os outros ficam aí a se purgar, esturricando em sentimentos de culpa, ofegantes em busca do Bem, tentando de com força discernir virtudes de vícios, toda essa autocomiseração judaico-cristã e tal .
 
 
* Porque "a juventude", dizia o grande Bandeira, que Deus o tenha, "é uma banda numa propaganda de refrigerantes."



Escrito por Luciano �s 23h21
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Cheever drinking coffee!?



Escrito por Luciano �s 13h26
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para todos vocês, mr. Scrooge

Mesmo atrasado, desejo que o espírito natalino invada vossos orifícios.

Mas não este Espírito do Natal de powerpoint, mas aquele bacanão e intrusivo, o do Dickens.

Espero que ele chegue sem avisar, chutando seus cachorros, esbofeteando seus irmãos menores e aplicando o tratamento especial que vocês merecem.

Colheradas de pau em suas cabeças para reter a atenção. Sangramentos oculares, auriculares e nasais para todos os que "vivem como se não houvesse amanhã". Vocês mesmos, que não querem saber do amanhã e por isso só fazem merda no hoje. Vocês aí que são "movidos pela emoção", que "obedecem a voz do coração", que o abutre lhes coma o fígado ad infinitum. Que seus ossos estalem feito palitos de fósforo. Que vocês pisem na merda do cachorro toda vez que saírem de casa. Que vocês ouçam indefinidamente "Então é Natal" cantado pela Simone. Que suas almas sequem feito carne de sol nos varais da caatinga sempre que disserem "que não tinham a intenção".

Que a Grande Mão, a potente e musculosa mão, pese sobre vocês como nunca, e que você venham a ser pessoas ao menos um pouquinho melhores.

Ninguém chore pelo vosso flagelo; e mais, que ninguém se dê ao trabalho nem mesmo de levantar ligeiramente as sobrancelhas.



Escrito por Luciano �s 22h11
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:( ... :O ... :) ... ;)

"No tempo em que eu era garoto e ia ao circo, havia uma dupla chamada "As gêmeas Treviso" - Maria e Rosita. Rosita se equilibrava na cabeça de Maria, crânio contra crânio, e era carregada ao redor do picadeiro. Devido a este exercício extenuante, Maria tinha pernas curtas e musculosas e andava de um jeito gozado; toda vez que vejo minha mulher se afastando de mim, me lembro de Maria Treviso. Minha mulher é grandalhona. [...] Minha mulher e eu vivemos muito mal juntos, mas temos três filhos lindos e tentamos tocar a vida para frente. Faço o que tenho que fazer, como todo mundo, e uma das coisas que tenho de fazer é servir na cama o café da manhã de minha mulher. Tento preparar um bom café, porque deste modo às vezes consigo melhorar sua disposição de espírito, que normalmente é péssima. Certa vez, não faz muito tempo, quando cheguei com a bandeja, ela levou as mãos ao rosto e começou a chorar. Olhei para a bandeja para ver se havia alguma coisa de errado. Era um belo café da manhã - dois ovos cozidos, uma porção de mil-folhas e uma Coca-Cola com um pouquinho de gim. É assim que ela gosta. Jamais aprendi a prepara bacon. Os ovos pareciam estar bons e os pratos estavam limpos; assim, perguntei o que havia. Ela retirou as mãos dos olhos - o rosto estava molhado de lágrimas e os olhos estavam fundos - e disse, com sotaque típico dos Boysen:

- Não agüento mais ser servida na cama por um homem peludo de cueca."

Trecho do conto "A Quimera" - de "O Mundo das Maçãs e Outros Contos" - de John Cheever (na tradução de Paulo Henriques Britto).

***

Deus é uma espécie de psicólogo originalmente freudiano que depois se encanou em Jung (quase todos, né?). E o resultado disto é que ele trata todo mundo com o uso contínuo de paráfrases.

Como você lá gritando para o Grand Canyon; e Ele eco, devolvendo suas afirmações e questões fantasiadas de paráfrase.

Deus é engraçado. Mas de um humor peculiar. Isso quer dizer que ele estará rindo convulsivamente enquanto você diz "ssassinhora, meu!".

***

"Porém minha mulher estava triste.
- O que foi, meu bem? - perguntei.
- É que eu tenho a impressão de que eu sou um personagem numa dessas comédias enlatadas de televisão - disse ela. - Quer dizer, eu sou bonita, elegante, tenho filhos engraçados e bonitos, mas eu tenho uma sensação horrível de que estou em preto e branco e qualquer um pode me desligar. É isso, essa sensação horrível de que qualquer um pode me desligar.

Milha mulher com freqüência fica triste porque sua tristeza não é uma tristeza triste, e sofre porque seu sofrimento não é esmagador. Dói-lhe o fato de que sua dor não é lancinante, e quanto lhe digo que este sofrimento causado pelas deficiências de seu sofrimento talvez seja uma nuança inédita do sofrimento humano, isto não a consola. Ah, tem vezes que penso em abandoná-la. Imagino que consiga viver sem ela e as crianças, eu poderia viver sem a companhia dos meus amigos; mas não seria capaz de abandonar meus gramados e jardins, de me separar me das telas da varanda que consertei e pintei tantas vezes, de me divorciar do caminho sinuoso de tijolos que construí entre a porta lateral e o canteiro de roseiras; assim, enquanto minhas cadeias forem feitas de relva e tinta de parede, ficarei preso até a morte. Mas naquele momento senti-me grato a minha mulher, por ela ter afirmado que as exterioridades de sua vida pareciam um sonho. As energias desinibidas da imaginação haviam criado o supermercado, a cobra e o bilhete na lata de graxa. Em comparação com tais coisas, meus devaneios mais fantásticos eram tão prosaicos quanto as partidas dobradas de uma escrituração. Agradou-me pensar que nossa vida cotidiana parece um sonho e que, em nossos sonhos, encontramos as virtudes do conservadorismo."

Trecho do conto "Uma Visão do Mundo" - de "O Mundo das Maçãs e Outros Contos" - de John Cheever (na tradução de Paulo Henriques Britto).

***

É batida a metáfora "do vaso nas mãos do Oleiro". Sobre a tal coisa Deus x Homem.

Eu prefiro pensar num Deus que é um massagista excessivamente mau humorado. O resultado final pode até ser bom; mas o durante é mesmo um inferno.

Ele estalando impessoalmente seus ossos, envergando sua coluna em máximo ponto de tensão, desdenhando da ciência de Resistência dos Materiais, te golpeando fortemente com musculosas mãos de padeiro. E você pensando que: putz lascou e agora vai quebrar de vez, meu Jesus!, minha nossa, minha mãe-de-Deus, afe Maria que não aguento mais.

Mas agüenta sim, pois o fardo é mais desajeitado que pesado. O fardo é uma caixa de papelão molhada cheia de tranqueiras. E você voltando toda hora para resgatar anjinhos caídos que despencam pelo caminho.



Escrito por Luciano �s 23h03
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purpurina e cinzas na cabeça de jó

Não se deixem enganar; perder é a regra.

Mas perder é apenas a conseqüência de falhar. E esteja certo de que há fissuras por todos os lados. E em um ponto qualquer, imperceptível ou aparente, a dona fissura nos faz o favor de aparecer toda afobada, acenando para as multidões, gritando bommmm diaaaa aos tolos sorridentes.

“The art of losing isn’t hard to master.”...

E não é mesmo difícil. E não exige preparo.

Ao contrário; todo preparo se faz inútil.

É como ensaiar um rock de três acordes (como um Ramones, ou algo) durante uma vida inteira, e quando da aguardada apresentação nos ser exigida uma peça de Mozart no piano.

E você lá brincando de bliblibli simulator, fazendo inúmeros e sofisticados crash tests mentais de grandes proporções, deixando passar que a maior catástrofe possível é teimar em querer pensar em todas as variáveis e chegar num controle ótimo.

E mais. Enquanto você ensaia a vida inteira os tais três acordes na garagem subterrânea do-seu-mundo-dentro-da-cabeça, e os calos nas pontas dos dedos pressionam insistentemente as cordinhas da vida, a Vida, ela própria com o V gigante, passa depressa feito garis anônimos correndo atrás do caminhão-lixo.



Escrito por Luciano �s 01h58
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e agora...

figurinhas

[via i don't mind a rainy day]



Escrito por Luciano �s 20h34
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mais blem-blem

blem

Escrito por Luciano �s 20h29
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provável melhor...

the end - de enquanto as letrinhas subindo. 

Escrito por Luciano �s 20h23
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na-nanana-nanana-nana

na-na

Escrito por Luciano �s 20h20
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sad sad dachshund

"19
A Pequena Resi Noth

"Na casa de Werner Noth, que ia sendo desocupada, fui para sala de música e encontrei a pequena Resi e o seu cachorro.

A pequena Resi tinha então dez anos. Estava enrolada numa cadeira de braços junto à janela. À sua frente via, não as ruínas de Berlim, mas o pomar dentro dos muros, a renda de neve feita pelo cume da copa das árvores.

Na casa não havia aquecimento. Resi estava envolvida num casaco, cachecol e grossas meias de lã. A seu lado encontrava-se uma pequena maleta. Estava pronta, esperando apenas a hora de partida da carreta que, lá fora, estava sendo carregada.

Tinha tirado as luvas compridas, arrumando-as no braço da cadeira. Descalçara as luvas para acariciar o cachorro que estava nas suas pernas. O cachorro era um dachshund que, com a dieta da guerra, havia perdido os pêlos e estava quase imobilizado por uma gordura hidrópica.

O cachorro parecia com os anfíbios pré-históricos que se arrastavam nos pântanos. Enquanto Resi o acariciava, seus olhos se esbugalhavam na cegueira do êxtase. Toda a sua atenção seguia as pontas dos dedos que, como dedais, batiam na sua pele.

Eu não conhecia Resi muito bem. Uma vez, logo no começo da guerra, ela me havia assustado, chamando-me de espião americano, na sua linguagem de criança. A partir daí eu me afastava tanto quanto possível de seu olhar infantil. Quanto entrei na sala de música fiquei espantado de ver como ela estava ficando parecida com minha Helga.

- Resi – comecei.
Ela não olhou para mim. – Eu sei, - murmurou, - está na hora de matar o cachorro.
- Não tenho muita vontade de fazer isso – confessei.
- Vai fazer você mesmo ou vai mandar alguém fazer?
- Seu pai me pediu para fazer isto.
Ela se voltou para me olhar. – Você agora é soldado – lembrou-me.
- Sou – concordei.
- Pôs o uniforme só para matar o cachorro?
- Vou para a frente de combate. Parei aqui para me despedir.
- Qual frente?
- A russa.
- Vai morrer.
- É o que dizem. Talvez não.
- Todos os que não estão mortos vão morrer dentro de pouco tempo – disse ela. Não parecia se preocupar muito com isso.
- Nem todos – retruquei.
- Eu vou.
- Espero que não. Tenho certeza de vai sair tudo bem com você.
- Não vou sentir dor quando morrer. Apenas de repente não existirei mais. – Empurrou o cachorro para fora de suas pernas. Ele caiu no chão, passivo como um Knackwurst.
- Leve-o – disse ela. – Não gosto mesmo dele. Tenho pena.
Apanhei o cachorro.
- Morrer é muito melhor para ele.
- Acho que tem razão – concordei.
- Morrer vai ser muito melhor para mim também.
- Não acredito nisto.
- Quer que eu lhe diga uma cousa? – perguntou.
- Diga.
- Como ninguém vai viver mais muito tempo, eu podia confessar-lhe que o amo.
- Isto é muito bom.
- Quero dizer que amo você de verdade - asseverou. - Quando Helga era viva e vocês dois viviam aqui eu tinha inveja dela. Quando Helga morreu, comecei a sonhar que ia crescer e casar com você e ser uma atriz famosa, e que você ia escrever peças para mim.
- É uma honra.
- Não quer dizer nada. Nada quer dizer nada. Vá agora e mate o cachorro.

Inclinei-me e saí, levando o cachorro. Levei-o ao pomar, coloquei-o na neve, tirei a minha pequena pistola.

Três pessoas me observavam. Uma era Resi, na janela da sala de música. Outra era o velho soldado, que devia estar vigiando as polonesas e russas.

A terceira era a minha sogra, Eva Noth. Eva Noth estava numa janela do segundo andar. Como o cachorro de Resi, tinha engordado hidropicamente com a comida da guerra. A pobre mulher, transformada em salsicha pelo tempo impiedoso, permanecia atenta, parecia pensar que a execução do cachorro era uma cerimônia um tanto nobre.

Dei um tiro na parte de trás do pescoço do cachorro. O ruído da pistola foi pequeno, comum, como um rápido cuspir de fogo.

O cachorro morreu sem estremecer.

O velho soldado veio para perto, manifestando um interesse profissional na espécie de ferimento que uma pistola tão pequena podia fazer. Virou o cachorro com a bota, achou a bala na neve, murmurou gravemente, como se eu tivesse feito uma cousa interessante e instrutiva. Começou a falar de todas as espécies de ferimentos que tinha visto ou de que ouvira falar, de todas as espécies de buracos em cousas anteriormente vivas.

- Vai enterrá-lo? – perguntou.
- Acho que é melhor – respondi.
- Se não enterrar- concluiu –, alguém o comerá."

(Capítulo 19 de O Espião Americano – Mother Night, 1961 - de Kurt Vonnegut. Na tradução de Hindemburgo Dobal – Editora Artenova, 1971)



Escrito por Luciano �s 01h24
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além do bem mal

Eu fugi da aparência do Mal.

Mas nem fechei a braguilha e saí feito doido, olhos esbugalhados, boca torta e escancarada, correndo para o lado errado e atropelando barracas de hortifrutigranjeiros, pisando em pescoços de frangos halterofilistas transgênicos e dando pontapés em abacates e abóboras cambotiã (enquanto dezenas de feirantes me vaiavam).

Por falar nisto, um conhecido me disse que certa vez houve uma grande explosão em uma feira livre qualquer. Corpos para todo lado. Desmembramentos que botariam um sorriso largo na cara de Groo, O Errante. Braços e pernas e cabeças órfãs de corpos e tal.

E logo depois o pessoal passava por ali e exclamava o tempo inteiro:

- Caramba! Eita, olha lá uma cabeça!

- Jesus, ó aqui um braço!

- Putz, ó só o tamanho daquela perna!

- Mãe-de-Deus, ó as tripa tudo!

Então havia dificuldade em identificar corpos.

Daí que encontraram um braço inteiro perdido a uns dez metros dali. Mas neste caso foi muito fácil, e viram imediatamente que era o braço do japonês feirante.

Sabe como é que tinham tanta certeza?

Simples.

A mão segurava um pastel.
 
*

E o Mal. O que seria o Mal?

Mas tenho mesmo de perguntar uma coisa: como, raios, Nietzsche conseguia comer com aquele bigode?

E sexo oral, então?  E sorvete de casquinha? E farofa?

Hein?



Escrito por Luciano �s 00h26
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À Associação dos Neonazistas de Pindamonhangaba [repost]

Venho por meio desta, em plena posse de minhas ilibadas faculdades mentais e psicomotoras, contestar veementemente as injúrias a mim lançadas por colegas de nosso grêmio... quero dizer, de nossa renomada instituição. Para tanto, separei minha argumentação em tópicos de forma a proporcionar claro e inequívoco entendimento.

De minha suposta origem nordestina
Se há algo incontestável é o que se refere à pureza de meu sangue; um sangue vermelho-escuro que, ainda que por demais espesso, corre por minhas nobres veias em velocidade superior a que Robson Caetano aplicaria em busca de uma marmita. Geneacologistas idôneos, em estudo minucioso, traçaram minha árvore genealógica, cujos frutos são dos mais viçosos, além de apresentarem uma tênue penugem que os torna objeto de volúpia – o que nos remete, é claro, ao nosso Wando, amante de pêssegos, símbolo máximo da música e arte neonazi, cuja principal composição “Fogo e Paixão” ombreasse, ou mesmo supera, o “Anel dos Nibelungos”, obra prima do nosso querido Wagner
Sobre o fato de meu crânio ser, digamos, levemente plano – os ignorantes diriam que tenho a cabeça “achatada” -, esclareço que é resultado de um lamentável acidente ocorrido quando eu ainda era bebê. E ainda agora me lembro como num filme: eu - pequeno, barrigudinho, pontinhos esverdeados de ramela no canto dos olhos, um par de fios de coriza saíam juntinhas de meu pequeno nariz, e, tal como lágrimas, afastavam-se entre si delineando minhas bochechas rosadas até, no ápice, se reencontrarem alegremente no extremo de meu queixo pontudo - estava na banheira e me estiquei todo para apanhar meu patinho de borracha que pousava docemente sobre a pia, no que escorreguei e caí de cocoruto no chão, quicando várias vezes até o corredor enquanto chacoalhava freneticamente minhas perninhas rechonchudas.

De meus supostos traços indígenas
Nunca usei um short Adidas ou Havaianas, muito menos executei a dança da chuva usando a palma da mão para esconder e mostrar a boca enquanto se grita “hu”. Se meus olhos são levemente estreitos e diagonais se deve ao fato de quando em criança ter imitando muito nossos amigos japoneses - aliados importantes na nossa luta da segunda guerra –, em que repuxava meus olhos com fitas crepe afixadas do canto dos olhos às minhas têmporas. Também desminto qualquer um que diga que meu livro de cabeceira é “O Guarani”; já “Mein Kampf” leio até no banheiro, principalmente.


De minha possível ligação com judeus
Não é verdade que eu tenha um dia vendido minha mãe; alugar e vender são transações completamente distintas. Nego também que eu seja circuncidado - ou seja, nunca operei da fimose -, e se meu membro apresenta tal característica dêem graças ao cachorro desgraçado que um dia quase me arrancou o pinto. Também dizem que meu nariz é adunco; mentira, visto que originalmente é levemente arrebitado, mas foi achatado por uma porta fechada sem aviso quando eu, com as calças arriadas, corria atrás de minha empregada de 65 anos.

De minha cútis
Má fé, ou falta de um espírito observador, acomete os que argumentam que eu teria sangue negro. Um absurdo. Não há dúvida, minha cútis original é tão alva que poderia cegar ao refletir um minguado raio de sol, e tão macia e branquinha como um tufo fofo de algodão. Tanto que isso fazia com que eu recebesse de meus amiguinhos apelidos carinhosos tais como “melanina zero”, “bigato” e “alemão”. “É uma questão de adaptação”, como diria nosso mentor Darwin. Hoje, se apresento este bronzeado sensual é simplesmente por ter vivido muitos anos em Araçatuba, interior de São Paulo, onde o Sol, com a conivência das nuvens ausentes e do vento que mal consegue chacoalhar uma roseira, fustiga nossas peles alvas como a neve, dando-lhes este bronzeado pelo qual podemos erroneamente ser tomados por mestiços (cabe aqui uma breve digressão: nessa mesma cidade do sol ardente, houve tempo em que faziam o transporte de ovos utilizando caminhões frigoríficos, pois de outro modo todos chegariam já cozidos aos seus destinos; ainda lá, rememoro nostalgicamente, meu hobby predileto era utilizar os impiedosos raios solares para fritar ovos  na calva suada de judeus gordinhos, no que eles gritavam: “Oh, D’us, outra Holocausto! Socorra, a nazista estar fritando uma ovo em meu cabeça”; e digo, sem qualquer exagero, que era por demais instigante o desafio de manter a gema do ovo no centro do kipá – que para quem não se lembra é o boné-tampa-de-laranja).  

Epílogo
Espero que as considerações acima sejam suficientes para sanar quaisquer dúvidas sobre minha nobre origem, e anseio, pelo bigodinho do Fürer, continuar na luta por um mundo melhor e mais limpinho. Um mundo de amor fraternal, de amor entre camaradas distintos de puro sangue, de nossa integração íntima, a sublimação de nossas virtudes arianas.

Aiii, Hitler!

ass. Severino Zulu Goldenstein – o ariano puro sangue.

 

Richard Wagner, o nibelungo dos nibelungos.

"Você é luz, é raio estrela e luar, manhã de sol, meu iaiá, meu ioiô.
Você é sim, e nunca meu não, quando tão louca me beija na boca e me ama no chão."
Versos imortais de Wando - nosso maior artista ariano contemporâneo 



Escrito por Luciano �s 22h39
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musquinha

Ottoman - nova do Vampire Weekend.

Não tão boa quanto, por exemplo, Campus ou Walcott; mas ainda assim boa.

[via Rudá]



Escrito por Luciano �s 21h02
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o conto ruim sobre coisa ruim – ou 1975 (tlinta e tles)

How terrible it is when you say I love you and the person on the other phone shouts back ‘What?’ "
- J.D. Salinger (Raise High the Roof Beam, Carpenters)

How terrible it is when you ask ‘how much?’ and the person in front of you shouts back ‘Echi chechenta e echi chechenta’. And you ask “but is there difference?”, and the person shouts back again‘Echi chechenta e echi chechenta’". 
- A customer (going shopping in Ciudad del Leste – Paraguay)

                                        

Daí você pensa assim: “logo hoje vou cometer um texto pior que a média”.

E certo disto, insiste e começa deste jeito:

É véspera de ano novo, mas você brinca o dia inteiro na rua como se o dia fosse qualquer outro.  À tarde volta pra casa e alguém comenta que x esteve com febre o dia todo.

Todos se arrumam e colocam roupas não necessariamente novas (mas nunca excessivamente velhas) pro dia de ano novo.

Um dia como qualquer outro.

E saem juntos. Os pneus das bicicletas zunindo sobre a terra batida, mascando areia fina e pedregulhos, levantando a poeira no ar seco e indo de encontro ao vento que desgrenha cabelos indiscriminadamente.

Próxima parada: hospital.

Todos na sala de espera, ligeiramente ansiosos por descobrirem de onde vem a febre de x. E depois de um tempo considerável, decide-se que é melhor as crianças irem pra casa da mãe da mãe.

*

E você deita e dorme o mesmo sono de sempre, como em um dia feito qualquer outro.

Acorda abruptamente. E de certa forma sabe exatamente do que se trata. Como se sempre soubesse.

O filho do seu avô (que não é seu tio) senta perto de você e diz: “O x não agüentou”.

Onde o nome de x é mencionado com um sufixo diminutivo, e você entende, mesmo com a sua idade (como se já houvesse vivido muitos anos a mais), mesmo absurdamente sonolento, você entende instantaneamente tudo que precisa: a frase fora do contexto, o ambiente familiar mas estranho, a inflexão da voz.

E percebe tudo de forma tão natural, transparente e inconsciente, que acaba por achar que você chora injustificadamente.

*

Feliz Ano Novo!

*

Seu coração pesa pouco. No que tende a se sentir um pouco culpado por não sentir peso maior.

E você segue o dia todo jogando River Raid em um dos vizinhos; e joga como se o dia fosse qualquer outro.

Volta pra casa no fim da tarde, e todos estão lá como se a reunião em família fosse uma como qualquer outra. A caixa retangular suspensa no meio da sala, as flores, as cadeiras coladas às paredes.

Uma estranha vem do corredor e afaga seu cabelo. Você olha pra ela e sorri.

- Não se preocupe; porque logo ele voltará de novo como uma criancinha deste tamaninho – ela diz enquanto aproxima as mãos espalmadas de forma a demarcar na horizontal os limites verticais imaginários do futuro bebê.

E você sorri.

Não exatamente um sorriso arrogante. Mas sorri pelo tom didático e paternal. Pela inflexão, as palavras peneiradas, o tom amparador.

- Reencarnação? – você pergunta ainda sorrindo.

E se naqueles tempos você conhecesse Salinger, provavelmente se sentiria no papel de Teddy, representando feito um canastrão um personagem do qual não é digno. Mas não, não se sente um canastrão como hoje quando cita um escritor russo - a voz saindo espremida pelo temor atroz de soar pretensioso ou charlatão, ou fazer uma persona derivada de qualquer ficção que tenha lido.

Então você cita Hebreus 9:27, que pra você é argumento mais do que suficiente. E completa explicando também o episódio do nascer de novo, veja bem, nascer de novo da água e do espírito. E destaca o fato de que o interlocutor de Cristo menciona sobre voltar ao ventre, e que Cristo reafirma: da água e do espírito.

E você sorri.

E a moça sorri diagonalmente de volta, possivelmente pensando que “lancei uma pérola pra um porquinho desse tamaninho”.

*

Às vezes você entra em casa e ouve o choro abafado. Dias, semanas, e até mesmo depois de anos.

E imagina o quanto pesa o fardo deles. Ao mesmo tempo em que analisa se seu próprio fardo não é leve demais.

Supõe que talvez seja um pouco mais forte que a média (mas nunca se convence).

*

Após duas décadas você ainda mede e pesa o seu. Fardo. Ainda refletindo sobre a medida justa.

E em um dia como qualquer outro, acorda com próprio choro, percebendo que toda a vida sempre foi leve demais.

Então pede perdão, ainda que possivelmente não haja falta, dolo ou pecado.

Mas você sabe que não há ninguém ouvindo lá no escuro.

E então chora mais até pegar no sono de novo.

Como em um dia feito qualquer outro.



Escrito por Luciano �s 23h57
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